SINDICATO DOS TRABALHADORES DO JUDICIÁRIO FEDERAL E MINISTÉRIO PÚBLICO DA UNIÃO - FUNDADO EM 28 DE NOVEMBRO DE 1998 - FILIADO À FENAJUFE E CUT

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Artigo: Compromisso com o Estado Democrático de Direito, por Diogo da Silva Corrêa

A atual conjuntura tem suscitado debates em toda a sociedade, diante do quadro de ebulição da crise polí­tico-econômica no paí­s. Buscando contribuir para a ampliação da divulgação de ideias e opiniões junto à categoria, o Sintrajufe/RS abriu espaço, nos meios de comunicação do sindicato, para que os colegas sindicalizados exponham sua posição. Além disso, no dia 30 de março, o Sintrajufe/RS divulgou nota, aprovada em maioria pela Direção Colegiada, a respeito do tema.
 
 

O texto abaixo é de inteira responsabilidade de seu autor e não necessariamente reflete a posição da diretoria do Sintrajufe/RS.




Leia abaixo um dos artigos enviados para publicação:
 

Compromisso com o Estado Democrático de Direito
 
 
Por Diogo da Silva Corrêa, técnico judiciário, Justiça do Trabalho de Taquara

 
A partir do anúncio oficial das eleições de 2014, que recolocou Dilma à frente do Planalto Central com exatos 54.501.118 votos, um clima de insatisfação pela derrota nas urnas se alastrava pelo Brasil. No contexto da nossa jovem democracia, não é uma opção aderir ou não ao resultado. Conforme bem afirma professor Vitor Amorim: A democracia é um regime de confiança, não de adesão .

 
A postura subsequente do governo também descontentou àqueles que o apoiaram na reeleição, pois se distanciou dos compromissos com as demandas à esquerda, implementando uma polí­tica econômica de austeridade e sem enfrentamento direto das reformas polí­tica e tributáriasó para citar os principais equí­vocos.

 
Nesse contexto de rejeição, o Congresso Nacional passou a ser ambiente propí­cio para a polí­tica do quanto pior, melhor , em detrimento dos interesses da população, com o objetivo de fazer Dilma sangrar , segundo o senador Aloysio Nunes (PSDB-SP), um dos expoentes da oposição.

 
Apesar das dificuldades experimentadas, a solução de tirar Dilma da presidência, por meio do impeachment, deve demonstrar a prática de crime de responsabilidade, conforme a Constituição Federal. Não deve ser utilizado tal instrumento como se fosse um recall para afastar o governante que perde a confiança popular.

 
O julgamento desse processo deve ser pautado por questões jurí­dicas e só é considerado hí­brido, porque o foro competente é o Poder Legislativo. Ou seja, não há que se falar em mérito polí­tico e, sim, jurí­dico.

Para tanto, a imputação do crime de responsabilidade deve ser clara, conforme o tipo penal, não cabendo os julgadores lançarem mão da analogia incriminadora, o que é vedado pela Carta Magna em razão do princí­pio da legalidade. 

 
No nosso caso, não é possí­vel transformar um ato fiscal e orçamentário como base para tipificação penal. Agindo desse modo, estarí­amos diante das denominadas pedaladas hermenêuticas para dizer que é crime algo que não é.

 
Além da já grave crise polí­tica, que agrava ainda mais os reflexos da crise econômica mundial, o Brasil assiste à força tarefa da Lava Jato começar a desbaratar uma rede muito grande de corrupção dentro da Petrobras envolvendo polí­ticos e empreiteiras. Esse combate, sem dúvida, é imprescindí­vel para processar e punir todos os responsáveis.

Nesse cenário, é necessário garantir a independência constitucional de todas as instituições envolvidas. Não podem elas agir com seletividade e deixar-se contaminar por paixões ideológicas. É inconcebí­vel mitigar os limites da lei maior. Ninguém pode estar acima dela. É preciso aplicar no mundo prático o conceito de Constituição como conquista e não como forma de dominação.

 
Para além das questões jurí­dicas, é preciso refletir acerca dos interesses escamoteados na defesa do afastamento da presidenta. A ampliação da precarização da relação de trabalho com a terceirização, por exemplo, que foi barrada nas ruas e nas reações jurí­dicas, certamente está no centro das preocupações empresariais que passou a apoiar o impeachment.
 

Outra questão inquietante é a diuturna campanha de apedrejamento da Petrobras com objetivo de privatizá-la e entregar o pré-sal para empresas privadas. A mí­dia faz seu papel e proclama em seus editoriais: Monopólio de fato do pré-sal não faz sentido .

 
Ademais, como é possí­vel aceitar que Eduardo Cunha esteja capitaneando o impeachment, ao mesmo tempo em que é réu em processo no STF pelos crimes de lavagem de dinheiro e corrupção passiva, além de fazer malabarismos para barrar processo de cassação de seu mandato por quebra de decoro parlamentar? Como achar normal que instituições que apoiaram o golpe de 64, como a Fiesp, revista Veja, a Globo e a grande mí­dia da época estejam, hoje, engrossando o coro em favor do impeachment?

 
A manipulação de argumentos jurí­dicos e polí­ticos com o fim de burlar o papel da soberania popular na escolha dos governantes democraticamente eleitos não tem outro nome, é tentativa de golpe. Nesse momento, é necessário ver quem tem, de fato, compromisso com o Estado Democrático de Direito.