Entre os indiciados por apoiarem a tentativa de golpe em 8 de janeiro de 2023, estão 142 empresários do agronegócio. Eles foram identificados no relatório “Agropolpistas”, elaborado pelo observatório do agronegócio De Olho nos Ruralistas, em uma lista consolidada com base, exclusivamente, em nomes implicados legalmente nas fontes oficiais. O relatório chama a atenção para a falta de responsabilização de fazendeiros e donos de empresas agropecuárias que forneceram apoio logístico e financeiro à tentativa de golpe.
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Nos dois anos que se seguiram ao 8 de janeiro, a Justiça brasileira responsabilizou criminalmente 898 réus. Desse total, 527 foram condenados após prisão em flagrante dentro de prédios públicos e na Praça dos Três Poderes ou nos acampamentos ilegais em frente dos quartéis do Exército.
“Peixes pequenos”
À exceção dos oito militares presos no curso das operações Contragolpe e Tempus Veritatis, os golpistas do 8 de janeiro são, em sua maioria, “peixes pequenos”. No rol de condenados, estão ausentes os empresários que ajudaram a financiar não somente os acampamentos e os bloqueios rodoviários, mas também a conspiração golpista.
Uma evidência da impunidade desses empresários vem do relatório da CPMI do 8 de Janeiro, do Senado, que destacou o papel central dos caminhões estacionados no Quartel General do Exército, em Brasília. Os veículos serviam de palanque, auxiliavam no trânsito de mantimentos e simbolizavam a força do movimento, que ameaçava “parar o Brasil”. Os empresários da logística são também fazendeiros, um dado importante que não foi destacado por boa parte das análises publicadas à época. Eles respondem por 91 das 142 entradas na lista: 64% dos nomes consolidados no relatório. Nenhum deles foi responsabilizado criminalmente.
Os únicos empresários condenados e presentes na lista consolidada no relatório “Agrogolpistas” são aqueles flagrados durante os atos terroristas de 8 de janeiro de 2023, em Brasília. É o caso do fazendeiro paranaense Jorginho Cardoso de Azevedo, condenado a 17 anos de prisão por participar da invasão e depredação de prédios públicos na Praça dos Três Poderes. Ele foi identificado pela CPI dos Atos Antidemocráticos, da Câmara Legislativa do Distrito Federal (CLDF), como um dos contratantes de ônibus usados para levar manifestantes a Brasília.
Azevedo conta com o apoio do senador Sérgio Moro (União-PR). Em setembro de 2024, o ex-juiz da Lava Jato usou sua conta no Instagram para criticar o tempo de pena e disse que intercederia junto ao Supremo Tribunal Federal (STF) com o objetivo de transferi-lo ao regime semiaberto para tratar “graves problemas de saúde”. Em abril de 2025, o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), autorizou a mudança para prisão domiciliar.
Fora da denúncia da PGR
Os indiciados nas comissões parlamentares, tanto do Senado quanto da CLDF, não integram a denúncia da Procuradoria-Geral da República (PGR) que definiu os seis núcleos golpistas no julgamento no STF. Também não foram processados os empresários listados na lista de donos dos caminhões flagrados no QG do Exército.
É o caso de Antônio Galvan, que presidiu a Associação Brasileira dos Produtores de Soja (Aprosoja Brasil) durante o governo Bolsonaro. Ele aparece junto a outros sete líderes do setor, como presidentes de sindicatos rurais e dirigentes das Aprosojas regionais, investigados na CPMI do 8 de Janeiro, no Senado. O relatório da Abin, dois dias depois da tentativa de golpe, aponta o Movimento Brasil Verde e Amarelo (MBVA) como articulador, pelo menos desde 2021, de manifestações golpistas. O papel do MBVA e sua relação com o general Walter Braga Netto é o tema central do terceiro capítulo do relatório. Candidato a vice-presidente em 2022, Braga Netto é o “pai” do plano Punhal Verde e Amarelo, que pretendia assassinar o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, seu vice, Geraldo Alckmin, e o ministro Alexandre de Moraes.
Além desses dirigentes, o núcleo do 8 de janeiro conta com cinco fazendeiros que foram alvos de busca e apreensão no inquérito na Operação Lesa Pátria: José Ruy Garcia, vereador de Inhumas (GO); Fernando Junqueira Ferraz Filho, primo do prefeito de Leopoldina (MG); Luciene Beatriz Ribeiro Cunha, pecuarista de Uberaba (MG); Geraldo Cesar Killer, de Bauru (SP), com quem foram apreendidos US$ 142 mil em espécie; e Christiano da Silva Bortolotto, ex-presidente da Aprosoja-MS e alvo da 26ª fase da Lesa Pátria, investigado por organizar comboios com ônibus e caminhões rumo a Brasília, além de estimular bloqueios de rodovias na região sul do estado.
Fonte: Observatório De Olho nos Ruralistas
Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil















