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Oficineiro do Sintrajufe/RS, poeta Ronald Augusto prefere não romantizar o isolamento

O poeta Ronald Augusto disse que é uma tremenda bobagem a visão que se tem do escritor como solitário, incompreendido . A afirmação foi dada em entrevista do oficineiro de poesia do Sintrajufe/RS ao Jornal do Comércio.  Segundo Ronald, “infelizmente, a arte é uma das atividades humanas em que mais se tolera toda sorte de mistificações .

Ele conta que o distanciamento social trazido pelo novo coronaví­rus, por exemplo, pouco ou nada mudou na sua forma de escrever, ou mesmo nas atividades como ensaí­sta e músico. E também não é estí­mulo à criatividade. “Ficar em casa não é especialmente inspirador para mim, e, do mesmo modo, antes do confinamento, quando podí­amos ir e vir sem preocupação, eu não entendia (e ainda não entendo) essa condição como mais favorável à criação de poemas.”

Outra ideia com a qual Ronald Augusto não concorda: a de que o claustro pode aproximar o escritor e o leitor, no compartilhamento de uma experiência comum: “Não sei. Acho que essa ideia parece ir ao encontro da romantização do isolamento”. “A questão não é se aproximar do escritor. Eu, como leitor, prefiro me aproximar do texto, enfrentar os dilemas do discurso, da prosa e do verso em sua condição de coisa verbal que produz sentidos e elipses” diz.

Na opinião do poeta, também não há mais tempo no isolamento. “Sempre sonhamos com mais tempo para finalmente lermos aquela grande obra, assistirmos aquele clássico do cinema. Porém, não há mais tempo. Não temos mais, aliás, nunca tivemos autoridade sobre o tempo do capital”, reforça. A principal tarefa de Ronald nestes dias, é cuidar da filha de 11 meses. “Ela sairá da quarentena como bí­pede”, brinca o pai.

Ronald é firme sobre o que talvez seja outra forma de isolamento: as dificuldades que escritores negros enfrentam para obter reconhecimento. “A sala de estar da literatura não é infensa ao racismo estrutural de nossa sociedade”, acentua. “O escritor negro é mais um estranho do que um igual. O argumento meio clichê da qualidade literária, por exemplo, tem servido muito mais para manter uma espécie de reserva de mercado para os escritores da branquitude do que para estabelecer algum modelo de julgamento para a diversidade das poéticas que experimentamos.”

Antes da chegada da pandemia, Ronald Augusto encaminhava os últimos ajustes para o lançamento de dois livros, um de ensaios e outro de poesia. Esses projetos foram pausados. De forma remota, o poeta segue com as oficinas (como a do Sintrajufe/RS) e os cursos; às vezes, escreve letras de música.

Editado por Sintrajufe/RS, fonte: Jornal do Comércio.