A Central Única dos Trabalhadores do Rio Grande do Sul (CUT-RS) promoveu, nessa quarta-feira, 17, o seminário Economia Solidária e Sindicalismo, no auditório do SindBancários, em Porto Alegre. Representado pela diretora Mara Weber, o Sintrajufe/RS participou da atividade, que reuniu trabalhadoras, trabalhadores, dirigentes sindicais, representantes de empreendimentos solidários e gestores públicos para debater modelos econômicos alternativos baseados na cooperação, na autogestão e na valorização do trabalho humano. A partir do seminário, foi constituído o Coletivo de Economia Solidária da CUT-RS.
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O seminário teve como objetivo aproximar o movimento sindical das experiências da economia solidária. Conforme matéria publicada no site da CUT-RS, a iniciativa integra uma agenda estratégica da Central “voltada ao enfrentamento das desigualdades estruturais, à ampliação da autonomia da classe trabalhadora e ao estímulo de práticas econômicas que coloquem a solidariedade no centro das relações produtivas”.
Para a diretora do Sintrajufe/RS Mara Weber, “o seminário marcou um resgate do legado e acúmulo que a CUT tem no tema autogestão e cooperativismo solidário. Precisamos partir desse legado e atualizar para os tempos que vivemos onde o capitalismo financeirizado tem impactado a Classe de forma muito cruel, com perdas de direitos, precarização das relações de trabalho e destruição do planeta e alienação sem precedentes através de ideologias individualistas como a meritocracia e do empreendedorismo; A economia solidária, a autogestão e o cooperativismo solidário são estratégicos para confrontar essas ideologias e construir experiências de outra economia possível com trabalho digno, relações de trabalho e consumo justas, garantia de direitos sociais, cooperação, solidariedade e respeito ao meio ambiente”.
O presidente da CUT-RS, Amarildo Cenci, reconheceu que a central sindical ainda está em débito com o tema. Segundo ele, apesar dos avanços recentes no cenário político nacional e estadual, é preciso ir além do apoio formal e assumir a economia solidária como uma política estratégica. Cenci destacou o potencial de parcerias entre governo, sindicatos e empreendimentos solidários: “Nós temos um potencial muito grande de parceria e fortalecimento das partes a nível nacional. Então, a CUT precisa definir uma política que não é só discutir o tema, de ser um apoiador, mas também um construtor”, afirmou.
O vice-presidente da CUT-RS, Everton Gimenez, destacou a importância do diálogo entre sindicatos, empreendimentos da economia solidária e mandatos de esquerda. Segundo ele, há necessidade de interação permanente entre o movimento sindical, as experiências de base e as iniciativas institucionais comprometidas com outro modelo de desenvolvimento.
O secretário nacional de Economia Solidária da CUT e diretor do Sindicato dos Trabalhadores em Processamento de Dados, Informática e Tecnologia da Informação de Pernambuco (SINDPD/PE), Admirson Medeiros, conhecido como Greg, destacou que o seminário cumpre um papel fundamental de estímulo a um debate que precisa ganhar centralidade no movimento sindical. Ele lembrou que a economia solidária já faz parte das resoluções congressuais da CUT e que o desafio atual é ampliar a compreensão da organização da classe trabalhadora sobre os impactos da precarização, da plataformização do trabalho e da redução de direitos, alertando que as tecnologias e as plataformas digitais têm aprofundado a fragmentação da classe trabalhadora. Nesse contexto, defendeu a criação de plataformas próprias da classe trabalhadora e a construção de um coletivo permanente para aproximar sindicatos e empreendimentos solidários, pensando estratégias conjuntas de transformação social.
“Hoje o nível de sindicalização, por exemplo, é baixíssimo. São poucos os sindicatos que conseguem ter um nível de sindicalização alto. Daí a necessidade da gente criar um coletivo que pense uma estratégia de aproximar o nosso sindicato, os empreendimentos da economia solidária e ver como é que a gente pode, junto, fazer esse processo de transformação”, completou Greg.
Relações de trabalho
A coordenadora geral da Guayí – Democracia, Participação e Solidariedade e integrante da Rede Feminista de Economia Solidária, Helena Bonumá, ressaltou que a economia solidária faz sentido porque responde diretamente às necessidades concretas da vida das pessoas. Segundo ela, essas experiências representam resistência, sobrevivência e inserção social nos territórios, com articulação de trabalho, renda e pertencimento comunitário.
Bonumá destacou a diversidade das experiências autogestionárias existentes nas cinco regiões do país e defendeu a necessedidade de rediscutir as relações de trabalho e ressignificar a economia solidária. Ela também parabenizou a CUT pela convocação do seminário e pelo esforço de intermediação com o movimento sindical. “O diálogo aqui é o diálogo da CUT e com o movimento sindical. Como militante socialista, a autogestão do trabalho está no nosso DNA. É preciso ousadia para rediscutir as relações de trabalho e ressignificar a economia solidária em um país gigante como o Brasil, marcado pela diversidade produtiva, étnica e cultural”, destacou.
A diretora-presidente das cooperativas Univens e Justa Trama, Nelsa Nespolo, trouxe um relato concreto da relação histórica entre cooperativas e sindicatos. Ela lembrou que a Univens, formada majoritariamente por mulheres da periferia da zona Norte de Porto Alegre, conseguiu se viabilizar economicamente quando passou a fornecer camisetas para sindicatos, como o dos metalúrgicos, parceria que se mantém até hoje. “Por apostarem num grupo de 35 mulheres da periferia que fez com que chegássemos onde nós estamos até hoje.”
Para ela, a relação demonstra a possibilidade de construir um conceito ampliado de classe trabalhadora. Ao mesmo tempo, alertou para os desafios da informalidade, que coloca trabalhadores e trabalhadoras na invisibilidade, sem direitos, renda garantida ou aposentadoria, apontando a necessidade de políticas que enfrentem essa realidade.
Reflexão sindical
Já Cláudio Nascimento, da Secretaria Nacional de Economia Solidária (Senaes), destacou a autogestão como princípio fundamental da economia solidária, inseparável da educação popular. Ele afirmou que esse tripé — autogestão, educação popular e economia solidária — está na base das experiências históricas de organização do trabalho no Brasil. Nascimento provocou a CUT a refletir sobre suas próprias escolhas ao longo do tempo e defendeu que a central amplie permanentemente sua atuação, superando o fechamento para os territórios e para as experiências de base.
“A Central Única dos Trabalhadores nasceu com essa inspiração de vir das bases, das comissões de fábrica, etc… Então a grande questão é essa: alargar a sua ação de uma maneira mais permanente, quebrar essa descontinuidade, sobretudo por razões internas, de permanecer num sindicalismo fechado em si próprio, sem se abrir para a cidade, sem se abrir para os territórios”, pontuou Nascimento.
Ao final do seminário, houve participação de trabalhadoras, trabalhadores e dirigentes sindicais que contribuíram para o debate de consolidar alternativas econômicas capazes de enfrentar os desafios contemporâneos do mundo do trabalho, com o apoio e fortalecimento do movimento sindical, apontando caminhos para uma economia mais democrática, solidária e comprometida com a vida digna.
Com informações do Brasil de Fato RS














