SINDICATO DOS TRABALHADORES DO JUDICIÁRIO FEDERAL E MINISTÉRIO PÚBLICO DA UNIÃO - FUNDADO EM 28 DE NOVEMBRO DE 1998 - FILIADO À FENAJUFE

CONTRA A DEMOCRACIA E OS DIREITOS

Financiadores de atos golpistas de 7 de setembro são os mesmos que defenderam a PEC da reforma administrativa em 2020

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Em setembro de 2020, matéria publicada pelo Sintrajufe alertava sobre campanha da Associação dos Produtores de Soja (Aprosoja) a favor da reforma administrativa. Nesta data, focos de incêndio consumiam amplas áreas do pantanal em consequência da tibieza do governo em combater práticas nocivas ao meio ambiente e fragilizar os mecanismos de fiscalização. A campanha tinha como mote “É hora de redução da máquina pública, Já! Reforma administrativa primeiro”. A posição dos ruralistas parece ter ligação. Envolvido em casos de queimadas ilegais e trabalho em condições análogas à escravidão, o setor terá, caso a reforma seja aprovada, mais liberdade para atuar de forma indiscriminada. Isso porque a PEC terá como consequência a redução da fiscalização, já que haverá menos servidores, mais precários e, sem a estabilidade, com menos condições de resistir a pressões indevidas.

Um ano depois, na última sexta-feira, 20, a Polícia Federal cumpriu mandados de busca e apreensão nas casas de pessoas que têm incitado atos golpistas marcados para o dia 7 de setembro. O mais famoso dos investigados foi o cantor Sérgio Reis, apoiador de primeira hora de Jair Bolsonaro (sem partido). Porém, por trás da comoção gerada nos dias seguintes pela investigação sobre o cantor, há a origem do dinheiro que financia as intenções golpistas. Supostamente uma de suas fontes mais importantes é a Associação dos Produtores de Soja (Aprosoja).

Foram 13 mandados expedidos pelo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes, atendendo a um pedido da Procuradoria-Geral da República (PGR). No total, 29 endereços foram visitados pela Polícia Federal. Entre os alvos dos mandados, estava o presidente da Aprosoja, Antônio Galvan. Nessa segunda-feira, 23, Galvan participou de uma manifestação em frente à sede da Polícia Federal em Sinop, no Mato Grosso. Ele chegou ao local em cima de um trator e ladeado por outros tratores com bandeiras do Brasil.

Nos áudios de Sérgio Reis que ampliaram a polêmica nos últimos dias, o cantor conta a um amigo que se reuniu com 40 plantadores de soja, “os grandes do Brasil”, e que eles tinham bancado “a ida de 400 índios para Brasília e eu, bancaram tudo e eu apresentei 400 índios para o Bolsonaro”. Os mesmos produtores pagariam os custos da manifestação de 7 de setembro, que teria caminhoneiros parando as estradas e possível invasão ao STF. Em nota, a Aprosoja negou que esteja financiando os atos antidemocráticos, mas reportagem do site The Intercept revelou parte dos esquemas de financiamento, impulsionados por organizações ruralistas.

Para além do alinhamento político, ruralistas e Bolsonaro compartilham da mesma agenda para a gestão do país e para as decisões econômicas. Em setembro de 2020, o Sintrajufe/RS denunciou que partia justamente da Aprosoja uma ampla campanha a favor da reforma administrativa (PEC 32/2020), por meio da qual Bolsonaro e Paulo Guedes querem destruir os serviços públicos.

A reforma administrativa, o desmonte dos direitos trabalhistas – expresso, por exemplo, na medida provisória 1.045 – e os ataques à democracia fazem, como se vê, parte do mesmo projeto de país, conduzido formalmente por Bolsonaro mas impulsionado por setores como o ruralismo. Da mesma forma, o enfrentamento à política econômica, a defesa dos serviços públicos e da democracia se interligam, com o fim do governo Bolsonaro impondo-se como uma necessidade para impedir ainda mais retrocessos.