SINDICATO DOS TRABALHADORES DO JUDICIÁRIO FEDERAL E MINISTÉRIO PÚBLICO DA UNIÃO - FUNDADO EM 28 DE NOVEMBRO DE 1998 - FILIADO À FENAJUFE E CUT

DESTAQUE

Precisamos, sempre e cada vez mais, falar sobre racismo

Há quem argumente que o racismo não acaba justamente porque se fala muito sobre o assunto. Ou será que incomoda o fato de, ao se falar sobre racismo, aparecer o racimo de cada um de nós? O fato é que, falando ou não sobre ele, o racismo existe, está presente no dia a dia, e a alternativa de ignorá-lo é uma prerrogativa das pessoas brancas. Negras e negros, pelo contrário, não podem esquecer; são lembrados a cada momento da cor de sua pele: na rua, no trabalho, nos ambientes escolares e acadêmicos, no campo de futebol, no shopping…

Antes de negar, de refutar, seria interessante as pessoas brancas fazerem um exercí­cio e se perguntarem: onde está escondido o seu racismo? Há poucos dias, um colega do TRT4 fez uma publicação em rede social com uma chacota sobre o corte de cabelo de um jogador de futebol e finalizou afirmando que o atleta tinha cabelo ruim ; o racismo no Brasil é tão eficaz, que ligamos diretamente cabelo ruim a negro . Não cabe quando se fala do cabelo de brancos.

Durante a Copa do Mundo, um conhecido influenciador digital, com milhões de seguidores, fez uma relação direta entre a velocidade do francês Mbappé e o arrastões, assaltos que ocorrem em praias cariocas. Por mais que tentasse desmentir, o racismo foi flagrante. Se tivesse feito o mesmo tipo de comentário sobre um jogador branco, ninguém teria entendido ou rido da piada . No Sintrajufe/RS, em 2017, durante o Encontro do NAF, uma colega se dirigiu a uma funcionária do sindicato, negra, que usava turbante e colar, e perguntou por que estava fantasiada de í­ndia. Novamente, o comentário teria acontecido se a funcionária fosse branca?

O racismo no Brasil é “estrutural e institucionalizado” e “permeia todas as áreas da vida”. A conclusão é da Organização das Nações Unidas (ONU), que publicou, em 2014, um informe sobre a situação da discriminação racial no paí­s. No documento, uma das conclusões é que parte substancial da sociedade ainda “nega a existência do racismo”. Para a ONU, um dos maiores obstáculos para lidar com o problema é que “muitos acadêmicos nacionais e internacionais e atores ainda subscrevem o mito da democracia racial”.

Perverso, também, é colocar a culpa do racismo nos negros. Na novela infantil A aventuras de Poliana , do SBT, uma cena que foi ao ar recentemente causou protestos. Nela, a professora, negra, diz para a aluna, também negra, que o maior culpado pelo racismo é a nossa cabeça. E pra que os outros parem de ver a nós negros como diferentes, nós precisamos parar de nos ver como diferentes . Ou seja, uma novela ensina às crianças que os negros são os culpados pelo racismo. Isso vem ao encontro do que afirma o antropólogo brasileiro-congolês Kabengele Munanga: o racismo é um crime perfeito no Brasil, porque quem o comete acha que a culpa está na própria ví­tima. Além do mais, destrói a consciência dos cidadãos brasileiros sobre a questão racial .

Racismo não é opinião, é crime; expor ideias racistas não é uma questão de liberdade de expressão, é crime. Falar sobre racismo é expor uma ferida aberta por séculos de escravidão, discriminações e violências contra a população negra. E não se cura uma ferida fingindo que ela não existe.