SINDICATO DOS TRABALHADORES DO JUDICIÁRIO FEDERAL E MINISTÉRIO PÚBLICO DA UNIÃO - FUNDADO EM 28 DE NOVEMBRO DE 1998 - FILIADO À FENAJUFE E CUT

SARAMPO E ACIDENTES

Cortes afetam controle de doenças infecciosas e tráfego aéreo nos Estados Unidos

Desde que voltou à Casa Branca em 2025, Donald Trump prometeu reduzir o tamanho do Estado e vem agindo ideologicamente para demonizar a ciência, a pesquisa e o serviço público. Uma das medidas mais conhecidas foi a criação do Departamento de Eficiência Governamental (Doge), cujo objetivo era cortar 2 trilhões de dólares em gastos federais. Com o desmantelamento de agências reguladoras e órgãos de fiscalização, o país tem registrado o retorno do sarampo e outras doenças anteriormente controladas, o aumento de casos de doenças transmitidas por alimentos, assim como de acidentes e riscos aéreos.

O Doge iniciou suas atividades, sob o comando do bilionário Elon Musk, com a demissão de milhares de servidores e servidoras federais. Os cortes afetaram áreas estratégicas, como o controle de tráfego aéreo, a inspeção e segurança de alimentos e a vigilância de doenças infecciosas.

“Uma característica da era Trump é que combina a desvalorização e a fragilização dos especialistas, com base em teorias conspiratórias”, afirma Donald Moynihan, professor de Políticas Públicas da Universidade de Michigan. Segundo ele, o questionamento de teorias técnicas e científicas sempre existiram na política americana, “mas Trump passou a utilizá-los como método central de administração pública”.

Redução da força de trabalho no tráfego aéreo e na saúde

Em maio, a Administração Federal de Aviação (FAA) divulgou que reduziria em mais de 2 mil a estimativa sobre o número de controladores necessários para manter plenamente abastecidas as instalações do país. Controladores de tráfego aéreo alegaram não ter participado da elaboração do plano e questionaram a possibilidade de aumento das horas de trabalho em um sistema já marcado por queixas de fadiga, horas extras e falta de pessoal.

No Departamento de Saúde e Serviços Humanos, comandado pelo secretário Robert Kennedy Jr., um ativista antivacinas, houve 21.438 demissões entre janeiro de 2025 e janeiro deste ano, o que resultou em redução líquida de 22,1% da força de trabalho.

Entre os órgãos afetados está o laboratório que monitora a Cyclospora (Cyclospora cayetanensis, parasita que causa a ciclosporíase, uma infecção do intestino delgado). Conforme a Administração de Alimentos e Medicamentos (FDA), sete surtos da doença foram registrados em 2026, quatro ainda estão ativos. Na esteira dos cortes, o monitoramento de tendências de longo prazo de doenças transmitidas por alimentos deixou de ser obrigatório.

Para Donald Schaffner, professor de Microbiologia de alimentos da Universidade Rutgers, as demissões na FDA e no Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) deixaram as agências com equipes reduzidas e sobrecarregadas. Ele também chama a atenção para os cortes no Departamento de Agricultura dos EUA (USDA): “o maior grupo de pesquisadores especializados em parasitas dentro do USDA […] está sendo desmobilizado. Isso está sendo feito em nome da eficiência do governo, mas considero uma decisão equivocada: hoje, precisamos desses pesquisadores de parasitas mais do que nunca”, disse.

Queda nas taxas de vacinação

A crise também aparece na queda das taxas de vacinação e, por consequência, no retorno de doenças infecciosas, com destaque para o sarampo, que havia sido praticamente erradicado dos EUA há 25 anos. No primeiro semestre de 2026, foram confirmados 2.318 casos da doença, o maior nível anual de infecções em 35 anos.

Especialistas atribuem a queda nas vacinações ao secretário de Saúde, Robert Kennedy Jr., porta-voz do movimento Make America Healthy Again (Maha, Faça a América Saudável Novamente, em tradução livre), que levou teorias de conspiração, como as que associam imunizações ao autismo, ao mais alto escalão do governo. Na avaliação de Paul Offit, diretor do Centro de Educação sobre Vacinas do Hospital Infantil da Filadélfia, “estamos entrando em uma nova era, na qual doenças evitáveis por vacinação se tornarão mais comuns”. Também houve aumento em casos de doenças como coqueluche, gripe e tétano.

Em meio ao aumento de casos de doenças que haviam sido praticamente erradicadas, Trump assinou, no início de agosto, um decreto para reduzir de 17 para 11 o número de doenças contra as quais as crianças devem se imunizar. De acordo com Offit, os efeitos da política ideológica de Kennedy, a quem classifica como “ativista antivacina e negacionista da ciência há 20 anos”, levarão anos para serem superados.

As políticas federais negacionistas começaram a ser replicadas nos estados. Segundo levantamento do The New York Times, 209 projetos de leis apresentados em assembleias legislativas de 34 estados neste ano tinham por objetivo enfraquecer as regras ou os sistemas de vacinação ou minar a confiança pública nas vacinas. Essas propostas foram apoiadas, principalmente, pelo Partido Republicano, a legenda de Trump.

Donald Moynihan ressalta que “todos os governos enfrentam crises, mas às vezes também contribuem para criá-las. A ideologia antigoverno de Trump atacou a capacidade do Estado e desvalorizou o conhecimento científico”, o que “agravou alguns dos problemas que os EUA enfrentam hoje e, ao mesmo tempo, deixou o governo com menos recursos para solucioná-los”.

Fonte: Valor

Foto: Creative Commons