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TURMA DO TRUMP

Secretário de Defesa dos EUA republica vídeo em que pastores defendem fim do voto das mulheres

Quem leu “O conto da aia”, de Margaret Atwood, ou assistiu à série homônima, sentiu uma inquietante familiaridade ao ver o vídeo compartilhado pelo secretário de Defesa dos Estados Unidos, Pete Hegseth, em uma rede social. Em vez da fictícia sociedade patriarcal Gilead, o trecho, retirado de uma reportagem da CNN, mostra pastores que defendem o fim do voto das mulheres e a submissão feminina aos homens, a criminalização de relacionamentos entre pessoas do mesmo sexo e a implantação de um Estado teocrático nos EUA. Um dos entrevistados teve sua visita ao Brasil cancelada, em 2024, após declarações em defesa da escravidão.

O pastor Doug Wilson é um nacionalista cristão e cofundador da Comunhão de Igrejas Reformadas Evangélicas (Crec, na sigla em inglês), uma rede que agrega mais de 150 igrejas. No vídeo, Wilson afirma que gostaria de ver “uma cidade cristã”, “uma nação cristã” e, em maior escala, “um mundo cristão”. Hegseth é membro de uma igreja afiliada à Crec e fez a publicação em um momento em que pesquisas de opinião nos Estados Unidos mostram queda na aprovação de Donald Trump entre as mulheres.

Voto feminino e submissão da mulher

Wilson acredita em uma sociedade patriarcal, na qual as mulheres se submetam aos maridos. Ele também se mostra contrário a que mulheres ocupem posições de liderança nas Forças Armadas e em outras esferas da vida pública. Questionado pela repórter Pamela Brown, ele diz que “as mulheres são as pessoas de onde as pessoas vêm” e que “não é necessário nenhum talento para se reproduzir biologicamente”. Afirma, ainda, que “a esposa e mãe deve ser chefe e executiva da casa”.

Na mesma reportagem, o pastor Jared Longshore afirma que apoiaria a revogação da 19ª emenda à Constituição dos Estados Unidos, aprovada em 1920, que concedeu às mulheres o direito ao voto. Outro pastor, Toby Sumpter, complementa que, em seu modelo ideal de sociedade, o voto seria feito por domicílio, com o marido e pai sendo responsável pelo registro: “Normalmente, eu seria o único a votar, mas votaria depois de discutir o assunto com minha família”.

Ainda sobre a relação entre homens e mulheres, o pastor Josh Prince, diz que não é possível uma relação de equidade no casamento, porque são diferentes “os propósitos de Deus”. Questionada, Amy Prince afirma que o marido “é a cabeça da nossa família, sim, e eu me submeto a ele”.

Escravidão

Mais adiante, a reportagem recupera declarações anteriores de Wilson, nas quais ele afirmou acreditar que havia “afeição mútua” entre escravizados e seus senhores. O pastor já teve participações canceladas em eventos no Brasil, como a Consciência Cristã de 2024, após críticas por declarações polêmicas, entre elas a defesa da escravidão em um de seus livros e acusações de acobertar casos de violência sexual e doméstica em sua congregação.

Interferência no Estado

Embora tenha estado à margem da direita religiosa durante décadas, Wilson encontrou um público republicano cada vez receptivo sob o governo Trump e o movimento MAGA (Make America Great Again). O repórter Ian Ward entrevistou Wilson em maio e, na época, o pastor aplaudiu o esforço do governo Trump para “desmantelar o Estado administrativo” e sugeriu que a Suprema Corte deveria dar continuidade à sua recente decisão de anular o reconhecimento do direito ao aborto reavaliando o direito constitucional ao casamento entre pessoas do mesmo sexo.

Além dessas metas de curto prazo, Wilson propôs mudanças mais fundamentais para o sistema político: emendar a Constituição para incluir uma referência ao Credo dos Apóstolos, restringir o exercício de cargos a cristãos praticantes e alterar as práticas de votação para conceder votos por domicílio, com o detentor do voto padrão sendo o chefe de família do sexo masculino. Seu objetivo de longo prazo, disse ele, é inspirar uma reforma cristã de base que elimine toda a ideia de secularismo da legislação e da sociedade estadunidenses.

Na reportagem da CNN, Wilson afirma que gostaria que os Estados Unidos trouxessem de volta as leis que tornavam ilegal o sexo entre pessoas do mesmo sexo – até 1962, isso era um crime punível com prisão ou trabalhos forçados em todos os estados estadunidenses.

O sociólogo Andrew Whitehead, professor de Sociologia e especialista em nacionalismo cristão, destacou à rede de comunicação NPR que o objetivo de Wilson e seus seguidores é transformar crenças pessoais em leis: “Não é apenas que eles tenham essas crenças cristãs pessoais sobre o papel da mulher na família. Eles querem impor isso a todos”. Para Whitehead, “realmente importa se o secretário da Defesa está retuitando um vídeo com visões muito específicas sobre se as mulheres deveriam votar ou servir em funções de combate, ou se a escravidão não é algo tão ruim assim. É a opinião de alguém em uma posição considerável de poder”.

Com informações de CNN, O Globo, news.com.au e Político

Foto: reprodução/Instagram/petehegseth