Peterson Rodrigues, aos 34 anos, adotou uma criança de 9 anos em setembro de 2015 e passou a gozar de licença de 180 dias, como suas colegas mães. Homossexual e solteiro, ele começou a decidir pela adoção há mais de dois anos, quando conheceu Lucas, então, com 7 anos. A minha ideia, na verdade, era fazer um trabalho voluntário , disse Peterson, que procurou o Instituto Amigos de Lucas, ONG que lida com a prevenção do abandono na infância e encampa a bandeira do apadrinhamento afetivo, processo que promove a convivência familiar àquelas crianças que vivem em abrigos e com poucas chances de serem adotadas.
O processo para se qualificar como padrinho afetivo incluía oito oficinas e culminaria com uma festa em que os candidatos a padrinhos e crianças de diversos abrigos da capital gaúcha se encontrariam pela primeira vez. Na noite anterior, tive um sonho horrível. Sonhei que nenhuma criança me escolheria para padrinho. Achava que alguém ia me barrar por ser gay, solteiro e sozinho. Aos poucos fui aprendendo que o preconceito era meu mesmo , disse.
Aos poucos, uma criança se aproximou. Era Lucas. Ele chegou e me entregou um balão. Era uma criança agitada. Corria muito… Depois de correr, voltou até onde eu estava e me entregou um casaco. Pela terceira vez, ele chegou e eu perguntei: ˜tu já tem Dindo?™ e ele me respondeu: ˜eu tenho. É tu!™ , relembra Peterson. Eu não escolhi o Lucas. Ele me escolheu , disse.
Licença-maternidade
A Livraria Cultura, onde Peterson trabalha desde 2008, estendeu a ele os mesmos direitos dados às mães. O nome do benefício é mesmo licença-maternidade, por falta de um nome melhor , disse o pai. A Cultura dá às mães licença de 180 dias (60 dias além do previsto em lei) e Peterson teve os mesmos benefícios. Às mães, a Cultura oferece ainda um kit bebê, com um enxoval básico. No dia que saiu de licença, Peterson entrou no canal de comunicação interna da livraria e sugeriu que a empresa revisse o kit: meu bebê veio com nove anos , disse rindo. Como resultado, a empresa passou a oferecer às mães e aos pais adotivos um cartão com um valor para que comprem o kit conforme o seu desejo.
Eu e o Lucas somos um modelo de família diferente, que já nem é tão diferente mais. A empresa se adequou a esse novo modelo , disse. Para nós, da Cultura, foi muito mais um aprendizado do que uma inovação , disse Juliana Brandão, responsável pelo RH da empresa. O direito está assegurado pela lei: pais solteiros que adotam têm os mesmos direitos da licença-maternidade. Foi a primeira vez que a gente passou por isso, então, tivemos que aprender juntos , disse Juliana.
Se a rotina de uma mãe com um bebê recém-nascido é de idas a médicos, pediatras, clínicas de vacinação e amamentações de hora marcada, a rotina de uma criança adotada tardiamente também não é das mais calmas. A licença-maternidade, na opinião de Peterson, está sendo fundamental para a adaptação da criança à sua nova realidade. Querendo ou não, são vários cortes. Ele foi para o abrigo com 4 anos e hoje está com 9 , observa Peterson. Lucas é acompanhado por uma equipe multidisciplinar formada por psicólogo e pedagogo e a nova família recebe a visita frequente de representantes do juizado de menores.
Desfecho positivo
Rosi Prigol, presidente do Instituto Amigos de Lucas, vibra com o desfecho positivo. Casais gays interessados em adoção surgem com frequência, diz Rosi, mas o fato de Peterson ser solteiro torna o caso raro. Casais heterossexuais costumam dar início ao processo burocrático tendo em mente um perfil bem definido do filho desejado, não se mostrando dispostos a adoções tardias. Os homossexuais são muito mais abertos. Não têm preferência por idade, cor. Aceitam, encaram todas as dificuldades numa boa, aguentam qualquer tranco , comenta Rosi, Essa adoção nunca vai dar errado, tenho certeza absoluta. Já deu certo. Pelo envolvimento afetivo, pelo entendimento, pela sinceridade que o Peterson tem com o filho ao tratar da homossexualidade .
À licença, Peterson acrescentará férias, ampliando o período intensivo de adaptação e descobertas para sete meses. Quando o pai voltar ao emprego, Lucas deverá ficar aos cuidados da avó. Antes mesmo de retomar a rotina, o vendedor faz planos: Acho que o Lucas não vai ser o único. Pretendo adotar outro .
Editado por Sintrajufe/RS; fonte: PublishNews e Zero Hora









