SINDICATO DOS TRABALHADORES DO JUDICIÁRIO FEDERAL E MINISTÉRIO PÚBLICO DA UNIÃO - FUNDADO EM 28 DE NOVEMBRO DE 1998 - FILIADO À FENAJUFE E CUT

CASA DA MORTE

Britânicos ensinaram à ditadura brasileira técnicas de repressão e como montar centro clandestino de tortura

Em dezembro de 1970, um grupo de militares fez um “estágio de informações” na Inglaterra. Logo depois do retorno ao Brasil, o então chefe da seção de contrainformações do gabinete do ministro do Exército da ditadura civil-militar, coronel Cyro Guedes Etchegoyen, deu início à criação de um centro clandestino de torturas e assassinatos na região serrana do Rio de Janeiro que ficou conhecido como “Casa da Morte de Petrópolis”. O “Relatório do Estágio de Informações na Inglaterra” faz parte dos documentos de Etchegoyen que estão sendo publicados no projeto “Bandidos de farda”, do ICL Notícias, produzido nos últimos sete meses com uma série de reportagens e um documentário que estreará no dia 17 de maio.

O projeto do ICL revela os crimes que o coronel escondeu em um arquivo mantido por ele até sua morte. São 23 pastas e 3 mil páginas de documentos públicos inéditos, que pertenciam ao acervo do Exército brasileiro, mas que foram levados ilegalmente pelo coronel e que ficaram guardados com um outro militar após a morte dele. Em outubro do ano passado, uma fonte, cuja identidade é mantida em sigilo por segurança, entregou uma primeira parte ao Instituto Fernando Santa Cruz, que leva o nome de um militante da Ação Popular (AP) desaparecido desde 23 de fevereiro de 1974.

De acordo com os documentos, estiveram no Reino Unido para “estágio”, Etchegoyen, do Centro de Informações do Exército (CIE); o coronel Milton Machado Martins, do Serviço Nacional de Informações (SNI), e os tenentes-coronéis Moacyr Coelho, do SNI, e Milton Masselli Duarte, do CIE. “A visita foi exclusiva para oficiais brasileiros, os quais foram considerados hóspedes oficiais do governo inglês”, informaram os militares no relatório.

“Isolado do mundo”

Os relatórios afirmam que os militares britânicos “demonstravam compreensão, não crítica” em relação aos casos de tortura denunciados no Brasil durante a ditadura. Os documentos produzidos pelos quatro militares contam com detalhes como aprenderam com britânicos do Secury Service (MI-5) técnicas e estratégias para criar um “centro de interrogatório próprio, em lugar afastado”, onde o preso chegaria de capuz e ficaria “incomunicável, isolado do mundo”, para quebrar a resistência da vítima.

Os ingleses ensinaram que o melhor interrogatório é longo e extenuante. “Em princípio, o preso não dorme ou lhe é permitido cochilar (sempre levado à cela) por cerca de dez minutos (o melhor processo) e depois volta a ser interrogado. As diretrizes também incluíam o controle absoluto da iluminação, alternando períodos de claridade e escuridão à exaustão contínua e ruídos incômodos, como o som de vazamento de gás.

Outro método empregado era a chamada “geladeira”, que consistia em manter a vítima em ambientes com ar-condicionado em temperatura extremamente baixa ou extremamente alta. Etchegoyen descreveu que a orientação dos britânicos foi para que o preso não tivesse o básico: “Inicialmente, a alimentação (após a autorização do interrogador) deve ser péssima e água ruim”.

Apenas uma sobrevivente

A Casa da Morte, mantida pelo Centro de Informações do Exército, órgão do gabinete do ministro do Exército, na época, foi criada entre janeiro e fevereiro de 1971, durante o governo do presidente-ditador Emílio Garrastazu Médici, período mais violento do regime. O centro funcionava em uma casa cedida por um alemão, aliado dos militares, em um ponto isolado de Petrópolis.

Não há dados precisos sobre o número total de presos levados para o local, mas a ex-guerrilheira Inês Etienne Romeu é considerada a única vítima a sair viva de lá, em agosto de 1971, após um período que sofreu torturas e estupros. Ao sair do local, ela relatou as execuções de sete pessoas que foram reconhecidas pelo Estado brasileiro como desaparecidos políticos e mencionou dados sobre outros quatro opositores do regime que foram assassinados. Inês morreu, em 2015, aos 72 anos.

Autor de “Segredos de Estado: o governo britânico e a tortura no Brasil”, o cientista político João Roberto Martins Filho apontou o manual escrito pelo coronel Etchegoyen como a prova mais importante surgida até agora sobre a colaboração britânica com a ditadura brasileira. “Os britânicos, que sempre tiveram muito cuidado em esconder essa colaboração com o Brasil, vão ficar muito irritados ao descobrir que os brasileiros deixaram tudo escrito, detalhe por detalhe”, disse Martins Filho.

O coronel guardava em seu acervo também, o caso de estupro da vendedora de joias Marilene de Santos Mello. Em 19 de dezembro de 1969, ela foi sequestrada por integrantes do CIE e violentada dentro de uma viatura do Exército. Os documentos também revelam que militares ligados a Etchegoyen e colegas roubavam objetos dos imóveis onde cumpriam diligências. Entre os itens estavam dinheiro e até automóveis.

Com informações de ICL Notícias e Folha de S. Paulo