SINDICATO DOS TRABALHADORES DO JUDICIÁRIO FEDERAL E MINISTÉRIO PÚBLICO DA UNIÃO - FUNDADO EM 28 DE NOVEMBRO DE 1998 - FILIADO À FENAJUFE E CUT

NÚCLEO DE DIVERSIDADE SEXUAL

Café com Nuds propõe reflexões sobre gênero, sexualidade e família

A 2ª edição do Café com Nuds, promovida pelo Núcleo de Diversidade Sexual do Sintrajufe/RS, foi realizada no dia 18, reunindo participantes em formato híbrido, com atividade presencial na sede do sindicato e transmissão online. O encontro foi conduzido pelo professor e doutor em Educação Fernando Seffner, que abordou o tema “Questões de gênero, sexualidade e família: pânico moral e procedimentos de judicialização”. A colega Ana Naiara Malavolta Saupe fez a mediação do evento.

Democracia

Indicadores internacionais que investigam a democracia em diversos países mostram que, nos últimos 15 anos, a percentagem da população mundial que vive em países em processo de autocratização é maior do que a que vive em países que passam por processos de aprofundamento da democracia; desde o início do século XXI, “há um recuo persistente”. Cresce o apoio a governos de “líderes fortes”, que possam passar por cima do parlamento, e a regimes militares. Na América Latina, na média, um em cinco jovens na faixa etária de 16 a 25 anos apoia regimes mais autoritários.

Família e educação

Em um contexto de redução do tamanho do Estado, de empreendedorismo individual, de plataformização e precarização no mundo do trabalho, responsabilidades do Estado foram deslocadas para a família, que ganhou centralidade como instância de proteção. Com isso, alerta Seffner, o núcleo familiar é mobilizado em favor de discursos conservadores que buscam reafirmar modelos tradicionais – heterossexual, patriarcal, com submissão das mulheres –, muitas vezes em descompasso com a diversidade dos arranjos familiares existentes na realidade brasileira.

O professor chamou de “pânico moral” a estratégia usada recorrentemente para atacar o debate em torno das questões de gênero e sexualidade, especialmente quando se trata de educação. Iniciativas que atacam conteúdos escolares, universidades e práticas pedagógicas se unem a discursos antigênero, anticiência e negacionistas, frequentemente em nome da defesa da família. Nesse cenário, afirma Seffner, a escola aparece como um alvo de pressões de diferentes atores, como famílias, religiões, mercado e movimentos políticos, que disputam a formação de crianças e jovens.

Para Seffner, a judicialização dessas questões evidencia a rapidez com que se passou da conquista de direitos para a tentativa de restringi-los. Ele destacou o papel das culturas jovens, das redes sociais e dos interesses de mercado na configuração contemporânea dessas disputas, ampliando os desafios para a construção de uma educação democrática. Segundo Seffner, “a escola deve se reger pela gestão democrática”, conforme a Constituição Federal de 1988. sem um ambiente democrático e de debate, “o direito à educação está em jogo”.

Participantes falam sobre o evento

O evento foi acompanhado presencialmente, na sede do sindicato, e por colegas online. Também estava presente Marlene Freitas, integrante da ONG Mães pela Diversidade.

Ao final do evento, a colega aposentada Ana Naiara Malavotla Saupe, que fez a mediação, afirmou que o painel foi “da maior relevância”. Ela destacou que Seffner “é um especialista respeitadíssimo nos estudos de gênero, em especial nos estudos sobre masculinidades. E os dados que ele nos trouxe são de uso prático. Além disso, ele passeia por outros estudos, trazendo elementos e transversalizando os temas, criando uma visão ampla sobre os conteúdos abordados”. Para Naiara, a sua experiência em sala de aula “faz com que ele fale com muita profundidade, mas uma profundidade cheia de leveza”.

O colega Ivan Carlos Pereira, das varas trabalhistas de Porto Alegre, classificou o encontro como excelente. “O dr. Fernando, além de profundo estudioso e conhecedor da matéria relativa a gênero, relações sociais, educação e judicialização, passa pelos temas de uma forma graciosa que é impossível se distrair. O assunto abordado é de candente atualidade. Grande iniciativa do Sintrajufe e do Nuds”.

“Foi uma noite de muito aprendizado”, avaliou a diretora do Sintrajufe/RS Arlene Barcellos. “O professor Fernando, a partir de pesquisas, da experiência com alunos e alunas e dados científicos, nos trouxe um panorama da importância da educação, em especial a partir da Constituição de 1988, no acolhimento e respeito à diversidade, e o papel do Judiciário no enfrentamento às violências de gênero e raça”.

Livro “Em defesa de uma educação democrática”

Fernando Seffner, Roger Raupp Rios e Fernando de Araújo Penna são os organizadores do livro “Em defesa de uma educação democrática”. A obra apresenta a democracia como o regime mais adequado para a garantia da qualidade de vida das pessoas e da sustentabilidade do planeta e investiga a crise de confiança nas democracias liberais contemporâneas, principalmente por parte dos jovens e das culturas juvenis. No livro, é destacada a necessidade de compromisso e com princípios e conteúdos jurídicos democráticos, com uma proposta de educação democrática a partir dos territórios da América Latina.

O livro está à venda, nos formatos impresso e ebook.