SINDICATO DOS TRABALHADORES DO JUDICIÁRIO FEDERAL E MINISTÉRIO PÚBLICO DA UNIÃO - FUNDADO EM 28 DE NOVEMBRO DE 1998 - FILIADO À FENAJUFE E CUT

SAÚDE

Em live do Sintrajufe/RS profissionais de saúde falam sobre necessidade de acolhimento e escuta na prevenção da interrupção da própria vida

Na noite dessa quinta-feira, 26, o Sintrajufe/RS promoveu a live “Suicídio: um debate necessário para a preservação da vida”. O evento, em alusão ao Setembro Amarelo, contou com a participação das psicólogas Djulia Cristine Pierozan e Gabriela Ballardin Geara e da médica do trabalho Virginia Dapper, da assessoria de saúde do Sintrajufe/RS. As mediadoras foram a diretora Cristina Viana e a psicóloga Vera Lúcia Martins de Moura, também integrante da assessoria de saúde.

Na abertura, a diretora do Sintrajufe/RS Cristina Viana afirmou que, com o debate, a proposta do sindicato é auxiliar na retirada de véus que cobrem o assunto. Vera Moura disse que a campanha Setembro Amarelo, que teve início em 2003, é importante para diminuir o tabu em torno do tema do suicídio, que afeta todas as classes sociais.

Fatores de risco

A psicóloga Djulia Cristine Pierozan trouxe dados sobre o suicídio. No mundo, anualmente, são registrados 800 mil casos. No Brasil, a casa 44 segundos, há uma tentativa de morte autoprovocada, sendo que o Rio Grande do Sul é o estado com a maior taxa. Os números, em Porto Alegre, estão acima da estatística nacional entre as capitais.

Alguns fatores de risco, ou seja, que fazem a pessoa ser mais vulnerável (mas não que, necessariamente, tentará o suicídio) são: acesso a meios letais (substâncias ou objetos no trabalho, em casa); isolamento social e reclusão; intoxicação; conflitos emocionais (relacionamentos, relações interpessoais no trabalho e/ou na família); histórico de violência (sexual, psicológica, moral); transtorno mental prévio (como bipolar, depressão).

Sinais de alerta

“Falar de saúde mental é um investimento que precisa ser feito constantemente”, explicou a psicóloga Gabriela Ballardin Geara. O suicídio tem muitas nuances, os sinais variam muito. Para a conversa promovida pelo sindicato, ela destacou alguns comportamentos de risco, que podem acender alertas: direção perigosa; sexo sem proteção; ingestão de certas substâncias; comportamentos atípicos: mudanças bruscas, como por exemplo, passar da tranquilidade para a irritação, da sociabilidade para o isolamento; automutilação, falas sobre querer se machucar e não aguentar mais. Segundo Gabriela, a entrega de pertences ou cartas que remetem a despedidas; visitas inesperadas a parentes e amigos são rituais de despedida comuns para quem está se preparando para acabar com a própria vida.

A psicóloga falou sobre a Regra dos 4 D que ajudam a identificar riscos: Depressão: sentimento de esvaziamento do sentido da vida, tristeza profunda e persistente; Desesperança: sensação de que não há futuro ou de que o futuro será péssimo; Desespero: impulsividade de cometer a violência de tirar a própria vida; Desamparo: sentimento de que não tem apoio para suportar.

O protocolo de avaliação de risco, de modo geral, apresenta os seguintes níveis:

  • risco mais baixo: quando há pensamentos de morte, flerte com a ideia de morrer, alívio com a ideia de morte;
  • ideação suicida: a pessoa começa a cogitar tirar a própria vida, tem apreço pela ideia morrer;
  • ideação com planejamento: a pessoa já está se organizando para morrer e pesquisando meios para realizar esse ato;
  • ideação com planejamento já executado: já ocorreu a tentativa de provocar a própria morte. Este é o estágio de maior risco, pois a pessoa já cruzou a linha.

Há, ainda, tentativas com meios mais letais, que resultam na morte instantânea.

Exposição a agrotóxicos

Virginia Dapper, médica do trabalho e integrante da assessoria de saúde do Sintrajufe/RS, chamou a atenção para outro fator de risco: os agrotóxicos. No Brasil, as taxas de suicídio são de 6 para 100 mil habitantes; no Rio Grande do Sul, sobem para 13 para cada 100 mil. Em locais com exposição direta a agrotóxicos, plantações de fumo, chegavam a mais de 20 por 100 mil.

A médica destacou que, nos últimos anos, em todo o mundo, houve aumento de 80% no uso de agrotóxicos e, no Brasil, chegou a 160%. Mesmo que muitas pessoas não se exponham diretamente, são expostas por deriva, pois esses produtos “viajam” mais de 20 km, pelo ar, e análises mostram que alimentos e água podem ter resíduos, e existe, segundo Virginia, “uma insegurança científica sobre os efeitos de longo prazo”.

Para a médica, é importante abrir essa discussão para toda a população, discutir meios de trabalho, meios de produção, impacto negativo na degradação ambiental. E também, especificamente sobre o trabalho, falar sobre o sofrimento mental oriundo do aumento do assédio moral no trabalho, de casos de pessoas que se suicidam dentro dos locais de trabalho: “esse sofrimento às vezes é o principal fator de risco”.

Acolhimento e escuta

Gabriela afirma que 90% dos casos de suicídio são evitáveis “se a gente consegue acolher”. Segundo ela, o principal ponto é a escuta, entender que a outra pessoa está em sofrimento, ouvir, fazer mais perguntas sobre o que ela sente do que tentar apresentar respostas. “Se percebe que a pessoa está em risco, pode perguntar diretamente se a pessoa está pensando em se matar e, assim, oferecer ajuda prática”, como acompanhá-la na busca de ajuda profissional.

Para a psicóloga, também é importante manter contato regular, pois o risco pode demorar a passar. Além, disso, ter cuidado consigo e estabelecer limites saudáveis, não tentar resolver todos os problemas da pessoa que está em risco; não subestimar as pessoas que já tentaram o suicídio. “A gente não pode subestimar o poder dos vínculos, quando se investe em vínculos saudáveis, estamos prevenindo”.

Djulia ressaltou que essa atenção e contato não devem diminuir quando, aparentemente, a/o paciente melhora. Conforme a psicóloga, depois dessa primeira melhora é que pode acontecer o suicídio, pois, quando a pessoa está muito deprimida, ela não tem forças para realizar a tentativa. Segundo ela, fatores de proteção incluem acesso à saúde pública e locais com capacitação efetiva para tratar do suicídio; senso de pertencimento, de comunidade; prática de exercício físico com constância;
respeito à diversidade; sono de qualidade; manutenção de rotina.

“O que quer dizer acolhimento?”, perguntou Vera. Ela explicou que é um termo complexo e amplo e que, junto com o acolhimento, tem o cuidado, a suspensão do julgamento sobre a outra pessoa e seu sofrimento: “não é somente na questão do suicídio, a gente não pode banalizar o sofrimento do outro”.

Cristina Viana destacou a importância dos serviços de psicologia dos órgãos. Gabriela, que já teve experiência em alguns órgãos de Justiça, afirmou que os serviços de psicologia são muito enfraquecidos, muitas vezes com pouco apoio das gestões, além de tentativas de conter a notícia, cuidar o que é divulgado, para não “manchar” a imagem da instituição.

Segundo Djulia, a psicologia e o tema saúde mental são tabus. Trilhar o caminho de prevenção, se torna difícil, afirmou, “porque a sociedade não está preparada para falar sobre saúde mental, e a saúde mental bem antes da tentativa de suicídio”.

Ao final, a diretora Cristina Viana disse que as discussões sobre o Judiciário que queremos e mundo que queremos, mais igualitário, que dê condições dignas para as pessoas, passa pelo cuidado com a saúde mental. Ela informou que o Sintrajufe/RS tem uma equipe de saúde, com psicóloga, médico e médicas do trabalho e psiquiatra, que conseguem encaminhar servidores e servidoras para que encontrem a ajuda necessária. “É importante que os colegas e as colegas não hesitem em procurar o Sintrajufe/RS quando se sentirem desamparados”, afirmou.

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Contatos do Sintrajufe/RS:

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Telefone: (51) 3235-1977