Nos Estados Unidos, vender plasma sanguíneo deixou de ser uma prática associada apenas à população de baixa renda e passou a integrar a rotina de trabalhadores de classe média que buscam complementar o orçamento diante do aumento do custo de vida. Em meio a despesas mais altas com moradia, alimentação e saúde, centros privados de coleta, que remuneram doadores, têm se expandido nos subúrbios de classe média, refletindo uma mudança no perfil de quem recorre a esse tipo de renda extra.
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O jornal The New York Times divulgou recentemente um estudo realizado nas universidades de Washington e do Colorado sobre a indústria do plasma. A pesquisa aponta para uma mudança geográfica importante: enquanto centros de coleta mais antigos se concentravam em áreas de baixa renda, novas unidades têm sido abertas em regiões de classe média. A estratégia atende a uma demanda por doadores mais frequentes e previsíveis, pessoas com rotina estável, acesso a transporte e maior disponibilidade para retornos regulares.
Entre 2014 e 2021, o número de centros de coleta mais que dobrou nos Estados Unidos. Atualmente, são cerca de 1.200. Segundo o estudo, a estimativa é que 215.000 pessoas doem plasma diariamente nos Estados Unidos. Em geral, as chamadas doações, que na verdade são uma prática de compra e venda, ocorrem duas vezes por semana, que é o limite permitido, e podem render cerca de 60 a 80 dólares por sessão, dependendo de incentivos e volume coletado.
“Segundo emprego”
Segundo o The New York Times, para muitos, a prática funciona como um “segundo emprego”. É o caso de trabalhadores que já possuem ocupações formais, mas que enfrentam dificuldades para acompanhar a escalada dos preços. A reportagem entrevistou um operador de guindaste, uma professora, uma enfermeira, um aposentado, um trabalhador da área de tecnologia e outro de biociências.
Muitos se definiram como pertencentes à classe média e afirmaram que, há alguns anos, jamais teriam imaginado trocar seu plasma por dinheiro. Para muitos deles, a atividade não é motivo de orgulho, mas uma necessidade. E, enquanto a economia pressiona, o que antes era visto como último recurso passa a ser, cada vez mais, parte do cotidiano da classe média americana.
“Se as pessoas precisam fazer isso para complementar sua renda, então há muitos empregos por aí que simplesmente não pagam salários altos o suficiente para que as pessoas consigam se sustentar”, disse Emily Gallagher, professora de finanças da Universidade do Colorado e uma das autoras do estudo sobre a indústria do plasma.
Indústria bilionária
O plasma, componente líquido do sangue, é utilizado na produção de medicamentos essenciais para pacientes com doenças raras, distúrbios imunológicos e outras condições. Somente certa de 12 países permitem o pagamento pelo plasma, prática desencorajada pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Os Estados Unidos dominam esse mercado, sendo responsáveis por cerca de 70% da oferta mundial, e são o centro da indústria de plasma.
O negócio atinge da casa de bilhões de dólares. Em 2024, os Estados Unidos exportaram 6,2 bilhões de dólares em plasma.
Apesar de considerada segura pelas autoridades de saúde, a prática levanta debates. Especialistas apontam a escassez de estudos sobre efeitos de longo prazo, enquanto críticos questionam se o modelo não se apoia, em última instância, na pressão econômica enfrentada por parte da população.
Fonte: The New York Times
Foto: Freepik












