Dois institutos ligados a nomes do mercado financeiro voltaram à carga em defesa de uma nova reforma da Previdência. Seu objetivo é retirar ainda mais direitos dos trabalhadores e ampliar os obstáculos para que possam se aposentar. Entre as medidas que estão sendo propostas, o aumento da idade mínima para aposentadoria para 67 anos, o fim de reajustes reais no benefício e de regras diferenciadas para algumas categorias (como professores) e a implementação de um sistema de capitalização, com poupanças individuais.
Notícias Relacionadas
As ideias foram divulgadas em matéria publicada no jornal Folha de S. Paulo nesse domingo, 19. Apresentadas como opinião “técnica” e resultado de “estudos”, como se fossem sugestões neutras, elas fazem parte de propostas apresentadas por dois “think thanks”, instituições que atuam em defesa de determinadas políticas: o Instituto Mobilidade e Desenvolvimento Social (IMDS) e o Centro de Debate de Políticas Públicas (CDPP). Ambos são ligados a setores do mercado financeiro e a bancos, tendo como personagens principais defensores históricos de políticas neoliberais (veja detalhes no final desta matéria).
Conforme a matéria da Folha, as ideias defendidas por eles são as seguintes:
| – Aumento na idade mínima para 67 anos e, depois, novos aumentos sem limites: os institutos defendem que a idade passe a aumentar entre três e seis meses a cada ano a mais na expectativa de vida da população; – Fim das aposentadorias especiais e de regras diferenciadas para algumas categorias, como trabalhadores rurais e professores; – Desvinculação entre o valor das aposentadorias e o salário mínimo, para evitar aumentos reais no benefício pago a aposentados e aposentadas; – Ampliação da alíquota cobrada dos microempreendedores individuais (MEIs), de 5% para 11%; – Implementação de sistema de capitalização: a proposta é de que ao menos uma parte do sistema previdenciário seja no sistema de capitalização, no qual cada trabalhador teria uma conta individual, recebendo sua aposentadoria de acordo com o que contribuiu para a Previdência ao longo da vida, enfraquecendo a lógica de solidariedade que existe hoje no sistema brasileiro. |
Entre os argumentos para justificar esse pacote de ataques aos direitos, estão o envelhecimento da população e as “mudanças no mercado de trabalho, com pejotização e uberização”. Os envolvidos não propõem, porém, qualquer esforço de formalização do mercado de trabalho como caminho para combater esse problema.
Armínio Fraga e sua turma
O Instituto Mobilidade e Desenvolvimento Social (IMDS) tem como fundadores Armínio Fraga e Paulo Tafner. Fraga é ex-presidente do Banco Central no governo de Fernando Henrique Cardoso (PSDB) e um dos principais defensores de políticas neoliberais no Brasil nas últimas décadas. Já Tafner foi um dos principais defensores da reforma da Previdência desde o governo de Michel Temer (MDB); junto com Armínio Fraga, chegou a elaborar uma proposta que seria um dos embriões da apresentada pelo governo na época (“plano Armínio-Tafner”) e, reapresentada a Paulo Guedes no dia seguinte à eleição de Bolsonaro, foi uma das bases da reforma aprovada em 2019 (a proposta de Tafner incluía um regime de capitalização, que foi proposto pelo governo e acabou derrubado). Em seu Conselho de Administração, o Instituto tem, entre outros nomes, o do apresentador Luciano Huck.
Já o Centro de Debate de Políticas Públicas (CDPP) tem, entre os membros de sua diretoria, nomes como Alexandre Schwartsman, que já atuou em bancos como o ABN AMRO Bank e o Santander; Fábio Coletti Barbosa, ex-presidente do Santander e da Federação Brasileira de Bancos (Febraban); e Mário Magalhães Carvalho Mesquita, economista-chefe do Banco Itaú.
Entre as outras fontes entrevistadas pela Folha para a matéria, estão outras figuras carimbadas nesse setor da imprensa sempre que o assunto envolve questões econômicas e o apoio à retirada de direitos dos trabalhadores. Esses entrevistados participaram dos “estudos” dos institutos. São nomes como Leonardo Rolim, secretário da Previdência do Ministério do Trabalho e Previdência e presidente do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) no governo Bolsonaro; Rogério Nagamine, subsecretário do Regime Geral de Previdência Social do Ministério da Economia no governo de Jair Bolsonaro (PL), que participou de debates como representante do governo para defender a reforma da Previdência de 2019; e Fabio Giambiagi, defensor histórico de reformas previdenciárias desse tipo e que recentemente lançou um livro elogiando as políticas econômicas do governo de Javier Milei na Argentina.















