O Sintrajufe/RS recebeu no dia 13 de novembro um importante debate sobre a luta antirracista. Com convidados que trouxeram diferentes perspecitvas, a atividade foi construída a partir do Mês da Consciência Negra e foi encerrado com um show do grupo musical Fiéis da Balança, formado por colegas negros do TRT4, da ativa e aposentados.
Participaram, como painelistas, Eloá Kátia Coelho, cientista social e militante do Movimento de Mulheres Negras LBT+; Emir Silva, graduado em Políticas Públicas, geógrafo, dirigente do Movimento Negro Unificado e membro do Comitê Internacional de Reparação; e Célio Golin, ativista de direitos humanos, fundador do Nuances e organizador da Parada Livre de Porto Alegre.
O diretor do Sintrajufe/RS Mário da Silva e o colega Alan Carlos Dias Silva mediaram o debate. Alan abriu a atividade destacando o histórico de luta do Sintrajufe/RS, especificamente como parceiro do movimento negro. Alan defendeu a importância da realização de atividades como essa para explicar à sociedade a realidade do racismo e a necessidade de enfrentá-lo. Em seguida, Mário também fez uso da palavra, destacando o processo de criação do Núcleo de Negros e Negras do Sintrajufe/RS e a urgência da pauta antirracista: “não se passa um dia sem se falar que alguém sofreu um ato de racismo no Brasil”, lamentou.
Movimento negro é de superação
Eloá foi a primeira painelista a falar e começou citando Conceição Evaristo como referência para dizer que ninguém melhor do que nós para falar da nossa própria história . Ela elencou alguns tópicos que foi desenvolvendo ao longo de sua exposição. O primeiro deles foi: Não se cura câncer com aspirina. O racismo vai ter que ser enfrentado pela sociedade brasileira . Em seguida, citou o levantamento do IBGE divulgado nesta semana e que aponta que, pela primeira vez, o número de estudantes negros nas universidades ultrapassou o de brancos. Lamentou, porém, que tenhamos agora um governo que está minando as universidades públicas, justamente quando os negros começavam a conquistar esse acesso.
Para Eloá, o movimento negro é um fenômeno com um amplo grau de ação concreta, de sobrevivência. Um movimento sofisticado e requintado, o que possibilitou o nascimento de quilombos e de outros espaços negros de resistência. Nós nos superamos a cada dia , resumiu, apontando que o capitalismo precisa do racismo, e, como o capitalismo se reinventa, o racismo também se reinventa. Esse é um grande desafio do movimento negro, disse Eloá, sublinhando, ainda, o papel estratégia das mulheres negras. A painelista falou, ainda, da impossibilidade de separar a luta antirracista da luta de classes e das lutas das mulheres e dos LGBT+s. O racismo, defendeu, está ligado diretamente com a organização da produção, por um lado, e pelo sexismo, por outro. Em relação especificamente ao serviço público, Eloá narrou sua longa experiência no setor e criticou: “na maioria das vezes, o combate ao racismo no serviço público está atrelado às pessoas, que se comprometem muito mais do que a instituição”.
Questões estruturais do capital
Célio Golin falou em seguida, focando sua exposição na luta contra a homofobia e na intersecção entre as pautas. Conforme o ativista, a discriminação constrói na nossa sociedade uma hierarquização de poder: alguns conseguem ter uma cidadania minimamente respeitada, enquanto as outras pessoas, que não são “elegíveis” para o capitalismo, são renegadas. Isso tem consequências no dia a dia das pessoas, lamentou.
Essas questõesracismo, machismo, LGBTfobiasão estruturais e fazem parte da dinâmica do capital, explicou Célio. E fazem parte do projeto do grande capital, do neoliberalismo, que quer a desdemocratização, o Estado mínimo, sem políticas públicas: “assim, a vulnerabilidade social se instala de forma clara. Nesse modelo, somos pessoas descartáveis. E hoje temos um acirramento desse processo a nível mundial”.
Enfrentar a luta social
Por fim, falou Emir Silva, que iniciou sua exposição lembrando que o Brasil é o segundo país com mais negrosquase 120 milhões. Assim, para pensarmos o país temos que pensar em um país eminentemente negro, definiu. Por isso, é necessário construir uma agenda de luta que entenda essa realidade e entenda o poder das grandes corporações, acirrando os debates e os temas que são crônicos na nossa sociedade.
Emir explicou que o movimento negro conseguiu, em diversos momentos, pautar o país a partir de sua organização nas bases populares: “Há pouco tempo a grande mídia não falava em racismo. Hoje a sociedade fala em racismo. Porque o movimento conseguiu pautar a sociedade. Isso é um grande êxito”. Ao mesmo tempo, cresce o desafio de aproximar o movimento negro dos sindicatos para fazer o enfrentamento da luta social: “se não enfrentarmos de forma organizada os nossos adversários, a gente não consegue dar um passo adiante”.
Debate
Após as falas, foi aberto espaço para debate com os presentes. Diversos colegas relataram suas experiências de violência racista e, ao mesmo tempo, de enfrentamento a essa realidade, de construção da luta antirracista. Criticaram a quase ausência de negros no Judiciário Federal do RS, denunciaram o genocídio da juventude negra e os males persistentes causados pela escravização. Mas também deixaram falas de esperança, com a consciência de que de forma coletiva é possível construir uma outra realidade.
Em seguida do debate, os presentes foram brindados com um show do grupo musical Fiéis da Balança, formado por colegas negros do TRT4, da ativa e aposentados.
Diversas atividades
A semana entre 13 e 21 de dezembro foi de intensa atividade antirracista, que contou sempre com a participação das diretoras e diretores da entidade e do engajamento da categoria: a inauguração da mostra fotográfica sobre o Quilombo Lemos, no TRT4; a abertura da exposição fotográfica itinerante “Maçambique de Osório”, na PRR4; o debate realizado no TRE no dia 20; a Marcha Independente Zumbi e Dandara, na mesma data, Dia da Consciência Negra; e, no dia 21, o 1º Encontro de Educação Antirracista, no TRT4, e a mesa da Consciência Negra, no Encontro do Núcleo de Aposentados, Aposentadas e Pensionistas, no Sintrajufe/RS.









