SINDICATO DOS TRABALHADORES DO JUDICIÁRIO FEDERAL E MINISTÉRIO PÚBLICO DA UNIÃO - FUNDADO EM 28 DE NOVEMBRO DE 1998 - FILIADO À FENAJUFE E CUT

DESTAQUE

Setembro Amarelo: falando sobre suicí­dio

Nesta quinta-feira, 10, Dia Mundial de Prevenção ao Suicí­dio, o Sintrajufe/RS publica artigo da psiquiatra Ana Achutti e da psicóloga Vera Moura, da assessoria de saúde do Sintrajufe/RS. No texto, as autoras destacam que a depressão pode ser observada em idades muito precoces (inclusive como resultado de um adulto responsável não tratado) e é a principal causa de incapacidade em todo o mundo, contribuindo de forma importante para a carga global de doenças.

Alice tem 9 anos e, nas últimas semanas, vem perdendo a alegria. Tem dificuldade para acordar e resiste para ir à escola. Isso não é comum nela. Pelo contrário. Alice é alegre, gosta da escola e tem amigos. Os pais já notaram que tem alguma coisa acontecendo. Mas, nesse dia, Alice chega, larga a mochila e diz:Eu nunca mais vou aprender nada até ficar uma espantalha e nunca mais vou comer nada até virar uma caveira. E começa a chorar. O pai, pediatra, vem atendendo muitas crianças e adolescentes no hospital e no posto. Mas nunca imaginou ouvir alguma coisa parecida da filha.

Uma mãe de três meninos, no seu único dia em que não faz faxina na casa de outras mulheres, resolveu aproveitar o dia de sol no inverno para colocar cobertores e colchões para arejar. Encontrou, embaixo no colchão do filho de 14 anos, um bilhete no qual ele dizia que não queria mais viver. Nada dava certo para ele e que toda vez que procurava o pai, este nunca atendia. A mãe leva o bilhete no posto de saúde e mostra para a enfermeira.

Agatha tem 17 anos. Desde os 12 cuida de três irmãs menores que ela. A mãe foi embora e deixou todas com o pai. Este acha ágatha perfeita. Ela estuda, tira notas ótimas e cuida das irmãs. De vez em quando, a avó aparece para ajudar. ágatha quer ser médica. Um dia ela é encontrada no banheiro da escola com os punhos cortados. Quando sai da internação, é encaminhada para atendimento psicológico.

Menina de 15 anos mostra para a professora carta que a colega entregou para ela. Na carta, a colega dizia que queria se matar. Escola discute como vai atender à situação.

Funcionária procura RH da empresa. Diz ter assistido a documentário sobre suicí­dio e está convivendo com um colega que mudou muito desde que a namorada terminou namoro repentinamente com ele. Antes era alegre e bem disposto e agora está fechado, triste e quase não cumprimenta.

Na famí­lia de Helena, 60 anos, fala-se de qualquer pessoa que já faleceu, exceto de duas: seu filho, que aos 16 anos tirou a própria vida, hoje teria 30, tampouco da bisavó dele, que também cometeu suicí­dio, quando recém havia ganhado seu filho, o avô, que, não tão estranhamente, nunca falou de sua mãe.

Para a psicanálise, o que não se fala, como proibição, retorna como sintoma. Sempre retorna. Ali sempre estará um sinal, ao qual é necessário voltar para ser trabalhado, digerido. Não é verdade que o que não é falado é esquecido 

Não julgue; ofereça ajuda

A depressão pode ser observada em idades muito precoces (inclusive como resultado de um adulto responsável não tratado) e é a principal causa de incapacidade em todo o mundo, contribuindo de forma importante para a carga global de doenças. Nos anos 90, ocupava o quarto lugar, projetando seu aumento para o segundo lugar em 2020. Tem alto potencial de gerar grande sofrimento e disfunção no trabalho, na escola ou no meio familiar.  Na pior das hipóteses, pode levar ao suicí­dio. Cerca de 800 mil pessoas morrem por esta causa a cada ano, sendo a segunda principal causa de morte entre pessoas com idade entre 15 e 29 anos, de acordo com dados da Organização Pan-Americana da Saúde de 2018.

Depressão traz sempre a ideia de lentidão e tristeza. Mas, pra complicar, ela também pode estar por trás de uma aceleração e euforia. Por isso, se faz tão importante o encontro humano, consigo mesmo e com o outro.

O sofrimento é inerente à vida, reconhecê-lo e aceitá-lo é o primeiro passo para suportá-lo e superá-lo. Mas não fazemos isso sozinhos ou sozinhas. Precisamos uns dos outros. Precisamos, todos e todas, sermos percebidos e reconhecidos; é pertencendo que isso ocorre. Mas há muito construí­mos um mundo que privilegia o individualismo, a competição, levando a um olhar empobrecido sobre nós mesmos; logo, não temos um olhar suficiente para o outro.

Nas histórias pontuadas no iní­cio do texto, ali estavam momentos de dor, de desesperança, de desmotivação para a vida. Mas também, nessas histórias, todas essas encontraram alguém que as enxergou, que compreendeu seus sinais de que precisavam da iniciativa de um outro ser humano, alguém que as ajudasse a sair da bruma, que tem entre seus sintomas não deixar ver qualquer perspectiva de por onde sair disso. A chance de ouvir uma voz de alguém que diz que está ali e que essa pessoa não sozinha faz a grande diferença.

Não importa o motivo, não há como julgar a dor alheia. Ofereça seu tempo e escuta sincera, num ambiente tranquilo, que permita sigilo (se não os têm, escolha outro momento ou terceirize, alertando alguém que possa fazê-lo de forma adequada, pois, não há nada mais desalentador que a percepção de um interesse forjado); acredite na dor relatada, não a minimize com soluções fáceis (se fosse fácil, já teria sido resolvida); sempre auxilie a encontrar ajuda, seja na famí­lia, seja no trabalho ou diretamente com um profissional da saúde.

Setembro Amarelo

Quanto à origem da escolha da cor para nomear o Setembro Amarelo, criado para marcar a lembrança de que precisamos falar sobre o tema do suicí­dio, dolorido para tantos e assustador para todos e todas, e que poderia estar associada a conceitos como a atenção que demanda ou ao desespero envolvido, na verdade surgiu de uma história, ao contrário das que citamos, em que o silêncio cursou contra a vida.

No dia 8 de setembro de 1994, um adolescente norte-americano, que teve o fascí­nio e tinha conseguido recuperar um carro Ford Mustang 1968, pintou-o de amarelo brilhante, ficando identificado pelo carro, bem quisto que era por todos. A tragédia se deu por ter cometido suicí­dio apenas sete minutos antes de os pais chegarem em casa. No funeral, na busca dos pais por mitigarem sua dor, fazendo por outros o que não conseguiram fazer por seu filho, distribuí­ram cartões que portavam uma fita amarela (Yellow Ribbon, nome de uma fundação criada então), com os dizeres Se você está pensando em suicí­dio, entregue este cartão a alguém e peça ajuda! .

Resultou que os 500 cartões distribuí­dos surtiram efeito, se multiplicaram, e pelo menos 115 mil jovens, desde então, pediram ajuda e salvaram suas vidas, segundo a fundação que os acolheu.