SINDICATO DOS TRABALHADORES DO JUDICIÁRIO FEDERAL E MINISTÉRIO PÚBLICO DA UNIÃO - FUNDADO EM 28 DE NOVEMBRO DE 1998 - FILIADO À FENAJUFE E CUT

Aqui e lá

Violência policial, demissões em massa e descaso do Estado: nos EUA e no Brasil, o racismo perpassa a crise sanitária e econômica

Não consigo respirar. A frase foi repetida várias vezes pelo segurança negro George Floyd, em Minneapolis, Estados Unidos, no dia 25, antes de morrer asfixiado após ter o pescoço pressionado pelo joelho por Derek Chauvin e outros dois policiais, todos brancos. Desempregado devido à crise ocasionada pela pandemia do novo coronaví­rus, Floyd, com sua morte, expôs, ainda mais, o racismo estrutural. Nos Estados Unidos e no Brasil, negras e negros são os mais afetados pela crise sanitária e econômica.

Desde a chegada da pandemia, estima-se que foram perdidos mais de 36,5 milhões empregos nos Estados Unidos, um número comparável apenas à Grande Depressão nos anos 1930, dado que revela o barril de pólvora sob qual Donald Trump tenta manter o controle, mesmo que pela força. No Brasil, além do desemprego que dispara, mais de 100 milhões de pessoas entraram com pedido de Auxí­lio Emergencial (R$ 600,00) num universo de cerca de 210 milhões de brasileiros; é a desigualdade que cresce e atinge ní­veis insuportáveis.

Há dias, em várias cidades norte-americanos, as ruas estão tomadas por protestos, diante da brutalidade policial. O prefeito de Minneapolis pediu desculpas publicamente, no que foi chamado de fraco por Trump, que ameaçou colocar forças federais para conter os protestos. No Brasil, onde a linha governamental parece ser a de aproveitar a pandemia para passar a boiada , somente no Rio de Janeiro, desde o iní­cio da crise sanitária, 14 pessoas foram baleadas dentro de casa, em ações policiais que vitimaram moradores de favelas, a ponto de o Ministério Público Federal pedir à polí­cia que cesse as ações durante a pandemia.

Nos primeiros meses da pandemia, eram comuns afirmações de que ela afetava a todos, independentemente de raça ou classe social. A realidade mostra que isso não é uma verdade absoluta. Aqueles com empregos precários, subempregos, informais foram os mais afetados. Tanto nos Estados Unidos quanto no Brasil, apesar das diferenças nas formações sociais entre os dois paí­ses, pessoas negras estão na base da pirâmide e sofrem mais duramente as consequências.

Negros e negras são os mais afetados pela covid-19

Nos EUA, o Comitê de Advogados pelos Direitos Civis sob a Lei está solicitando que as informações sobre as ví­timas da covid-19 incluam raça. De acordo com relatório preliminar do Centro para Controle e Prevenção de Doenças, um órgão do governo, apesar de os negros representarem 13% da população norte-americana, são 33% dos afetados pela covid-19 no paí­s. Outro estudo, da Fundação de Pesquisa sobre Aids, também dos Estados Unidos, mostra que, nos condados com maior número de residentes negros, estes respondem por 52% das infeções pelo novo coronaví­rus e 58% das mortes por covid-19.

Estados Unidos e Brasil estão no grupo dos quatro paí­ses com mais mortos por covid-19. Têm em comum a postura de seus presidentes: negação, descaso pela saúde, defesa de abertura da economia em detrimento da vida e como afetam a população negra. Nos EUA, a presidente do Comitê de Advogados, Kristen Clarke, afirma que os apelos agressivos do governo Trump para reabrir a economia representam uma ameaça direta à vida dos negros. Para ela, os Estados não devem colocar lucros sobre as pessoas e devem tomar medidas que ajudarão a salvar vidas .

No Brasil, no iní­cio de maio, a Justiça Federal do Rio de Janeiro havia determinado que as notificações de morte pela covid-19 tivessem informações sobre raça e cor das pessoas infectadas. A liminar foi suspensa a pedido da União. Apesar de esse registro ser obrigatório, 30% das notificações não apresentam essas informações. O prefeito de São Paulo, Bruno Covas, reconheceu que semanalmente o número de mortos vai aumentando muito na periferia . Como é na periferia que vive a maioria das famí­lias negras, fica evidente que negros e pobres são os mais afetados; 80% de negras e negros brasileiros é usuária do Sistema único de Saúde, a falta de recursos para o SUS afeta diretamente a imensa maioria da população negra no paí­s.

Análise de quase 30 mil casos de internações por covid-19, feita pelo Núcleo de Operações e Inteligência em Saúde da PUC-Rio mostra o impacto das desigualdades sociais na letalidade da doença. Quanto maior o ní­vel de escolaridade, maiores as chances de recuperação, embora os negros, mesmo que tenham a mesma faixa de escolaridade, apresentem uma proporção de mortes em média 37% maior do que os brancos. Entre os pacientes internados de cor branca, 62,07% se recuperaram, enquanto 37,93% morreram. Entre negros, a situação se inverte: são 54,78% de mortes e 45,22% de recuperados. As chances de um paciente negro e analfabeto morrer em decorrência do novo coronaví­rus no Brasil são 3,8 vezes maiores do que as de um paciente branco e com ní­vel superior.

O racismo afeta a população negra até mesmo nas medidas de proteção

Em cartilha de orientação sobre a covid-19, a Sociedade Brasileira de Medicina de Famí­lia e Comunidade (SBMFC) alerta que, assim como bonés, capuzes, capacetes e até guarda-chuvas, as máscaras tornam os homens negros suspeitos pela polí­cia, pois cobrem parte do rosto. Por isso, a orientação é que, se, por qualquer razão, você tiver acesso a máscaras industrializadas descartáveis, prefira essas. Elas são associadas à saúde não à criminalidade . O mesmo não vale para um homem branco.

Para o diretor do Sintrajufe/RS Mario Augusto Silva Marques, “o congelamento dos salários e dos concursos públicos só agrava a situação . O dirigente ressalta que a pandemia mostrou que a população precisa de mais serviço público e não menos; mais postos de saúde, testagem em massa, proteção dos empregos e salários, pesquisa nas universidades. Infelizmente tudo nos leva a crer que o governo brasileiro aposta no caos. E, para conter o caos, prepara o aumento da já brutal violência policial que tanto afeta a população negra e pobre no Brasil. A situação é insuportável para milhões de brasileiros”, afirma o diretor sindical.