SINDICATO DOS TRABALHADORES DO JUDICIÁRIO FEDERAL E MINISTÉRIO PÚBLICO DA UNIÃO - FUNDADO EM 28 DE NOVEMBRO DE 1998 - FILIADO À FENAJUFE E CUT

SOBRA BOMBA, FALTA COMIDA

Com orçamento militar de quase 1 trilhão de dólares, Estados Unidos tem aumento de pessoas passando fome; paralisação do governo deixou 42 milhões sem auxílio

Reportagens publicadas nos últimos dias pela BBC e por agências internacionais traçam um panorama de tragédia social nos Estados Unidos. Enquanto o país, comandado por Donald Trump, amplia os gastos militares, cada vez mais pessoas encontram dificuldades para se alimentar.

O orçamento militar dos Estados Unidos, que já vinha se aproximando de 1 trilhão de dólares nos últimos anos, ultrapassará essa marca pela primeira vez em 2026. “Me comprometi a gastar mais de US$ 1 trilhão com as forças armadas no ano que vem”, disse Trump em setembro. Para se ter uma ideia do que isso significa, basta dizer que o orçamento militar mundial em 2024 foi de 2,7 trilhões de dólares e que a soma dos gastos desse tipo nos países da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) foi de 1,5 trilhão de dólares no mesmo período.

Segundo a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO, na sigla em inglês), são necessários 33 bilhões de dólares por ano em políticas públicas para reduzir a subalimentação global a 3% até 2030. No caso dos Estados Unidos, o programa local de combate à fome, Programa de Assistência Nutricional Suplementar (Snap, na sigla em inglês), custa 8 bilhões de dólares por mês (125 vezes menos do que o orçamento militar) e atende 42 milhões de pessoas. Mesmo assim, durante a recente paralisação do governo, os pagamentos foram suspensos. Na ocasião, Trump disse que os benefícios do Snap, “que aumentaram em bilhões e bilhões de dólares (MUITAS VEZES!) durante o desastroso mandato de Joe Biden”, seriam pagos “apenas quando os radicais democratas de esquerda abrirem o governo, o que podem fazer facilmente – e não antes!”.

A paralisação do governo dos Estados Unidos durou cerca de um mês e meio e ocorreu por conta da falta de acordo para aprovação do orçamento do próximo período. Quando isso ocorre, ativa-se uma paralisação ou fechamento administrativo, o shutdown. Isso implica em diversos efeitos nos serviços públicos e para os servidores e servidoras, inclusive abre as portas para cortes que o governo pretende tornar permanentes. Previdência, sistema de saúde, assistência alimentar, educação pré-escolar financiada pelo governo federal, concessão de empréstimos estudantis, inspeções de alimentos e operações em parques nacionais estão entre os setores afetados. Além da paralisação dos serviços à população, servidores e servidoras foram demitidos ou ficaram sem receber salários em diversos setores do governo.

Um dos programas afetados foi o Snap. Esse programa beneficia 42 milhões de pessoas com valores que ficam, em média, em 187 dólares, cerca de R$ 1 mil. Para entrar no programa, o governo exige que a pessoa trabalhe pelo menos 30 horas semanais, a menos que seja estudante, cuide de uma pessoa com incapacidade ou de uma criança com menos de seis anos O Snap também inclui pessoas que recebem tratamentos por alcoolismo ou dependência de drogas, ou que têm limitações mentais ou físicas.

Esses pagamentos, que garantem alimentação a cerca de 1 a cada 8 estadunidenses, foram suspensos por Trump durante o shutdown. Isso gerou um efeito cascata em outro instrumento a que a população recorre para não passar fome: os bancos de alimentos, organizações não governamentais mantidas com doações. A BBC publicou reportagem na última semana sobre a situação de um desses bancos, na Flórida, o Feeding South Florida. Apenas na Flórida, conforme a reportagem, quase um milhão de pessoas dependem desses locais, que fornecem alguns alimentos, de forma limitada, gratuitamente. Com a suspensão dos pagamentos do Snap, porém, muitos bancos de alimentos não conseguiram dar conta da demanda.

A fome e o desamparo afetam inclusive muitos estadunidenses de classe média. De uma hora para a outra, alguma dificuldade pode levá-los a situações-limite. Pesquisadores falam em três dessas situações: perder o emprego, uma emergência de saúde ou a separação das famílias. “É um problema estrutural, que se deve principalmente a dois fatores: sua rede de previdência social muito fraca, que não consegue impedir que as pessoas caiam na pobreza, e a criação de empregos com baixa remuneração e sem subsídios”, disse à BBC o sociólogo Mark Rank.

Com informações da BBC, O Globo, CNN e O Estado de S. Paulo

Foto: U.S. Air Force/AP Photo/picture alliance