SINDICATO DOS TRABALHADORES DO JUDICIÁRIO FEDERAL E MINISTÉRIO PÚBLICO DA UNIÃO - FUNDADO EM 28 DE NOVEMBRO DE 1998 - FILIADO À FENAJUFE E CUT

DESTAQUE

Pesquisa de Saúde mostra adoecimento e elevado percentual de casos de assédio moral no Judiciário Federal do RS

 

 

Em 2016, o Sintrajufe/RS realizou uma pesquisa junto à categoria, com o objetivo de fazer um estudo abrangente e mais aprofundado quanto ao quadro da saúde do trabalhador do judiciário federal. A pesquisa abordou diversos aspectos da saúde fí­sica e mental, além de questões que vêm se tornando mais relevantes no paí­s e no mundo, entre elas, o assédio moral. No dia 17, o sindicato promoveu um evento para divulgar os dados, que mostram um agravamento do adoecimento e elevado percentual de casos de assédio moral nos locais de trabalho. Um material impresso, com os principais dados analisados, será distribuí­do a toda a categoria no mês de junho. Além disso, a direção do Sintrajufe/RS fará reuniões com as administrações para entrega do relatório detalhado, que contém todos os dados pesquisados, bem como para tratar de propostas para a solução dos principais problemas encontrados. O trabalho, da realização da pesquisa à análise, foi realizado pela Secretaria de Saúde e Relações de Trabalho do Sintrajufe/RS e pela assessoria de saúde do sindicato, em parceria com a Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs) e a Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre (Ufcspa).

Veja AQUI os slides da apresentação com os principais dados da Pesquisa.

 Veja AQUI o ví­deo da apresentação.
 
 

O público total pesquisado foi de 2.144 servidores respondentes, com média de idade de 42,6 anos, sendo 53,4% do sexo feminino e 46,4% do sexo masculino. A psicóloga Eduarda Buriol, da assessoria de saúde do Sintrajufe/RS, aponta que houve um desequilí­brio quando se tratou de cor da pele: apenas 6,4% identificaram-se como de cor preta ou parda, número quatro vezes menor do que o apurado no Censo do Judiciário de 2013 e bem abaixo do total de pretos e pardos no Censo do IBGE para o Rio Grande do Sul, de 16,3%.

A pesquisa mostra que a entrada no Judiciário foi importante para elevar o grau de instrução. Servidores que ingressaram com ensino médio fizeram curso superior e muitos, pós-graduação. Os dados mostram que 12,9% tinham pós-graduação quando ingressaram no Judiciário e, atualmente, 58,5% já têm especialização, mestrado ou doutoradopercentual muito acima do nacional, apurado pelo Censo do Judiciário, e que demonstra uma clara caracterí­stica do servidor de constantemente buscar sua qualificação profissional.

 
Contexto de trabalho, adoecimento e assédio moral

 
O contexto de trabalho foi analisado sob três aspectos: condições de trabalho, relações socioprofissionais e organização do trabalho. As condições de trabalho dizem respeito a mobiliário, equipamento, ambiente fí­sico; a organização do trabalho, a ritmo de trabalho, processos laborais, produtividade, metas e outros aspectos da gestão; interação e relacionamento com colegas e chefias está abrangida nas relações socioprofissionais.

Os servidores respondentes, em sua maioria, consideram as condições de trabalho satisfatórias (71,6%). Nesse quesito, a Justiça Eleitoral foi o órgão com os piores í­ndices em toda a categoria. No entanto, de acordo com a assessoria de saúde do Sintrajufe/RS, o percentual de 25,8% de servidores que entendem que elas são crí­ticas ou graves é preocupante, mesmo sendo minoritário.

Entretanto, ao considerar-se a organização do trabalho, os resultados foram ainda mais preocupantes: apenas 9% dos respondentes a veem como satisfatória, enquanto a grande maioria (91%) classificou esse item como crí­tico ou grave. Os números, alerta Eduarda, são semelhantes aos apontados em pesquisa feita com os bancários em 2013. Nessa categoria, considerada uma das mais adoecidas do Brasil, o percentual foi de 95%. Quanto às relações socioprofissionais, 44,8% dos servidores consideraram esse aspecto crí­tico ou grave, ou seja, praticamente metade da categoria não considera satisfatórias as relações no ambiente de trabalho.
 

Na distribuição por Justiça, JE e JT apresentaram os piores í­ndices de organização do trabalho (ambas com 93,5%, somando-se os ní­veis crí­tico e grave). A seguir, vem JF, com 90,3%; TRF4, 80,9%; e JM, com 75%.

A organização do trabalho está diretamente ligada a atos negativos sugestivos de assédio moral. E a pesquisa mostra um número elevado de servidores que os sofrem, em algum grau, mesmo que eventualmente: 82,7%. Assédio moral (frequência semanal ou mais) foi referido por 17%considerado um percentual muito elevado. Isso talvez explique, segundo Eduarda, que a grande maioria das consultas prestadas pela assessoria de saúde à categoria seja sobre assédio e sofrimento psí­quico.

Do total, 80% têm dores osteomusculares eventual, frequentemente ou sempre na região cervical, em ombros e membros superiores; 90% apresentam problemas oftalmológicos. Já as pausas são realizadas por menos de 7% dos servidores. A pesquisa mostra que a incidência de transtornos mentais comuns (TMC) é 2,5 vezes maior nos servidores que não realizam pausas, o que também aumenta a ocorrência de dores osteomusculares.

Algum tipo de sistema eletrônico é utilizado por 96,2% dos servidores; desses, 29,6% jamais receberam algum tipo de treinamento. Desses servidores, 60,7% dizem ter prejuí­zo nas atividades em virtude da ausência de treinamento.
 

A pesquisa mostrou ainda que, quanto maior a escolaridade, maior o í­ndice de assédio moral. A prevalência também é maior entre os que utilizam PJe (20,4% de assédio semanal ou diário). Dos respondentes, 27,2% apresentaram transtorno mental comum; 3,1%, ideação suicida; e 4,4%, alcoolismo. Quanto mais crí­tico e grave o contexto de trabalho, maiores são as chances de assédio, que, por sua vez, amplia em dez vezes a ideação suicida e em 2,9 vezes a dependência de uso de álcool.

Agentes de segurança, oficiais de justiça, TI e PCDs

 
Alguns grupos especí­ficos de servidores apresentaram dados que chamaram a atenção pelo alto grau de adoecimento e sofrimento psí­quico: os agentes de segurança, os oficiais de justiça, os servidores da área de informática e as pessoas com deficiência (PCDs). Entre estas últimas, 34,4% apresentam transtornos mentais comuns, número que cai para 26,1% entre os demais. A ideação suicida foi observada em 8,2% das PCDs, contra 2,5% dos demais. Entre os Ojafs, 90% consideram a organização de trabalho crí­tica ou grave, o que ajuda a entender o padrão de adoecimento nesse segmento. A pesquisa mostra 57,4% dos agentes desempenham atribuições estranhas à sua atividade. Quase 30% deles já se sentiram ameaçados no exercí­cio da função; entre os Ojafs, esse número chega a 77,7%. Entre os servidores da área de TI, 30,7% apresentaram transtornos mentais comuns, quase 7% de alcoolismo e 5,3% de ideação suicida.

Na apresentação, o diretor Ruy Almeida anunciou que, em virtude dos resultados relacionados aos servidores da TI, o sindicato pretende estruturar um núcleo para os colegas dessa área, buscando mapear as causas dos problemas e fortalecer as pautas relativas a esse segmento. Também será feito contato com as administrações a fim de se realizar uma pesquisa online com os servidores PCDs. O objetivo é identificar possí­veis causas para os problemas apontados pela pesquisa e buscar formas de incidência sobre elas. No TRT4, o assunto já é analisado pela Comissão Permanente de Acessibilidade e Inclusão.

O médico Fernando Feijó, da assessoria de saúde do Sintrajufe/RS, destaca que os dados podem ser muito importantes na luta para a melhoria das condições de trabalho. A pesquisa, diz ele, mostrou, além da dor osteomuscular, a questão da saúde mental como consequência do contexto de trabalho. Ele alerta que a forma como as novas tecnologias são implementadas é determinante no reflexo que terão na saúde dos trabalhadores. Que a pesquisa seja um instrumento de mobilização para as lutas da categoria, para melhorar as condições de trabalho e para que se chegue a uma gestão que não seja adoecedora , concluiu o médico.

Nas próximas semanas, o Sintrajufe/RS iniciará uma campanha de divulgação dos principais resultados da pesquisa, na busca por melhorias nos pontos mais graves. “Com essa nova pesquisa, o sindicato sedimenta uma tradição em matéria de saúde do trabalhador. Mas entendemos que é necessário ir além da cognição que a pesquisa proporciona: esse trabalho é uma verdadeira arma na luta por melhorias das condições de trabalho, e precisamos usá-lo como tal, demonstrando às administrações que não é mais admissí­vel a continuidade do atual modelo produtivo aplicado no Judiciário, que tem gerado aumento no adoecimento da categoria a ní­veis alarmantes , defende Ruy. “Vamos buscar fazer com que os verdadeiros resultados da pesquisa não sejam esses, que demonstram o atual grau de adoecimento, e sim as mudanças necessárias para que esses í­ndices voltem à normalidade”, afirma.

 
Por Rosane Vargas, Sintrajufe/RS