SINDICATO DOS TRABALHADORES DO JUDICIÁRIO FEDERAL E MINISTÉRIO PÚBLICO DA UNIÃO - FUNDADO EM 28 DE NOVEMBRO DE 1998 - FILIADO À FENAJUFE E CUT

VÍCIO E ENDIVIDAMENTO

Sonho de ganhar dinheiro fácil com bets se torna pesadelo financeiro para famílias, mostra reportagem; R$ 30 bilhões mensais são gastos com apostas

A bartender B.P.R, de 34 anos, que morou até recentemente num bairro periférico da zona norte da capital paulista, de extrema vulnerabilidade, é testemunha de como as bets se tornaram um vício que tem levado pessoas a se endividarem cada vez mais e a perderem o que haviam conquistado.

Ela conta que onde morava é perto de bares e pontos de drogas e diariamente via adolescentes, a partir de 14 anos, e adultos com os celulares em mãos tentando ganhar algum dinheiro extra no jogo, inclusive, para comprar drogas, mas quando ganhavam, tentavam novamente e perdiam tudo. Nos bares, os idosos que normalmente iam para beber e conversar, estavam o tempo todo com o celular em mãos, apostando em bets.

“Eu também num momento de sufoco financeiro, no ano passado, apostei R$ 20,00 num jogo. Ganhei R$ 240,00, mas na hora do resgate recebi um e-mail da plataforma informando o bloqueio porque eu recebo Bolsa Família, mas eles não devolveram o dinheiro do pagamento que fiz. Apesar de ter perdido o dinheiro concordo que é preciso ter limites porque vi gente perdendo até carro”, diz.

Em setembro do ano passado, o governo federal obrigou as operadoras de apostas a bloquearem as contas desses beneficiários. Três meses depois o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Luiz Fux, suspendeu essa proibição, mas manteve o impedimento de novos cadastros ou abertura de contas para quem recebe benefícios assistenciais.

O relato da bartender de como as bets vão do sonho de um dinheiro fácil ao pesadelo de mais endividamento se confirma nos dados do estudo do Instituto Brasileiro de Executivos de Varejo (Ibevar) e da FIA Business School, publicado no final de março deste ano. Segundo o estudo, o impacto das apostas online no endividamento das famílias é quase o dobro da soma dos créditos e de juros, podendo ser ainda maior, já que parte do efeito dos juros já está embutido na dinâmica do crédito.

Para se chegar a esse resultado os responsáveis pela pesquisa criaram indicadores que calculam os impactos de quatro condições: o peso do crédito sobre a renda, o patamar dos juros, o tempo das dívidas e as bets. O coeficiente associado às apostas atingiu 0,2255, superando com ampla margem o impacto do crédito sobre a renda (0,0440), dos juros ao consumidor (0,0709) e do tempo de dívida (-0,0017). De acordo com o Banco Central, no primeiro trimestre de 2025, os apostadores destinaram até R$ 30 bilhões mensais às bets.

Outra pesquisa voltada ao perfil dos paulistas do Procon-SP, que compreende o período de dezembro de 2025 a janeiro deste ano, mostrou que quatro entre 10 apostadores se endividaram. A maioria (43%) gastam até R$ 100 mensais e outros 30% chegam a apostar mais de R$ 1 mil mensais. Embora os homens com renda de até dois salários mínimos, sejam os que mais apostam (61,8%), quem mais se endivida com bets são as mulheres (54%). Elas têm até 30 anos (44,7%) e possuem renda mensal de até dois salários mínimos (46,8%).

O índice das famílias brasileiras endividadas atingiu o recorde de 80,4% em março deste ano. O avanço foi de 0,2 ponto percentual em relação a fevereiro (80,2%) mostrou a Pesquisa Nacional de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (CNC) divulgada na terça-feira (7).

Trabalhadoras e trabalhadores que têm apostado vem recorrendo a empréstimos para cobrir despesas básicas e fazem pedidos frequentes de adiantamento salarial para quitar dívidas com jogos. Esse endividamento constante afeta o desempenho profissional, provocando estresse, ansiedade, queda de produtividade e até depressão.

Fonte: CUT

Foto: Joédson Alves/Agência Brasil