Começou neste domingo, 25, o segundo e último dia do IX Congresso Estadual do Sintrajufe/RS. Pela manhã, ocorreu o painel Racismo, machismo e LGBTfobia no serviço público , com a professora estadual, vereadora de Porto Alegre (Psol) Karen Santos; a servidora aposentada da Ufrgs, doutora em Educação para Raça e Gênero e militante do Movimento Mulheres em Luta (MML) Vera Rosane de Oliveira; e o sociólogo, professor da Universidade Federal da Fronteira Sul (IFFS) e militante LGBT Douglas Santos Alves.
A luta contra o racismo precisa ser diária, no enfrentamento das barreiras sociais e econômicas colocadas para a população negra, disse Karen Santos. Ela afirmou que o racismo estrutural e estruturante se reverbera nas instituições públicas e privadas e se reflete nas relações entre as pessoas, criando uma seletividade sobre quem tem direitos e quem recebe ou não solidariedade. Para a painelista, não há como debater o racismo sem falar sobre o passado escravocrata do Brasil, a objetificação da pessoa negra e o processo de abolição, realizado sem que a negras e negros fossem dadas condições mínimas para competir com os trabalhadores brancos. Karen falou sobre a relação perversa e intrínseca entre racismo e exploração econômica, que reforça as opressões do capitalismo periférico brasileiro; por isso, é importante identificar o racismo nas organizações, públicas e privadas. Com a eleição de Jair Bolsonaro, a painelista previu o aumento da violência contra essa população, embora destaque que, para boa parte da população negra e pobre, as liberdades democráticas nunca tenham se concretizado, de fato. Essa parcela, ressaltou, vem sofrendo um processo de genocídio independente de quem esteja no poder. Ela lembrou, como exemplos, a repressão durante as obras da Copa do Mundo, as Unidades de Polícia Pacificadora e a lei antidrogas, todas implementadas em governos ditos democráticos. Karen afirmou que a naturalização do racismo naturaliza também a exploração, que é engendrada em diferentes níveis. Por isso, a democracia, muitas vezes, serve para maquiar essas relações de classe. Para Karen, a tarefa que está colocada urgentemente é buscar alternativas diante deste momento de crise, tendo em vista que os negros estão na base dos que serão submetidos aos níveis mais precários de trabalho e perdas com o recuo do oferecimento de serviços públicos. Ressaltando que representatividade é importante, Karen advertiu que não adianta entrar nos espaços de poder e se embranquecer , reproduzir o discurso da hegemonia e não estar comprometido com os de baixo. Em sua conclusão, a painelista afirmou que é preciso que a esquerda se volte para o trabalho de base e que cada um busque colocar na prática, no dia a dia, no sindicato, na organização, no trabalho, as mudanças que quer construir na sociedade.
Já para Vera Rosane de Oliveira, O machismo estruturante é utilizado todo dia, nas relações produzidas socialmente, na forma de organizar conjunto do trabalho e a vida social, para manter a dominação, desmoralizar e desqualificar as mulheres ; o capitalismo e o machismo se associam como forma de dominação, afirmou. Vera ressaltou, ainda, que, assim como não é todo branco que é meu inimigo, não é todo negro que é meu irmão, não basta ser mulher . Citou como exemplo o primeiro governo de Dilma Rousseff, que investiu bem menos que o esperado e necessário no combate à violência contra a mulher, inclusive deixando de construir as casas abrigo para vítimas de violência doméstica. Citando a teoria marxista, a debatedora ressaltou que a opressão cria uma superestrutura ideológica que faz com que reproduzamos as relações que mais abjetamos ; portanto, os homens, ao reproduzirem relações de opressão contra as mulheres, estão oprimindo a si mesmos. Vera lembrou as grandes manifestações do Oito de Março (Dia Internacional da Mulher), que culminaram na maior greve geral da história dos trabalhadores brasileiros: quando as mulheres se levantam, o conjunto da classe se levanta . Novamente, em 2018, elas deram o recado a Bolsonaro, no movimento #EleNão. Sobre a atual conjuntura, ela avaliou que um governo de ultradireita significa a expressão de um governo machista para as mulheres. As ideias dominantes são as ideias da classe dominante e acabamos tratando nosso igual como inimigo , reproduzindo suas atitudes e discursos. É preciso, portanto, discutir o machismo e a opressão em todas as instâncias. Vera reiterou que as mulheres mostraram e mostram o caminho, que sempre foram e ainda são o setor mais oprimido e que, quando se erguem, trazem consigo o conjunto da classe. Apesar dos tempos que se avizinham, com tantos ataques postos e outros que devem surgir, ameaçando direitos, aposentadoria, liberdade de expressão, Vera disse acreditar que a gente vai conseguir vencer , e finalizou, citando Lenin: os trabalhadores só terão sua libertação se conjuntamente libertarem mais de metade da sua classe, que são as mulheres.
A homofobia é um desdobramento do machismo, o reforço dos papéis de gênero, do que seria masculinidade e feminilidade é um dos pilares do discurso homofóbico, afirmou Douglas Santos Alves. Foi feito um breve resumo do surgimento do movimento LGBT, nos 1960, seu crescimento e fragmentação, além do preconceito sofrido muitas vezes dentro das próprias esquerdas, o que explicaria certo isolamento desse grupo. O painelista falou sobre o uso do movimento LGBT como capital de disputa no capitalismo, como se a cidadania se realizasse nos shopping centers. Por outro lado, a pauta conservadora em ascenso no atual momento toca diretamente as minorias e conduziu o país a um governo de extrema-direita no poder. Para Douglas, a esquerda não pode se furtar de fazer esse debate: a pauta classista deve travar disputa com a pauta da opressão . Vista como uma questão individual, a questão LGBT muitas vezes é relegada a plano secundário, mas, ressaltou Douglas, a opressão não deve ser debatida no privado , pois há forte relação entre opressão e exploração. No mercado de trabalho, os cargos mais baixos estão ocupados por negros, mulheres e LGBTs, e a precarização das relações de trabalho passa pelas relações de opressão. São muitas as desigualdades na classe trabalhadora, entre gênero, raça, diferentes formações e, para evitar que haja uma explosão, são impostas divisões na classe, naturalizações que alimentam assédio moral, sexual, perseguições das mais variadas formas. São formas de discriminação, e muitas vezes entendemos que isso é da esfera do privado, e não da classe , o que faz com que muitos sindicatos não encampem essas bandeiras. Os movimentos LGBT estão em ascenso, disse Douglas, mas pautados por uma visão pós-moderna, individualista, que se vê desconectada das estruturas do capital, do Estado. A escola sem partido e o combate à chamada ideologia de gênero destroem as relações de confiança entre professor e aluno e criam empecilhos para que se fale abertamente de saúde e prevenção. Os resultados já começam a aparecer, com o aumento das infecções por HIV entre jovens, uma geração que está despreparada para lidar com o problema. O Estado está se retirando, se omitindo. Na opinião de Douglas, união civil entre pessoas do mesmo sexo, casamento gay, nome social e outras pautas LGBTs que já estão sob ameaça devem ser encampadas pelos sindicatos, pela classe trabalhadora. Há um ataque generalizado e isso impõe a necessidade de uma articulação, de diálogo. É preciso encontrar uma saída conjunta, coletiva da classe trabalhadora, pois, concluiu, não existe emancipação no shopping center .
Ao final da apresentação dos painelistas, foi aberto espaço para manifestação dos participantes do Congresso. Colegas mulheres falaram sobre as dificuldades em conciliar a militância e a maternidade, por falta de suporte e espaços para deixar os filhos. Ainda é da mulher a tarefa de deixar de participar do público para participar do privado , afirmou a diretora do Sintrajufe/RS Alessandra Krause. Também foi falado sobre o machismo no movimento sindical, a xenofobia e o preconceito contra nordestinos e refugiados e o temor do aprofundamento das perseguições e mulheres, negros e LGBTs no futuro governo e a necessidade de solidariedade e ação conjunta na resistência.
Resoluções
Depois do debate, foram aprovadas resoluções relativas aos temas mulheres, negras e negros, LGTB e pessoas com deficiência. Foi aprovada a criação do Coletivo de Gênero e a refundação do Coletivo de Negras e Negros do Sintrajufe/RS. Outras resoluções trataram do compromisso do sindicato com a emancipação de mulheres, negras e negros, LGBTs e PCDs, na defesa e no fortalecimento de pautas desses segmentos, garantia de representatividade da diversidade, formação sindical feminista, antirracista e anti-LGBTfóbica e luta contra toda forma de preconceito.









