SINDICATO DOS TRABALHADORES DO JUDICIÁRIO FEDERAL E MINISTÉRIO PÚBLICO DA UNIÃO - FUNDADO EM 28 DE NOVEMBRO DE 1998 - FILIADO À FENAJUFE E CUT

PRESERVAÇÃO DA VIDA

Setembro Amarelo destaca necessidade de atenção à saúde mental no trabalho

Determinadas condições de vida e de trabalho podem contribuir para o sofrimento psíquico e atuar como fatores de risco, agravantes ou precipitantes de uma crise. Os dados do Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM/DataSUS) indicam que o Brasil registrou 16.751 mortes por suicídio em 2024. No plano global, a Organização Mundial da Saúde (OMS) estima mais de 727 mil mortes anuais, das quais 73% concentram-se em países de baixa e média renda. A própria OMS ressalta que os determinantes do suicídio são múltiplos e incluem fatores sociais, culturais, biológicos, psicológicos e ambientais.

No Brasil, além da mortalidade por suicídio, chama a atenção o crescimento do afastamento do trabalho relacionado aos transtornos mentais e comportamentais. Esse cenário reforça a necessidade de ampliar a discussão sobre saúde mental para além das características individuais do trabalhador e considerar também as condições nas quais o trabalho é
realizado.

A médica do trabalho Virgínia Dapper, que integra a assessoria de saúde do Sintrajufe/RS, destaca que o trabalho ocupa parcela significativa da vida adulta. “Ele pode representar fonte de identidade, realização, pertencimento e proteção social, mas, dependendo de sua organização e das condições em que é exercido, também pode participar dos processos de sofrimento e adoecimento psíquico”, pontua.

É nesse contexto que ganham importância os chamados fatores de riscos psicossociais relacionados ao trabalho. Entre eles podem estar o excesso de demandas e a sobrecarga, pressão excessiva por resultados e metas, baixa autonomia ou pouco controle sobre o próprio trabalho, jornadas prolongadas ou inadequadamente organizadas, insegurança quanto à manutenção do emprego, precarização dos vínculos, falta de apoio institucional e situações de assédio, violência ou outras formas de tratamento inadequado no ambiente laboral.

A exposição persistente a condições adversas de trabalho pode contribuir para estresse crônico, esgotamento e adoecimento mental, conforme Virgínia Dapper. Em pessoas vulneráveis e na presença de outros fatores de risco, esse sofrimento pode integrar a complexa cadeia de acontecimentos relacionada à ideação, às tentativas e ao suicídio.

O que mostram as evidências científicas?

A médica do trabalho menciona um estudo publicado em 2026, na revista científica Scandinavian Journal of Work, Environment & Health, que examinou 27 pesquisas internacionais sobre o tema. Segundo Virgínia, “os autores encontraram associações entre diferentes condições ocupacionais adversas e maior risco de comportamentos suicidas”. No conjunto de resultados encontrados, a médica destaca: perda do emprego/demissão involuntária associada a maior risco de suicídio; insegurança no emprego associada a maior risco de comportamento suicida; assédio moral, também com associação com maior risco; além de evidências envolvendo altas demandas psicológicas, baixo controle sobre o trabalho e estresse laboral.

“Esses resultados não significam que determinado fator ocupacional, isoladamente, seja capaz de explicar um suicídio. Eles mostram, entretanto, que as condições de emprego e de organização do trabalho devem ser consideradas entre os elementos que podem participar do risco”, explica Virgínia Dapper.

No Brasil, essa abordagem ganhou ainda maior relevância em 2026, com a nova redação do capítulo 1.5 da Norma Regulamentadora 1 (NR-1), do Ministério do Trabalho e Emprego, NR-1, vigente desde 26 de maio. A norma incluiu expressamente os fatores de riscos psicossociais relacionados ao trabalho no escopo do Gerenciamento de Riscos
Ocupacionais (GRO).

Na avaliação da médica do trabalho, essa mudança ajuda a superar uma visão excessivamente individualizante do adoecimento mental. “Diante de um conjunto de trabalhadores submetidos a sobrecarga, assédio, violência, baixa autonomia ou falta de apoio, a prevenção não pode se restringir a recomendar que cada indivíduo procure atendimento psicológico. É necessário também avaliar o que existe naquele trabalho que pode estar contribuindo para o adoecimento”, afirma Virgínia Dapper.

Agrotóxicos, neurotoxicidade, depressão e suicídio

Além dos fatores psicossociais, determinadas exposições químicas presentes no ambiente de trabalho também merecem atenção quando se discute saúde mental e prevenção do suicídio. Entre elas, Virgínia destaca a exposição ocupacional aos agrotóxicos, especialmente em trabalhadores rurais.
Ela explica que diversos agrotóxicos apresentam potencial neurotóxico. Além dos efeitos bem estabelecidos das intoxicações agudas, existem evidências de alterações neurocomportamentais associadas à exposição crônica, incluindo prejuízos cognitivos, depressão e ansiedade. Uma pesquisa publicada em 2026, envolvendo 18 estudos, encontrou associação entre exposição ocupacional a pesticidas e aumento das chances de depressão e comportamento suicida.

No caso do trabalho rural, os agrotóxicos podem entrar na discussão sobre prevenção do suicídio devido à contribuição da exposição neurotóxica para alterações neuropsiquiátricas e devido ao acesso a substâncias altamente tóxicas que podem ser utilizadas em episódios de autointoxicação. A OMS estima que quase 20% dos suicídios no mundo ocorrem por autointoxicação com pesticidas.

Saúde mental no Judiciário

O Conselho Nacional de Justiça (CNJ) instituiu, em 2015, a Política de Atenção Integral à Saúde de Magistrados e Servidores (resolução 207). Ainda assim, o 2º Censo do Poder Judiciário, realizado em 2023, revela que 47,9% dos servidores e servidoras sofrem de ansiedade, 37,4% de estresse e 18,1% fazem uso regular de medicamentos para tratar esses quadros.

Os dados reforçam a necessidade de revisar políticas de metas e modelos de gestão que têm impactado diretamente a saúde mental de quem sustenta o funcionamento da Justiça. Sobrecarga, pressão por produtividade, relações de trabalho adoecedoras e condições inadequadas nos ambientes laborais são fatores que precisam ser enfrentados.

Assessoria de saúde do Sintrajufe/RS

O Sintrajufe/RS conta com uma assessoria de saúde qualificada, composta pela médica do trabalho Virgí­nia Dapper, pelo médico do trabalho Geraldo Azevedo, pela psiquiatra e médica de famí­lia Ana Achutti e pela psicóloga Vera Moura. A equipe dá suporte às demandas individuais relacionadas a questões funcionais da categoria, bem como a demandas relacionadas ao assédio moral e demais conflitos nos locais de trabalho.

Para agendamentos individuais e de grupo, entre em contato por e-mail [email protected] ou pelo telefone (51) 3235-1977.