SINDICATO DOS TRABALHADORES DO JUDICIÁRIO FEDERAL E MINISTÉRIO PÚBLICO DA UNIÃO - FUNDADO EM 28 DE NOVEMBRO DE 1998 - FILIADO À FENAJUFE E CUT

EM SÃO JOSÉ DO NORTE

Promotor do RS diz que réu, negro, não teria cometido crime se tivesse recebido “chibatadas”

Um promotor de Justiça de São José do Norte, no sul do Rio Grande do Sul, disse, durante sessão de julgamento, que um réu, negro, não teria cometido o crime pelo qual estava sendo julgado se tivesse recebido “chibatadas” quando mais jovem. O nome do promotor não foi divulgado oficialmente, mas, conforme reportagem do portal G1, se trata de Jaimes dos Santos Gonçalves.

De acordo com o Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul, a manifestação foi formalmente consignada nos autos e comunicada à Corregedoria-Geral do Ministério Público do Rio Grande o Sul, responsável por apurar a conduta de membros do órgão. O Tribunal informou que a providência seguiu o trâmite regular para situações desse tipo.

Veja abaixo a íntegra da nota do TJRS:

“Confirmamos que, de fato, foi registrada em ata a manifestação verbal do representante do Ministério Público durante sessão do Tribunal do Júri realizada na Comarca de São José do Norte. A fala, considerada pela defesa como de cunho racista, foi formalmente consignada nos autos e encaminhada à Corregedoria-Geral do Ministério Público para as providências cabíveis.

A magistrada responsável pelo julgamento, observando os princípios da legalidade e da imparcialidade que regem a atuação jurisdicional, procedeu ao registro da ocorrência em ata e à devida comunicação oficial aos órgãos competentes.

O réu, que respondia por homicídio qualificado e tentativa de feminicídio, foi condenado à pena de 28 anos de reclusão, conforme decisão do Conselho de Sentença.

Considerando que a atuação do membro do Ministério Público está sujeita à fiscalização e controle interno da própria instituição, sugerimos que eventuais esclarecimentos adicionais sejam solicitados diretamente ao Ministério Público.

Permanecemos à disposição para informações complementares no que couber à esfera do Poder Judiciário.”

O réu era acusado de tentativa de feminicídio e homicídio. Ele foi condenado a 28 anos de reclusão por homicídio e tentativa de homicídio. A qualificadora de feminicídio não foi reconhecida.

Para a diretora do Sintrajufe/RS Carmem Regina Ribeiro, “as palavras do promotor são carregadas de esteriótipos racistas, o que indica o quanto se faz urgente e necessária a formação e capacitação na área de direitos humanos”. Também diretora do Sintrajufe/RS, Camila Telles aponta que “é importante que nesse fato a magistrada responsável pelo julgamento registrou o fato em ata e encaminhou para registro na Corregedoria-Geral do MP. Essa atitude mostra que precisamos de aliados e aliadas na luta antirracista, sobretudo no Poder Judiciário, onde nós – negros e negras – somos minoria. Agora precisamos é acompanhar e exigir que esse episódio não caia no esquecimento e a atitude do promotor seja apurada”.