SINDICATO DOS TRABALHADORES DO JUDICIÁRIO FEDERAL E MINISTÉRIO PÚBLICO DA UNIÃO - FUNDADO EM 28 DE NOVEMBRO DE 1998 - FILIADO À FENAJUFE E CUT

PRIVILÉGIOS

Americanas admite fraude contábil, mas, até o momento, ninguém foi punido ou responsabilizado

Na última semana, as investigações sobre o rombo bilionário na Americanas ganharam novos contornos. Na terça-feira, 13, a própria empresa divulgou comunicado ao mercado admitindo que o ocorrido se tratou de uma fraude. No mesmo dia, o atual presidente da Americanas disse à Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Câmara dos Deputados que investiga o caso que, de fato, houve irregularidades cometidas pela gestão anterior. Cinco meses após o estouro do escândalo, ninguém foi punido ou sequer responsabilizado, velocidade muito diferente da que a Justiça e a polícia costumam utilizar com a população pobre.

Entenda o caso

Na virada de ano, o CEO Sergio Rial assumiu a Presidência da Americanas. Porém, apenas dez dias depois, Rial renunciou ao cargo, após descobrir um rombo de R$ 20 bilhões nas contas da empresa. Esse valor refere-se a dívidas que estavam sendo erroneamente contabilizadas: a empresa pediu empréstimos para pagar os fornecedores (em operações chamadas de “risco sacado” e, em vez de essas dívidas serem contabilizadas como tal, foram registradas como despesas com fornecedores. Isso esconde as dívidas acumuladas, apresentando a potenciais acionistas e possíveis credores uma realidade financeira que não existe, como se a empresa tivesse menos dívidas do que na realidade possui. Chamada de “inconsistência contábil” por alguns, a prática foi caracterizada como uma “fraude multibilionária” pela Abradin, associação que reúne acionistas minoritários de empresas de capital aberto.

A Americanas emprega quase 50 mil trabalhadores e trabalhadoras e possui 3,5 mil lojas espalhadas pelo país, com faturamento de R$ 55 bilhões anuais. No dia 19 de janeiro, a Americanas pediu recuperação judicial. Em 17 de maio, a Câmara dos Deputados instalou uma CPI para apurar o caso, com prazo de 120 dias, prorrogáveis por mais 60 dias.

Fraude admitida

Na última terça-feira, 13, a Americanas divulgou ao mercado um “fato relevante” e, pela primeira vez, utilizou a palavra “fraude” para caracterizar o que ocorreu na empresa. Na véspera, o relatório sobre o tema fora apresentado por assessores jurídicos ao conselho de administração. O documento indica a participação na fraude do ex-presidente-executivo Miguel Gutierrez, que se desligou da empresa em dezembro de 2022, bem como de outros ex-diretores e antigos executivos. Além disso, afirma que houve esforços da diretoria anterior para ocultar a real situação do resultado e patrimonial.

Na CPI da Câmara, também na terça, o diretor-presidente das Americanas, Leonardo Coelho Pereira, apresentou documentos e trocas de e-mails referentes à diretoria anterior e que, segundo o executivo, demonstram as irregularidades: “Essas evidências trazidas ao senhores e às senhoras hoje, elas não mais me permitem, como diretor- presidente que estou desde 15 de fevereiro, tratar como inconsistências contábeis”, afirmou Pereira.

Quem são os acionistas majoritários da Americanas?

Desde o estouro do escândalo, especialistas dizem ser improvável que o rombo tenha passado despercebido pelas gestões anteriores e pelos acionistas majoritários. Os bilionários Jorge Paulo Lemann, Marcel Telles e Carlos Alberto Sicupira possuem cerca de um terço das ações da Americanas. Lemann, que vive na Suíça, é o homem mais rico do Brasil, com uma fortuna estimada em quase R$ 80 bilhões. Ele e seus sócios – que são proprietários da 3G Capital – atuaram diretamente para a privatização da Eletrobras, da qual também são acionistas.

Reportagem do jornalista Luis Nassif denuncia, sobre Lemann, que “a forma como se apropriou da Eletrobras é indecente, fruto de lobby direto na veia do poder público. Entrou como minoritário, no golpe do impeachment passou a ter poder de indicação dos gestores. Estes reduziram investimentos – que eram relevantes para o país – para garantir dividendos polpudos. A 3G, controlada por ele, produziu uma avaliação do preço da Eletrobras indecente, tomando como base o valor contábil da empresa. O golpe da privatização ocorreu com a empresa emitindo ações, que diluíram a participação estatal, e impuseram um acordo de acionistas pelo qual a União só tem direito a 10% dos votos, independentemente de sua participação acionária”.

Com informações do portal G1 e do GGN