por Fernando Ribas Feijó e Eduarda Cirolini Buriol
Fernando é médico do trabalho (Anamt) e mestre em Saúde Coletiva; Eduarda é psicóloga e em Saúde do Trabalhador
Os suicídios vêm crescendo ao longo das últimas décadas e dos últimos anos em todo o mundo, já sendo considerado um grave problema de saúde pública pela Organização Mundial da Saúde. Em nível mundial, os suicídios cresceram 60% nos últimos 50 anos. No Brasil, a taxa de suicídios cresceu 29,5% entre 1980 e 2006.3 Diversos estudos internacionais têm demonstrado uma importante associação entre a crise financeira global e o desemprego com a ocorrência dos suicídios. Tais estudos avaliaram o impacto de diversas crises mundiais, desde a crise de 1929, passando pela crise asiática de 1997-98 e pela crise mundial de 2008, a qual atingiu principalmente Europa e Estados Unidos. Em todos esses momentos, os processos de crise foram marco para o posterior crescimento dos índices de suicídio.
Outro tema relacionado que vem ganhando enorme importância é o papel que o trabalho pode impactar no estresse, na saúde mental e, consequentemente, na ocorrência de suicídios. O trabalho cumpre um papel central na construção da identidade das pessoas. É no processo de trabalhar que os indivíduos buscam reconhecimento e constituem suas subjetividades. Por outro lado, quando o trabalho passa a ser fonte de estresse, quando as condições de trabalho são precárias ou quando institui-se o assédio como elemento cotidiano no ambiente laboral, as consequências podem ser drásticas. Conforme refere o psicanalista e médico do Trabalho francês Christophe Dejours, tal contexto pode levar a um tipo de sofrimento no trabalho que conduz ao isolamento, à depressão e ao desespero.
Em 2014, os três casos de suicídios de servidores do Judiciário no TRT da 2ª Região, em São Paulo, deixaram a categoria do Judiciário perplexa. Desses três suicídios, dois ocorreram dentro do local de trabalho. Uma trabalhadora jogou-se do 17º andar no seu próprio local de trabalho, somando-se a mais outros dois colegas do mesmo TRT que também anteriormente acreditaram ser essa a única saída para pôr fim ao seu sofrimento. Tal fato ocorreu menos de dois dias após o Seminário sobre Saúde e PJe da Fenajufe, realizado à época em Brasília, no qual se ouviram diversos relatos de servidores que vivenciaram essas situações. Os colegas relatavam estarrecidos o fato de a solicitação de encerramento das atividades não ser prontamente atendida pela administração naquele momento, sob a justificativa de que o PJe não podia parar . Lembra algo parecido com a ironia de Chico Buarque em sua canção, quando um trabalhador morre na contramão atrapalhando o tráfego e o público.
Para Dejours, os suicídios dentro do local de trabalho são uma mensagem brutal do quão insuportável e gerador de sofrimento o trabalho pode tornar-se em algumas situações, enquanto, na verdade, deveria ser fonte de algum prazer e reconhecimento. O fenômeno desse tipo específico de suicídio ganhou proporções mundiais com as dezenas de episódios ocorridos na France Telecom (empresa de telefonia francesa) e na Foxconn Telecom (empresa de produtos tecnológicos chinesa) após processo de reestruturação empresarial iniciado na década de 1980.
No Brasil, os suicídios no local de trabalho são pouco divulgados e ainda não ganharam a visibilidade que deveriam ter. Os bancários foram os primeiros trabalhadores a chamarem a atenção para a questão da saúde mental, a partir do acompanhamento cotidiano do adoecimento mental, dos afastamentos laborais por transtornos psíquicos e da ocorrência de suicídios entre colegas. Mais recentemente, já são inúmeros casos de suicídio não divulgados entre atendentes de telemarketing, policiais, profissionais de saúde, entre outros. No funcionalismo público como um todo, a adoção do modelo gerencialista pelo Estadoimportado das empresas privadas com o objetivo de otimizar a gestão das pessoas no serviço públicotem acelerado o processo de adoecimento de servidoras e servidores. Mais do que nunca, é momento de união dos trabalhadores para combater as práticas de cobrança de metas abusivas, pressão no trabalho e produtivismo, que não levam em consideração a qualidade de vida e a saúde no trabalho.
A diretoria e a equipe de saúde do Sintrajufe-RS estão atentas a essa epidemia, que pode culminar em danos irreparáveis a muitos trabalhadores. Passados dois anos de atuação, a atual assessoria médica e psicológica no sindicato permanece atendendo diversas pessoas em sofrimento psíquico relacionado ao trabalho, procurando dar apoio psicológico a quem necessite. O sindicato está engajado no combate ao assédio moral institucional e na preservação da saúde mental de todos os servidores e servidoras. Caso você esteja vivenciando um fato parecido ou tenha identificado alguma situação de risco com algum(a) colega, não hesite em procurar o sindicato. O objetivo prioritário é evitar novos acontecimentos trágicos como o de São Paulo e construir coletivamente um trabalho mais saudável no Judiciário Federal.









