SINDICATO DOS TRABALHADORES DO JUDICIÁRIO FEDERAL E MINISTÉRIO PÚBLICO DA UNIÃO - FUNDADO EM 28 DE NOVEMBRO DE 1998 - FILIADO À FENAJUFE E CUT

DESTAQUE

Solteiro e homossexual, comerciário adotante tem reconhecidos os mesmos seis meses de licença-maternidade das colegas

Peterson Rodrigues, aos 34 anos, adotou uma criança de 9 anos em setembro de 2015 e passou a gozar de licença de 180 dias, como suas colegas mães. Homossexual e solteiro, ele começou a decidir pela adoção há mais de dois anos, quando conheceu Lucas, então, com 7 anos. A minha ideia, na verdade, era fazer um trabalho voluntário , disse Peterson, que procurou o Instituto Amigos de Lucas, ONG que lida com a prevenção do abandono na infância e encampa a bandeira do apadrinhamento afetivo, processo que promove a convivência familiar àquelas crianças que vivem em abrigos e com poucas chances de serem adotadas.

O processo para se qualificar como padrinho afetivo incluí­a oito oficinas e culminaria com uma festa em que os candidatos a padrinhos e crianças de diversos abrigos da capital gaúcha se encontrariam pela primeira vez. Na noite anterior, tive um sonho horrí­vel. Sonhei que nenhuma criança me escolheria para padrinho. Achava que alguém ia me barrar por ser gay, solteiro e sozinho. Aos poucos fui aprendendo que o preconceito era meu mesmo , disse.

Aos poucos, uma criança se aproximou. Era Lucas. Ele chegou e me entregou um balão. Era uma criança agitada. Corria muito… Depois de correr, voltou até onde eu estava e me entregou um casaco. Pela terceira vez, ele chegou e eu perguntei: ˜tu já tem Dindo?™ e ele me respondeu: ˜eu tenho. É tu!™ , relembra Peterson. Eu não escolhi o Lucas. Ele me escolheu , disse.

Licença-maternidade

A Livraria Cultura, onde Peterson trabalha desde 2008, estendeu a ele os mesmos direitos dados às mães. O nome do benefí­cio é mesmo licença-maternidade, por falta de um nome melhor , disse o pai. A Cultura dá às mães licença de 180 dias (60 dias além do previsto em lei) e Peterson teve os mesmos benefí­cios. Às mães, a Cultura oferece ainda um kit bebê, com um enxoval básico. No dia que saiu de licença, Peterson entrou no canal de comunicação interna da livraria e sugeriu que a empresa revisse o kit: meu bebê veio com nove anos , disse rindo. Como resultado, a empresa passou a oferecer às mães e aos pais adotivos um cartão com um valor para que comprem o kit conforme o seu desejo.

Eu e o Lucas somos um modelo de famí­lia diferente, que já nem é tão diferente mais. A empresa se adequou a esse novo modelo , disse. Para nós, da Cultura, foi muito mais um aprendizado do que uma inovação , disse Juliana Brandão, responsável pelo RH da empresa. O direito está assegurado pela lei: pais solteiros que adotam têm os mesmos direitos da licença-maternidade. Foi a primeira vez que a gente passou por isso, então, tivemos que aprender juntos , disse Juliana.

Se a rotina de uma mãe com um bebê recém-nascido é de idas a médicos, pediatras, clí­nicas de vacinação e amamentações de hora marcada, a rotina de uma criança adotada tardiamente também não é das mais calmas. A licença-maternidade, na opinião de Peterson, está sendo fundamental para a adaptação da criança à sua nova realidade. Querendo ou não, são vários cortes. Ele foi para o abrigo com 4 anos e hoje está com 9 , observa Peterson. Lucas é acompanhado por uma equipe multidisciplinar formada por psicólogo e pedagogo e a nova famí­lia recebe a visita frequente de representantes do juizado de menores.

Desfecho positivo

Rosi Prigol, presidente do Instituto Amigos de Lucas, vibra com o desfecho positivo. Casais gays interessados em adoção surgem com frequência, diz Rosi, mas o fato de Peterson ser solteiro torna o caso raro. Casais heterossexuais costumam dar iní­cio ao processo burocrático tendo em mente um perfil bem definido do filho desejado, não se mostrando dispostos a adoções tardias. Os homossexuais são muito mais abertos. Não têm preferência por idade, cor. Aceitam, encaram todas as dificuldades numa boa, aguentam qualquer tranco , comenta Rosi, Essa adoção nunca vai dar errado, tenho certeza absoluta. Já deu certo. Pelo envolvimento afetivo, pelo entendimento, pela sinceridade que o Peterson tem com o filho ao tratar da homossexualidade .

À licença, Peterson acrescentará férias, ampliando o perí­odo intensivo de adaptação e descobertas para sete meses. Quando o pai voltar ao emprego, Lucas deverá ficar aos cuidados da avó. Antes mesmo de retomar a rotina, o vendedor faz planos: Acho que o Lucas não vai ser o único. Pretendo adotar outro .

Editado por Sintrajufe/RS; fonte: PublishNews e Zero Hora