SINDICATO DOS TRABALHADORES DO JUDICIÁRIO FEDERAL E MINISTÉRIO PÚBLICO DA UNIÃO - FUNDADO EM 28 DE NOVEMBRO DE 1998 - FILIADO À FENAJUFE

JORNADA DE FORMAÇÃO

Pesquisa do Sintrajufe/RS sobre trabalho remoto na Pandemia mostra aumento da quantidade de trabalho e de adoecimentos na categoria

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Nessa quinta-feira, 20, o Sintrajufe/RS deu sequência à jornada de formação “A saúde dos trabalhadores e trabalhadoras ameaçada: trabalhar, sim, adoecer, não”. Esse foi o quarto painel de uma série de seis encontros que acontecem até 2 de junho. O tema dessa quinta foi “Trabalho, trabalho remoto, pandemia – Apresentação dos dados das pesquisas Fiocruz e Sintrajufe/RS”, que teve como painelistas o médico Geraldo Azevedo e a pesquisadora Maria Juliana Moura Corrêa, que falaram sobre seus projetos de ação e pesquisa junto aos trabalhadores e trabalhadoras na pandemia. “O trabalho é um lócus potencial de transmissão do vírus.”, afirmou Juliana.

A apresentação do evento foi realizada pela diretora e coordenadora da Secretaria de Saúde e Relações de Trabalho do Sintrajufe/RS Clarice Camargo, e a mediação ficou com a também diretora Cristina Viana. O evento foi transmitido pelos canais do sindicato e por entidades parceiras.

Cristina reforçou a posição do Sintrajufe/RS na pandemia: “Desde o início, o Sintrajufe/RS lutou muito para que os servidores e servidoras do Judiciário ficassem em casa, para contribuir com a sociedade, diminuindo as chances de proliferação do vírus e para preservar a vida de nossos trabalhadores e trabalhadoras”.

Dados preliminares obtidos pelo Sintrajufe/RS

“A necessidade da pesquisa se percebeu porque passamos a receber relatos dos trabalhadores sobre as percepções desse novo tipo de trabalho (remoto)”, explica Geraldo Azevedo, médico do trabalho e assessor de saúde do Sintrajufe/RS, sobre o questionário realizado de outubro de 2020 a março de 2021, em pesquisa intitulada “Trabalho remoto compulsório e sob confinamento”.

O questionário da pesquisa foi elaborado a partir da escuta de servidores e servidoras do Judiciário Federal e do MPU no RS. Foi uma pesquisa de amostragem, com 462 participantes, que levanta questões relevantes. Dos pesquisados, 79,2% compartilham moradia com uma a três pessoas. A qualidade da internet, que em 44,2% dos casos é relatada como pior ou muito pior que a do trabalho, piora por ser compartilhada em 77,3% dos relatos.

Existe uma sensível mudança nas condições do trabalho. Para 40,5% dos servidores e servidoras, a duração da jornada de trabalho aumentou, em alguns casos (16%), em até duas horas. 43,5% também alegam aumento na quantidade de trabalho, e entre os motivos de maior relevância para esse aumento estão o uso de comunicação através de whatsapp e email em qualquer horário, obrigando a atendimentos fora da jornada (55,7%). Outros fatores apontados são o número insuficiente de servidores (49,8%), a necessidade do cuidado aos familiares de forma simultânea ao trabalho e o acúmulo com os trabalhos domésticos (48,3%), Antes da pandemia, o principal fator para aumento de trabalho era o aumento no número de processos, que dessa vez ficou no final da lista.

Muitos servidores (mais de 45%) alegam não possuir mobiliário adequado ao trabalho em suas casas, aumentando a incidência de dores osteomusculares em 52,8%, além de 37,1% alegarem dificuldade de concentração.

Apesar das dificuldades, 43% dos pesquisados alegam estar muito satisfeitos com o trabalho remoto; 35,2% mais ou menos satisfeitos e apenas 14,3% declararam estar muito insatisfeitos. Geraldo afirma que ainda há necessidade de muito trabalho sobre esses dados, mas que essa aparente contradição talvez possa se explicar pelo medo de retornar ao trabalho presencial, para o que 76,9% dos respondentes afirmaram que não se sentem seguro para o retorno presencial.

Os sentimentos mais recorrentes apontados pela pesquisa são a ansiedade (64,5%), a saudade de amigos e familiares (46.1%) e a exaustão (40,9%). A saudade dos colegas de trabalho aparece de modo também expressivo (35,3%), sendo um dos poucos fatores que estimulariam um retorno ao modo presencial. Esses sentimentos teriam se tornado mais intensos 80,5% durante a pandemia.

Má distribuição do trabalho doméstico sobrecarrega mulheres

Segundo Geraldo, outro dado que chama a atenção é a má distribuição do trabalho doméstico, resultando numa visível sobrecarga para as mulheres. Em sua maioria, são elas que assumem os cuidados com os familiares quando isso se torna necessário, o que pode tomar até 4 horas diárias. Isso faz com que entre elas a incidência de dores osteomusculares seja maior, assim como os sentimentos de medo (30,9% mulheres e 21,2% homens) e exaustão (46,1% mulheres e 33,7% homens). Por essa preocupação com os familiares, elas também têm mais receio quanto ao retorno ao trabalho presencial.

O médico enfatiza que essa divisão, embora tenha motivos históricos, precisa ser modificada. Afirma que ainda é necessário realizar muito trabalho sobre os dados obtidos antes de chegar a conclusões finais, mas que a coleta de informações continua: “A gente precisa ouvir as pessoas para saber o sentimento que elas têm em relação ao trabalho que estão fazendo remotamente. E as contradições precisam ser conversadas. Se faz sentido para elas, se houve algum equívoco de interpretação.” A diretora Cristina Viana ratifica: “O trabalho do Sintrajufe/RS não termina, a pesquisa continua”.

A ação organizada pela Fiocruz

A pesquisadora da Fiocruz Maria Juliana Moura da Cruz também iniciou sua fala apresentando a percepção da necessidade do trabalho. “No Brasil, a gente acompanhou a crise sanitária mundial achando que não ia chegar aqui. A gente não se preparou, foi uma avalanche de necessidades. Os trabalhadores se viram obrigados a estar nas frentes de trabalho e não se tinha nenhuma medida de proteção definida. E começamos a receber muita demanda dos trabalhadores para construir os planos de contingência e nos demos conta de que não conseguiríamos responder às necessidades do momento – precisávamos nos tornar mais ágeis para proteger a vida”.

Juliana deu um panorama do trabalho realizado pela instituição, cujos objetivos são a formação de uma rede de informação e comunicações sobre a exposição ao vírus; a contribuição com a produção e disseminação de informação sobre o enfrentamento à pandemia e desenvolver instrumentos de registro da situação de exposição desses trabalhadores, para subsidiar o trabalho das ações políticas. A ideia é desenvolver um trabalho contínuo de comunicações realizadas pelo próprio trabalhador. “Informação é poder, que não precisa ser só dos governos, mas pode ser conquistado pela classe trabalhadora”, enfatiza.

A rede reuniu instituições ligadas aos sindicatos e agremiações de trabalhadores, de ensino e pesquisa e serviço de saúde do trabalhador (Cerests) – uma ação ampla, chamada pelas outras instituições de “rede das redes”, porque conseguiu conectar informações de todos esses órgãos, utilizando a tecnologia de informação e comunicação. A ação se iniciou com aqueles que se mantiveram no serviço presencial, mas em pouco tempo ficou clara a necessidade de inclusão do trabalho remoto.

Para sua realização, a Fiocruz contou com muitas parcerias nacionais e internacionais, nas áreas de tecnologia da informação, epidemiologia e integração dos movimentos sociais e sindicais para ações em relação à pandemia – aqui Juliana destacou a ação de Maurício Torres, da Universidade da Colômbia.

Em sua primeira fase, foram produzidos seis informes de orientação; traduções de estudos e pareceres sobre a exposição ao Covid em ambiente de trabalho; elaboração de questionários de comunicação de risco; pareceres para o Ministério Público do Trabalho e participação nos processos demandados pelos sindicatos; reuniões com os sindicatos por ramo produtivo para análise da divulgação de situação de saúde; além de seminários, encontros e entrevistas com pesquisadores, representantes do Judiciário e trabalhadores.

A fase 1 da pesquisa com o questionário digital, realizada por amostragem com pouco menos de 2 mil trabalhadores, indicou que 24% apresentaram positivo ao teste de Covid-19 em algum momento e, desses, mais da metade considera que a transmissão se deu em ambiente de trabalho ou no deslocamento. A maioria refere que não houve capacitação por parte da empresa para prevenção ao contágio, ou foi insuficiente. Cerca de 70% afirma que não houve espaços coletivos para discussão da situação de pandemia.

Percebeu-se também que as condições de transmissão são diferentes de acordo com as categorias, oportunidades e condições de trabalho. Os dados ainda estão em análise, mas já se percebe, pelo número e natureza dos questionários não respondidos e questões deixadas em branco, que existe um receio de identificação pessoal e de suas empresas por parte dos trabalhadores.

A perspectiva dos realizadores é a construção de um espaço participativo e democrático na comunicação de riscos à saúde pelo trabalhador, com ações inovadoras em tecnologia de informação e comunicação e também a contribuição com o desenvolvimento de ações promotoras de integralidade em Atenção à Saúde dos Trabalhadores centradas na ciência, por meio da interação das redes de pesquisa, dos trabalhadores e do serviço do SUS.

A jornada fornece certificados de participação mediante preenchimento do formulário linkado no box de informações.

Todos os eventos da jornada são transmitidos pelo canal do YouTube do Sintrajufe/RS e Facebook do sindicato. Entidades parceiras também fazem a divulgação e/ou retransmissão de cada painel.

Entidades parceiras:

TRT4 e Escola Judicial do TRT4
Fenajufe (Judiciário Federal e MPU) e Fenajud (Judiciário Estadual)
CUT/RS, CUT/MT, CUT Regional Centro RS (Santa Maria e região) e FSST
Sindicatos do Judiciário Federal/MPU: Sindjuf/PA-AP, Sintrajuf/PE, Sisejufe/RJ, Sintrajusc/SC e Sindiquinze/SP
Sindicatos do Judiciário Estadual: Sindjustiça/GO, Sindijus/PR e SinjuSC/SC
Sindicatos de outras categorias: Assufsm, Cpers/RS, Semapi/RS, Sindiágua/RS, Sindipetro/RS, Sindjor/RS, APP Sindicato (educação pública do Paraná) e Sintep/MT.

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