SINDICATO DOS TRABALHADORES DO JUDICIÁRIO FEDERAL E MINISTÉRIO PÚBLICO DA UNIÃO - FUNDADO EM 28 DE NOVEMBRO DE 1998 - FILIADO À FENAJUFE E CUT

Caos

Apagão no Amapá: governo diz que saí­da é a privatização, mas quem está consertando é uma estatal; colega do TRE-AP relata o caos

Oito dias depois de incêndio em um transformador da empresa espanhola Isolux, cerca de 700 mil pessoas em 13 das 16 cidades do Amapá ainda estão sem energia elétrica e sofrem com escassez de água e combustí­veis. A empresa é privada, mas quem está fazendo os reparos é a estatal Eletronorte, holding da Eletrobrás, que integra a lista de privatizações do governo Jair Bolsonaro.

A subestação de energia, na capital Macapá, pegou fogo na noite de 3 de novembro. Em plena pandemia do novo coronaví­rus, cujos números estão em alta no estado, e com um calor de cerca de 40 graus, a cidade vive um caos. Além disso, boa parte da água no estado é captada por poços artesianos, que precisam de energia elétrica para funcionar.

A Eletronorte enviou técnicos dos estados do Pará, Maranhão e Rondônia para ajudar no reparo. O problema é que nem gerador substituto ou peças de reposição a Isolux possui no local. Segundo o diretor do Sindicato dos Urbanitários do Maranhão Wellington Diniz, a Isolux não tem capacidade técnica ou trabalhadores em número suficiente para manutenção nem recompor a energia em pouco espaço de tempo, por isso os técnicos da estatal foram chamados para prestar socorro.  

A maior parte da energia está sendo concentrada em hospitais. O governo federal liberou 21,9 milhões para aluguel de geradores e compra de combustí­vel para operação desses equipamentos. Nos locais em que a energia foi restabelecida, é feito rodí­zio, ou seja, as famí­lias têm luz apenas poucas horas por dia. Um dos negócios que surgiram em meio à crise foi o aluguel de tomadas, para que as pessoas liguem as geladeiras; uma barra de gelo chega a custar R$ 50,00.

As filas nos supermercados são imensas; a compra de água está sendo racionada, assim como a compra de pão. Nos postos de combustí­veis, as filas são formadas por 60 a 50 veí­culos; vários fecharam, porque as bombas não têm condições de retirar o produto dos poços. Há também o medo de aumento de assaltos ou outros tipos de violência, pois as ruas ficam totalmente escuras à noite.

Colega do TRE-AP diz que a situação piorou com a privatização

Para obter mais informações sobre a situação, o Sintrajufe/RS conversou com Mara Ruth Shaif, analista judiciária do TRE-AP. Ela conta que, quando foi morar em Macapá há 16 anos, o serviço de energia elétrica, ainda público, era precário, com equipamentos sucateados. Mara acredita que isso era para fazer com que a população concordasse mais facilmente com a privatização. Mas, depois de privatizado, não houve melhorias; pelo contrário, piorou ; ela afirma: é comum quando chove ou venta mais forte faltar energia .

Mara Ruth afirma que, embora o serviço fosse instável, nunca se chegou a uma situação parecida com a atual. Quem tem uma situação financeira um pouco melhor comprou geradores, que agora estão em falta no mercado. A população mais carente, além de não ter energia elétrica, não tem água para beber nem para higiene pessoal. A colega dormiu dois dias no carro com a filha; o marido, em outro carro, devido às altas temperaturas dentro de casa. Essa é situação de muitas pessoas, mas ela lembra que é pior para quem não tem nem essa opção. 

A telefonia também está funcionando precariamente. A colega relata que, no TRE-AP, apesar da presença de geradores, ficaram sem telefone e sem internet por pelo menos dois dias. Vários equipamentos foram danificados, e o sistema só começou a se normalizar sábado.

Para Mara, é uma vantagem a Eletronorte não estar privatizada, pois, lembra ela, os técnicos da estatal é que estão fazendo o conserto do problema na empresa privada. Se não fosse a Eletronorte, a gente estaria em uma situação muito pior . Até o momento, a Isolux não se manifestou, apesar de decisão liminar para que isso aconteça e os serviços sejam retomados em até três dias. Mara lembra que a empresa está em recuperação judicial; portanto, não há certeza de que tenha capacidade financeira ou que vá honrar a determinação. Segundo o diretor do Sindicato dos Urbanitários do Maranhão Wellington Dinizem entrevista ao site da CUT “, em 2014, a Isolux deu um prejuí­zo de US$ 476 milhões ao estado norte-americano de Indiana, onde também prestava serviços. 

Revolta, repressão e privatização

Somente nessa segunda-feira, 9, o ministro das Minas e Energia, Bento Albuquerque, visitou o Amapá. Ele deu até dez dias para solucionar o problema, o que é demais para quem já está há uma semana nessa situação.

A população está revoltada. Já foram feitas diversas manifestações nas ruas, inclusive com barricadas, exigindo uma solução. A resposta foi repressão policial, com relatos de pessoas atingidas com balas de borracha pela Polí­cia Militar, incluindo um adolescente de 13 anos.

Em meio ao apagão causado por problemas em uma empresa privada, Albuquerque deu entrevista, nesta quarta-feira, e assegurou que a privatização da Eletrobras deve ocorrer ainda em 2021. Segundo o ministro, estamos trabalhando nesse sentido com o Congresso Nacional ; a quatro mãos com os presidentes da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RS), e do Senado, Davi Alcolumbre (DEM-AP). Também estão na lista: Correios, Porto de Santos e Pré-Sal Petróleos.

O presidente do Sindicato dos Urbanitários do Amapá, Jedilson Santa Bárbara de Oliveira, critica o desmonte da Eletronorte no estado; em cerca de dez anos, o número de trabalhadores foi reduzido à metade. A empresa quer incentivar a demissão de trabalhadores experientes por meio de PDVs, mas na hora que mais precisa, são eles que são chamados. As mil demissões que a Eletrobras quer fazer são para baratear os custos para privatizar e entregar ao capital internacional mais uma empresa brasileira superavitária. A Eletrobras teve um lucro no último ano de R$ 20 bilhões”, denuncia Jedilson.

Sintrajufe/RS, com informações de CUT e G1.