O Sintrajufe/RS divulgou, em maio, os dados da mais ampla pesquisa feita junto à categoria, que tratou de questões de saúde física e mental, atendendo a medições previstas em estudos internacionais. Fernando Feijó, médico do trabalho da assessoria de saúde do sindicato, um dos responsáveis pela produção e pela análise de dados, fala nesta entrevista sobre o método utilizado, o que mudou desde a pesquisa realizada em 2011 e como esses dados podem ser utilizados para mudar e melhorar a realidade nos locais de trabalho do Judiciário Federal do RS.
 Pesquisa de Saúde 2016 foi a mais ampla já feita pelo Sintrajufe/RS, com novas medições. O que mudou e por que fazer essas modificações?
A pesquisa de 2016 buscou ir a fundo no estudo das condições e da organização do trabalho. Para que isso fosse possível, utilizamos um rigor metodológico, utilizando diversos instrumentos cientificamente validados, que nos deram mais subsídios para mensurar as principais questões do trabalho e da saúde. Avaliamos o contexto geral de trabalho e incluímos questões mais aprofundadas sobre o assédio moral, que tem sido um fator determinante para a saúde nas mais diversas organizações.
A última Pesquisa de Saúde havia sido realizada em 2011. Nesses seis anos, quais foram as principais mudanças apontadas pelo levantamento que está sendo divulgado agora?
Houve notadamente uma piora na frequência dos sintomas de dor osteomuscular, em comparação à pesquisa anterior. Os transtornos mentais e sintomas oftalmológicos permaneceram relativamente estáveis, com altos índices de adoecimento. Esse fato revela que a situação de saúde da categoria, que já era preocupante, necessita cada vez mais de ações que busquem a prevenção do adoecimento e a promoção da saúde no ambiente de trabalho. A pesquisa de 2016 permitiu identificar diversos aspectos da organização do trabalho que podem ser foco de intervenção.
Para além de conseguir estimar a ocorrência dos principais problemas de saúde na categoria, uma virtude da Pesquisa foi revelar os mecanismos laborais que acabam por trazer adoecimento físico e mental aos servidores. Os resultados revelam que o contexto geral de trabalho, o qual está intimamente ligado à forma de gestão laboral (englobando fatores como a pressão por produtividade, intensificação do ritmo de trabalho, cobrança por metas, entre outros), está fortemente associado à ocorrência do assédio moral e a uma pior saúde. Tudo isso acaba por degradar o ambiente laboral e a piorar as relações entre colegas e chefias; e o trabalho, que deveria ser fonte de bem-estar, acaba se tornando um fator de risco à saúde.
O trabalho pode ser um fator de adoecimento? Se sim, de que forma a organização do trabalho no Judiciário facilita esse quadro?
As pessoas trabalham ao menos um terço de suas vidas, o que por si só já sugere a importância do trabalho para a saúde. Nos últimos anos, a demanda de trabalho e a produtividade do Judiciário vem crescendo consideravelmente. Contraditoriamente, o quadro de pessoal cresceu em ritmo muito menor. Desde a década de 1990, os métodos de gestão oriundos do setor privado vêm sendo implementados no serviço público, algo que ocorre também no Judiciário. A ciência tem evidenciado cada vez mais que a aplicação desses modelos de gestão, que focam apenas na produtividade e não na atividade em si, são extremamente danosos à saúde. Nessa conjuntura, de crescente exigência e estresse no trabalho, o ambiente laboral torna-se muito vulnerável à prática do assédio moral, por exemplo, o qual, muitas vezes, é utilizado como método de gestão. Por outro lado, ações efetivas de saúde do trabalhador, que atuem no cerne do problema, são praticamente inexistentes.
A Pesquisa deu especial atenção ao contexto de trabalho. É possível afirmar que condições e organização de trabalho, além das relações socioprofissionais, foram decisivas para que mais de 90% dos servidores afirmassem que têm algum sintoma de adoecimento?
Sem dúvida, o contexto de trabalho, avaliado em suas três dimensões (organização do trabalho, condições de trabalho e relações socioprofissionais), foi decisivo para o alto índice de adoecimento. A Pesquisa mostrou que esses fatores determinam a grande maioria dos desfechos de saúde estudados. O contexto de trabalho grave está associado a um aumento de cerca de 4 vezes na ocorrência de Transtornos Mentais Comuns e de quase 9 vezes na prevalência de ideação suicida, por exemplo. Além disso, o contexto de trabalho grave evidencia um aumento de 11 vezes na ocorrência de assédio moral, o qual também piora a saúde mental e física.
Chamam a atenção, nas informações divulgadas, os altos índices de pessoas com dores osteomusculares, sintomas oculares e que sofreram atos negativos sugestivos de assédio moral. Como tu analisas esses dados?
A dor osteomuscular é altamente incapacitante e gera prejuízos nos diversos aspectos da produção e da reprodução da vida das pessoas. Os sintomas oftalmológicos são reflexos da própria atividade laboral, denotando a necessidade de intervir-se para reduzir sua ocorrência. Já o assédio moral é um fator que pode ter repercussões drásticas à saúde. São, portanto, dados que devem ser encarados com preocupação.
Por outro lado, a Pesquisa identificou diversos aspectos do ambiente laboral e da gestão do trabalho que são possíveis focos de intervenção, permitindo que as administrações e os próprios trabalhadores organizados incidam positivamente nessa realidade, de modo a melhorar as condições de trabalho e de saúde.
O fato de a grande maioria da categoria ter escolaridade acima da média nacional e, inclusive, superior à média do Judiciário Federal no restante do país ajuda a evitar ou agrava situações de adoecimento decorrente de fatores do trabalho?
A alta escolaridade da categoria, teoricamente, deveria ser um fator de proteção à saúde. Quanto maior a instrução e as condições socioeconômicas dos indivíduos, maiores suas capacidades e possibilidades de ter um modo de vida mais saudável , que atue no sentido de proteger a saúde. Entretanto, se pegarmos como exemplo os estudos brasileiros de caráter populacional, que avaliaram transtornos mentais comuns (TMC), vemos que grupos com situação socioeconômica similar à da categoria têm prevalências de TMC entre 10 e 15% aproximadamente. Na pesquisa do Sintrajufe/RS de 2016, esse percentual foi de 27,1%. Isso mostra, de certa forma, que trabalhar no Judiciário Federal do Rio Grande do Sul tem sido um fator de risco para ter maior adoecimento mental. A notícia boa é que temos elementos para poder mudar essa realidade.
Como o Sintrajufe/RS pretende, a partir desses dados, incidir para que haja mudanças na realidade de trabalho e para que esta não seja mais uma fonte de adoecimento?
É muito importante que os resultados da Pesquisa sirvam de subsídio para guiar as ações de saúde do trabalhador no Judiciário Federal. Os dados serão amplamente divulgados, apresentados detalhadamente às administrações, de modo que esse estudo aprofundado das relações entre trabalho e saúde no Judiciário seja considerado para a tomada de decisões no âmbito da gestão e da organização do trabalho. As intervenções para melhoria das condições de saúde e trabalho devem se dar no âmbito coletivo, de maneira que as ações necessárias se desenvolvam a partir da perspectiva daqueles que detêm o maior conhecimento dos processos de adoecimento, ou seja, os próprios trabalhadores. As ações de prevenção e promoção da saúde devem ser pactuadas entre sindicato, servidores e administrações, garantindo que as mudanças estruturais necessárias rompam com um modelo de gestão que se pauta apenas por números, produtividade e metas a qualquer custo, sem considerar o indivíduo que é o protagonista desse processo.
De que forma, em seu dia a dia de trabalho, os servidores do Judiciário podem atuar para mudar esta situação de adoecimento mostrada pela Pesquisa?
Olhar com atenção para os resultados da Pesquisa nos dá ferramentas para atuar no dia a dia, além de reforçar a autonomia dos servidores e servidoras, os quais podem identificar com maior facilidade as situações do trabalho que trazem vulnerabilidade à saúde. Ao identificar no seu local de trabalho os fatores citados na Pesquisa e que podem ser prejudiciais à saúde, o servidor tem os instrumentos necessários para se posicionar contrário a tais condições, buscando ativamente as melhorias necessárias para o ambiente de trabalho. Ressalto, no entanto, que para que as ações por melhoria das condições laborais sejam efetivas, é de extrema importância atuar de forma coletiva, em conjunto com os colegas, nas mais variadas instâncias. O sindicato cumpre um papel fundamental para aglutinar forças e buscar as intervenções necessárias junto às administrações.
Por Rosane Vargas.










