SINDICATO DOS TRABALHADORES DO JUDICIÁRIO FEDERAL E MINISTÉRIO PÚBLICO DA UNIÃO - FUNDADO EM 28 DE NOVEMBRO DE 1998 - FILIADO À FENAJUFE E CUT

MODERNIDADE E SUPEREXPLORAÇÃO

Câmeras na testa para treinamento de IA; vídeo divulgado pela CNN sugere treinamento de “movimentos finos”

Nas últimas semanas, espalhou-se pela internet um vídeo que mostra um possível treinamento de inteligência artificial (IA) por trabalhadores indianos. A hipótese de especialistas é de que esses trabalhadores estejam treinando uma ferramenta de IA para movimentos finos que permitam que máquinas façam seu trabalho, em uma fábrica de costura. O vídeo foi divulgado por veículos como a CNN dos Estados Unidos e o Tecmundo, no Brasil.

A gravação parece acontecer em uma fábrica têxtil, onde diversos trabalhadores costuram tecidos. À cabeça, eles têm acopladas câmeras. Conforme o relato do Tecmundo, essa técnica se chama “Egocentric Data Collection” ou “Hand Farms”. Diz a reportagem que “as câmeras gravam tudo do ponto de vista da pessoa, capturam cada movimento das mãos, ângulo, velocidade, até a força aplicada em tarefas manuais”. Explicam, ainda, que “empresas, como start ups na Índia, coletam, anotam e vendem esses dados para gigantes da robótica”. E completa apontando que esses trabalhadores ajudam a ensinar robôs que estão aprendendo a “executar tarefas finas e que no futuro podem ocupar exatamente esses empregos”. A cobertura da CNN dos Estados Unidos sobre o caso também traz essa avaliação de especialistas: de que muito provavelmente se trata de um treinamento para sistemas de IA, e mais, muitos desses trabalhadores podem nem saber que estão fazendo isso.

Veja abaixo:

O que é Egocentric Data Collection?

A coleta de dados “egocêntricos” tem como premissa a visão em “primeira pessoa”. Ou seja, a câmera capta dados do ponto de vista de quem está agindo. Dessa forma, o aprendizado do robô fica facilitado, especialmente para tarefas mais refinadas. Se o robô visse de certa distância a execução da tarefa, poderia aprendê-la, mas sem o mesmo nível de detalhamento. Assim, nessa técnica de coleta de dados, câmeras são montadas na cabeça ou no peito de uma pessoa e, desse ponto de vista “em primeira pessoa”, captura os movimentos de forma realista e as interações mão-objeto durante a execução da tarefa.

A reportagem do Tecmundo explica que o caso não é isolado, nem exclusivo da Índia: “Segundo relatos que circulam nas redes, trabalhadores em países como Nigéria e Argentina também têm sido recrutados para atividades similares, recebendo entre 230 e 250 dólares mensais para repetir tarefas físicas enquanto são filmados. Esse tipo de operação tem nome no setor: são as chamadas ‘data farms’ de treinamento robótico, estruturas que transferem habilidades humanas para máquinas usando dados reais de produção. Empresas como Figure AI, Agility Robotics e a própria Tesla estão entre as que mais demandam esse tipo de dado para treinar humanoides de uso geral, conforme apontam análises do setor publicadas no início de 2026”.

O caso do vídeo na fábrica têxtil é um exemplo de treinamento de IA por trabalhadores que depois deverão ser substituídos pelos robôs que treinam. Mas o problema da inteligência artificial no mundo do trabalho vai além, e a própria Índia tem outros exemplos disso. Reportagem da agência Reuters do final de 2025 mostra o efeito do avanço da IA no setor de atendimento ao cliente, um mercado importantíssimo na Índia, responsável por 7,5% do PIB do país. Uma startup local citada pela reportagem diz que seu objetivo é “tornar os trabalhos de atendimento ao cliente quase obsoletos”, permitindo que empresas reduzam seu pessoal destinado a essa tarefa em até 80%.

Até 800 vídeos com conteúdos violentos por dia

Outra reportagem mais recente, de fevereiro deste ano, foi publicada no jornal inglês The Guardian e mostra o trabalho de mulheres na zona rural da Índia que, ao longo de um dia, assistem até 800 vídeos e imagens com conteúdos violentos, como acidentes fatais e violência sexual, inclusive contra crianças. Seu trabalho é treinar algoritmos para reconhecer violência, abuso e danos. Entrevistados pelo The Guardian, especialistas e as próximas mulheres relatam diversos danos psicológicos causados pela tarefa. Dados de 2021 mostram 70 mil pessoas na Índia trabalhando com “anotação de dados”, das quais 80% vivem em áreas rurais, com ainda menos direitos trabalhistas.

Diferentes estudos apontam para um grande volume de empregos fechados ou afetados pelo avanço da inteligência artificial. Uma análise do Fundo Monetário Internacional (FMI) em 2024 estimou que a inteligência artificial deve afetar quase 40% de todos os empregos globais. Já previsão do Fórum Econômico Mundial divulgada no início de 2025 diz que a IA poderá eliminar 92 milhões de empregos até o ano 2030. Em 2023, estudo apresentado pelo Goldman Sachs, um dos maiores grupos financeiros do mundo, apontou que 300 milhões de empregos estão expostos à automação. O estudo ainda destaca o Judiciário como um dos principais campos afetados.