Na manhã desta quinta-feira, 29, uma mulher foi morta a tiros pelo ex-companheiro. No dia 12 de janeiro, ela havia registrado ocorrência policial e solicitado encaminhamento de medidas protetivas de urgência ao Poder Judiciário, que indeferiu os pedidos. Após recurso do Ministério Público (MPRS), a decisão revertida, mas o agressor ainda não havia sido intimado judicialmente quando cometeu o assassinato. Nos primeiros 29 dias de 2026, o estado registrou 11 feminicídios, o que equivale a quase três mortes de mulheres por semana, número que supera o do mesmo período de 2025.
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No final da tarde dessa quarta-feira, 28, foi realizada uma vigília em frente ao Palácio Piratini, sede do governo do estado, em memória das até então dez mulheres vítimas de feminicídio em menos de um mês no estado. Manifestantes criticaram a condução do enfrentamento à violência por parte do governador Eduardo Leite (PSD), cobraram atendimento ininterrupto à rede de proteção e denunciaram o enfraquecimento das políticas públicas voltadas às mulheres e o desmonte Rede Lilás, uma articulação de órgãos do Rio Grande do Sul focada no enfrentamento à violência contra a mulher e no oferecimento de acolhimento humanizado, suporte psicológico, jurídico e social.
Dados indicam que, das mais de 52 mil ocorrências de violência contra a mulher em 2025, 80 resultaram em feminicídio e 264 foram tentativas. Em 2024, foram 73 feminicídios consumados e 236 tentativas, segundo o Observatório Estadual da Segurança Pública. Em janeiro de 2025 foram registrados nove feminicídios; em 2024, 12.
Em entrevista ao Brasil de Fato RS, a delegada Waleska Alvarenga, diretora da Divisão de Proteção e Atendimento à Mulher do Departamento de Proteção a Grupos Vulneráveis (Dipam/DPGV), afirmou que “os dados mostram que a violência de gênero no Rio Grande do Sul segue sendo um problema estrutural e persistente”. Para ela, “o que os dados revelam é uma dinâmica de violência que, em grande parte dos casos, se desenvolve ao longo do tempo, dentro de relações marcadas por controle, ameaças e agressões anteriores. O feminicídio costuma ser o desfecho de um ciclo que não foi interrompido a tempo”, declarou.
Crianças órfãs, impactos duradouros e subnotificação
A delegada também destacou os efeitos sobre crianças e adolescentes. Em 2025, os feminicídios no Rio Grande do Sul deixaram 116 órfãos. Isso evidencia que a violência letal contra mulheres gera impactos profundos e duradouros, atingindo diretamente também a infância e impondo demandas estruturais à rede de proteção social.
De acordo com Alvarenga, a subnotificação segue sendo um desafio central. “Os dados mostram que 74,7% das vítimas de feminicídio não possuíam ocorrência policial prévia e 94,9% não tinham medida protetiva vigente à época do crime. Isso indica que grande parte das situações de violência não chega ao conhecimento do sistema de proteção antes do desfecho letal”, afirmou.
Perfil dos crimes e falhas nas políticas públicas
A delegada informou que “85% dos feminicídios ocorreram no contexto de relações íntimas, sendo o agressor, em sua maioria, companheiro ou ex-companheiro da vítima”. A residência foi o local do crime em 77,2% dos casos, e os principais instrumentos utilizados foram arma branca (46,8%) e arma de fogo (27,8%). Para Alvarenga, mudanças são urgentes, e isso inclui fortalecimento das políticas de prevenção, ampliação da estrutura do atendimento especializado, maior efetividade das medidas protetivas e integração de dados entre os órgãos, políticas públicas que assegurem proteção, autonomia e acolhimento às mulheres, e rápida responsabilização do agressor.
A jornalista e integrante do Levante Feminista contra o Feminicídio, Lesbocídio e Transfeminicídio Télia Negrão avalia que há uma cortina de fumaça feita por afirmações inverídicas, de que o estado está cumprindo seu dever, de que há pontos de referência nos municípios gaúchos, que qualquer serviço, sem servidores capacitados e sem estruturas adequadas, é capaz de proteger uma mulher. “Esta é uma postura omissa, irresponsiva, pois não há milagres para garantir a vida das vítimas: há trabalho sério, comprometido e qualificado.”
A advogada Rafaela Caporal, coordenadora da área de enfrentamento às violências da Themis, os números apontam para uma violência “enraizada em desigualdades estruturais e nas relações de poder baseadas no gênero”. Para a advogada, há insuficiência e falha na implementação das políticas de prevenção. “A gente não fala sobre igualdade de gênero, não fortalece as redes de acolhimento e de proteção às mulheres e não tem um atendimento integrado entre o sistema de justiça, segurança, assistência social e saúde. Será que a gente tem como fazer um enfrentamento à violência de gênero e aos feminicídios sem a política pública? Não me parece que é uma realidade”, analisou.
Com informações de Brasil de Fato e Correio do Povo
Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil














