SINDICATO DOS TRABALHADORES DO JUDICIÁRIO FEDERAL E MINISTÉRIO PÚBLICO DA UNIÃO - FUNDADO EM 28 DE NOVEMBRO DE 1998 - FILIADO À FENAJUFE E CUT

SUPEREXPLORAÇÃO

Cresce a escala de trabalho “996” nos Estados Unidos, prática proibida em seu país de origem desde 2021; entenda

Vem crescendo nos Estados Unidos, na carona da Inteligência Artificial (IA), a utilização da escala de trabalho conhecida como “996”. Surgida na China no início do século, a prática é hoje proibida no país asiático, mas está em ascensão nas empresas de tecnologia estadunidenses.

Originalmente, o nome dado à escala foi 996 porque representava o trabalho das 9h da manhã às 9h da noite, seis dias por semana. Hoje, porém, serve para nomear jornadas extenuantes, geralmente de cerca de 12 horas, sem finais de semana.

A escala 996 ganhou força na China no contexto do “boom” tecnológico no país, mas foi proibida no país em 2021, após protestos e críticas por conta dos recorrentes problemas de saúde, inclusive com mortes, causados pelo excesso de trabalho. Um dos casos que chamou atenção no país foi o de um jovem de 25 anos que morreu após sofrer uma hemorragia cerebral. Ele atuava em uma startup de tecnologia, que negou que ele estaria sobrecarregado, apesar de estar trabalhando sob a escala 996.

Os empresários entusiastas da escala 996 dizem que ela é necessária para aumentar a produtividade e, no caso das empresas relacionadas ao desenvolvimento de Inteligência Artificial, para que sejam capazes de participar da corrida por inovação. Seu discurso tenta convencer os trabalhadores de que o trabalho por mais horas e com menos dias de descanso é “parte da vida”, necessário para “fazer coisas incríveis”, além de revelar “paixão” pela atividade que desenvolve. Essa lógica acaba convencendo alguns trabalhadores, enquanto outros simplesmente têm de se submeter às jornadas exaustivas para se adequar ao mercado, já que nem todas as legislações são proibitivas e nem sempre a fiscalização é suficiente. A chance de “negociar” com o patrão, ilusória em quase qualquer caso, é ainda mais falsa quando determinados mercados apontam todos para o mesmo caminho.

É o que tem acontecido no Vale do Silício, região dos Estados Unidos onde estão concentradas as grandes empresas de tecnologia. Em entrevista à revista Wired, noticiada pelo portal Uol, Adrian Kinnersley, que administra uma empresa de recrutamento nos Estados Unidos, explicou que “a Califórnia é o epicentro da IA e de onde vem grande parte da cultura do 996 [nos EUA], além de ter as leis trabalhistas mais favoráveis aos funcionários de todos os Estados Unidos. Há quase uma histeria na pressa em criar produtos de IA, e muitas pessoas muito jovens e altamente inteligentes, nesse fervor, estão se esquecendo de todos os riscos que estão criando, de todas as enormes responsabilidades”.

Entre esses riscos e responsabilidades, está o adoecimento. Diversos estudos em diferentes países mostram aumentos consideráveis de casos de problemas cardíacos e AVCs quando a jornada aumenta. Isso vale para os trabalhadores mais visíveis dessas empresas de tecnologia, mas também para os “de fundo”.

Artigo publicado pelo Jornal da USP e assinado pelo professor titular da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da mesma universidade, Glauco Arbix, explica: “o universo virtual é movido a trabalho humano, que vai muito além dos programadores, engenheiros, estatísticos e cientistas de computação de dados. O glamour em que vive a elite do Silicon Valley nada tem a ver com os chamados ghost workers, trabalhadores mal-remunerados que imigraram para os EUA, que vivem em países africanos, se espalharam pela América Latina, que trabalham no Brasil, na Índia, no Quênia, na África do Sul e que respondem pela gerência invisível da informação, pela rotulação, classificação, mineração e preparação dos bancos de dados. A esse enorme corpo de trabalhadores nem sempre bem qualificados, certamente vai se somar a legião de adeptos do 996, em sua versão californiana ou de outros centros, que se dispõe a enfrentar os riscos e a incerteza de uma jornada extrema em troca de promessas de um bem-estar dourado e de contribuições ao sucesso de seus países na competição geopolítica movida pela IA. A ética desgovernada do sobretrabalho unifica jovens do Oriente e Ocidente que buscam no silício um sentido para seus negócios e suas vidas”.

Pesquisa “O Trabalho e o Brasil” mostra que trabalhadores querem direitos

No final do ano passado, foi divulgada a pesquisa “O Trabalho e o Brasil”, do instituto Vox Populi, encomendada pela CUT e pela Fundação Perseu Abramo, com apoio do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese) e do Fórum das Centrais Sindicais. A pesquisa ouviu 3.850 trabalhadores, incluindo assalariados com e sem carteira assinada, autônomos, empreendedores, servidores públicos, trabalhadores de aplicativos, desempregados e aposentados.

Ao responder à pesquisa, 68% dos trabalhadores disseram considerar os sindicatos importantes ou muito importantes para a defesa dos direitos e a melhoria das condições de trabalho. 70% disseram defender o direito de greve. Além disso, 52% apontam estar satisfeitos ou muito satisfeitos com a atuação sindical. Entre autônomos e empreendedores, quase metade (49%) gostaria de se filiar a um sindicato.

Os entrevistados também percebem contribuição direta dos sindicatos para melhoria nos salários e nas condições de trabalho (68%), para a melhoria das condições de vida (67,8%), para a negociação com as empresas (67,1%) e para a defesa dos direitos dos trabalhadores (64,3%). Apesar disso, a taxa de sindicalização encontrada pela pesquisa foi de apenas 11,4%. Por outro lado, 14,6% afirmam que com certeza se filiariam a um sindicato e 35,9% consideram possível filiar-se. Entre autônomos e empreendedores, 49,6% defendem ter um sindicato próprio. Por fim, 56% dos que hoje se declaram autônomos e já tiveram carteira de trabalho assinada dizem que, com certeza, gostariam de voltar a trabalhar sob o regime CLT.

PEC do fim da escala 6×1 é enviada à CCJ

Nessa segunda-feira, 9, o presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (REP-PB), deu enfim andamento à tramitação das propostas de emenda à Constituição (PECs) que tratam do fim da escala 6×1. Serão reunidas as propostas apresentadas pela deputada Érika Hilton (PSOL-SP) e pelo deputado Reginaldo Lopes (PT-MG). Após a análise de admissibilidade na CCJ, o texto será votado por uma Comissão Especial, antes de poder ser levado ao plenário da Casa.

O fim da escala 6×1, a redução da jornada de trabalho e a luta contra a precarização do trabalho têm sido objeto de reiteradas manifestações dos trabalhadores e trabalhadoras. Em abril do ano passado, por exemplo, a Marcha da Classe Trabalhadora, em Brasília, reuniu trabalhadoras e trabalhadores do campo e da cidade, de todas as regiões do país, em defesa de direitos e por condições dignas de trabalho e de vida. Poucos dias depois, no 1º de Maio, os mesmos temas estiveram em pauta. Os protestos se repetiram no dia 7 de setembro, Dia da Independência, e no dia 21 do mesmo mês. Faz parte dessa mesma luta a defesa da revogação da reforma trabalhista de 2017, de Michel Temer (MDB), e da reforma da Previdência de 2019, de Jair Bolsonaro (PL).

Com informações da BBC, do Uol, da revista Wired e do Jornal da USP