A BBC News Brasil investigou, durante três meses, a circulação de mensagens contra o voto feminino no Brasil em redes sociais e podcasts. Esse tipo de publicação acumula milhares de curtidas e comentários com frases como “o voto feminino é o erro da democracia ocidental”. Uma pesquisa publicada em 2025 mostrou que a misoginia se tornou um negócio lucrativo em plataformas digitais.
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Muitos dos influencers que relacionam o voto feminino a mudanças que eles definem como prejudiciais aos homens fazem parte da chamada “machosfera” e da cultura “redpill”. São comunidades que enaltecem que homens precisam ser fortes, dominantes e que devem manter constante vigilância sobre as intenções das mulheres, conforme a reportagem de Shin Suzuki.
“O mundo começou a desandar quando a mulher começou a dar opinião”
Em um dos posts em que criticou o voto de mulheres solteiras, Renato Amoedo, conhecido como Renato 38ão, obteve mais de 20 mil curtidas e quase 500 comentários, a maioria de apoio. Em outro momento, ele defendeu que a função mais valiosa de uma mulher deveria ser a de gerar filhos. O mesmo influencer disse, em 2022, que não vê problemas no casamento infantil. Sobre uma situação hipotética de união entre um homem de 50 anos e uma criança de 8, respondeu: “Se os pais concordarem e todo mundo concordar…”.
Em janeiro deste ano, Ana Hering, integrante do Movimento Brasil Livre (MBL) e candidata a deputada federal por São Paulo pelo Missão, afirmou em um podcast que “o mundo começou a desandar quando a mulher começou a dar a opinião dela. E começaram a ouvir”. Ela disse à reportagem que essa declaração foi uma piada. No entanto, no mesmo podcast, Hering afirmou que “naturalmente a mulher se interessa menos por política e eu acho que tende mais a comprar discursos prontos”.
A reportagem da BBC News aponta que um tema frequente nesse tipo de conteúdo é justamente a ideia de que mulheres seriam presas fáceis de discursos enganosos, enquanto homens teriam “uma cabeça analítica, que distingue melhor a verdade da mentira”. O apresentador de podcast Junior Masters sustenta que isso se deve a diferenças entre o cérebro feminino e o masculino.
Essa concepção contraria o entendimento da comunidade científica de que o gênero não permite tirar conclusões sobre a estrutura de um cérebro ou de um perfil cognitivo. A neurocientista brasileira Suzana Herculano-Houzel, pesquisadora na Universidade Vanderbilt (EUA), explica que o cérebro de homens e mulheres é “essencialmente o mesmo […] Isso é uma outra história que não tem nada a ver com como a gente se comporta, como a gente toma decisões”.
“As mulheres votam na esquerda”
A BBC também mapeou mulheres que afirmam que abririam mão do próprio direito de votar ou que já atacaram o voto feminino. Uma delas é a influencer Fernanda Guardian, sócia de uma consultoria de investimentos. Ela afirma que “o voto feminino foi um erro” e que “abriria mão facilmente do meu voto”. Em um vídeo, ela diz qual seria o problema: “Historicamente, a mulher vota, as mulheres votam na esquerda. Isso não é só no Brasil, é no mundo inteiro”.
A afirmação vai ao encontro do posicionamento de Paulo Figueiredo, ligado à família Bolsonaro e neto do general João Batista Figueiredo, último presidente da ditadura civil-militar. Em junho, o influencer criticou “a qualidade” do voto das mulheres, principalmente as solteiras. A partir daí, o tema ganhou mais destaque nas redes sociais. Segundo Figueiredo, “mulheres votam estatisticamente mal” e “as mais jovens votam estatisticamente cada vez mais na esquerda”.
Atacar o voto feminino é atacar a democracia
Para a historiadora e cientista política Tatiana Vargas-Maia, professora de Relações Internacionais na Ufrgs e ouvida pela reportagem, os discursos de ataque ao voto feminino são uma forma de atacar a própria democracia: “Questionar o voto feminino é uma forma muito sutil de questionar o nosso regime democrático. Se a gente explora esse discurso por tempo suficiente, as pessoas se acostumam com ele” e “começa a naturalizar a ideia de que talvez a gente não precise viver numa democracia”.
Um ponto comum no discurso dos influencers que criticam o voto feminino é o de que a independência econômica e de pensamento das mulheres a partir do século 20 foi prejudicial ao mundo. Eles sugerem um retorno a um tempo em que as ideias e as decisões femininas precisavam ter a palavra final de um homem: o marido ou o pai.
Douglas Wilson é a principal liderança de uma congregação de mais de 150 igrejas presbiterianas, batistas reformadas e outras denominações nos Estados Unidos e afirma que o voto feminino foi “uma ideia terrível”. Ele é chamado de mentor pelo secretário de Guerra do presidente Donald Trump, Pete Hegseth, que em 2025 postou nas redes sociais uma entrevista em que Wilson defendia o “voto familiar”, no qual um voto representaria uma família e a decisão final sobre a escolha do candidato caberia ao homem.
A Missão Guanabara é um grupo de evangelização que tenta difundir as ideias de Douglas Wilson no Brasil. Questionado sobre o voto feminino, Joffre Swait, dirigente da missão, afirma: “Não escolheria a palavra supressão, mas a diminuição, no mínimo, sim”.
A partir das informações da reportagem, a BBC News Brasil produziu o documentário “O ataque ao voto feminino”, disponível AQUI.
Misoginia, um negócio lucrativo
Publicado em 2024, o relatório “Aprenda a evitar ‘este tipo’ de mulher: estratégias discursivas e monetização da misoginia no YouTube” mostra como canais divulgam mensagens de ódio contra as mulheres e transformam misoginia em um negócio lucrativo. O mapeamento foi realizado pelo Observatório da Indústria da Desinformação e Violência de Gênero nas Plataformas Digitais, parceria do NetLab-UFRJ com o Ministério das Mulheres.
A amostra abarcou 7.812 canais, com mais de 4,1 bilhões de visualizações e 23 milhões de comentários. Após refinamento, foi confirmada a existência de pelo menos 137 canais explicitamente misóginos na plataforma. Esses canais, juntos, publicaram, em seis anos, mais de 105 mil vídeos; 80% desses canais utilizam estratégias de monetização, como anúncios, assinaturas e venda de serviços e produtos, Super Chat, Super Chat e doações.
Com informações de BBC News Brasil e relatório “Aprenda a evitar ‘esse tipo’ de mulher…”
Foto: Paulo Pinto/Agencia Brasil











