SINDICATO DOS TRABALHADORES DO JUDICIÁRIO FEDERAL E MINISTÉRIO PÚBLICO DA UNIÃO - FUNDADO EM 28 DE NOVEMBRO DE 1998 - FILIADO À FENAJUFE E CUT

LUTA ANTIRRACISTA

Sintrajufe/RS participa de audiência de Comissão do Senado em apoio ao Memorial dos Lanceiros Negros

Nessa terça-feira, 14, a Comissão de Direitos Humanos (CDH) do Senado promoveu uma audiência pública, na Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul, para debater a construção do Memorial dos Lanceiros Negros no município de Pinheiro Machado. O monumento homenageará os escravizados que lutaram na revolta Farroupilha e que foram mortos no episódio conhecido como Massacre de Porongos, em 1844. O requerimento para a audiência externa foi de autoria do senador Paulo Paim (PT-RS). A diretora Carmem Regina Ribeiro representou o Sintrajufe/RS e, logo após o evento, conseguiu agendar uma reunião com Paim na próxima terça-feira, 21, para tratar dos vetos 45/2025 e 17/2026, que suprimiram as parcelas de reposição salarial do Judiciário Federal e do MPU em 2027 e 2028.

Representantes da Fundação Cultural Palmares apresentaram o projeto arquitetônico do memorial, selecionado em concurso público, e informaram que a fundação cederá seu uso para viabilizar a construção da obra.

A deputada federal Denise Pessôa (PT-RS) defendeu que o Fundo Nacional de Reparação Econômica e de Promoção da Igualdade Racial seja a fonte de financiamento para a construção do Memorial dos Lanceiros Negros. O fundo está previsto na proposta de emenda à Constituição (PEC) 27/2024, em tramitação na Câmara dos Deputados, e busca reparar os efeitos da escravidão no Brasil; por destinar recursos também à área da cultura, pode viabilizar a obra, no entendimento da parlamentar.

O superintendente do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), Rafael Pavan dos Passos, afirmou que o processo de tombamento do território de Porongos como patrimônio cultural nacional deverá ser concluído em 2026, 20 anos após seu início. No âmbito estadual, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico do Estado (Iphae) também deverá reconhecer o território como patrimônio cultural do Rio Grande do Sul.

O negro no sul ainda se liberta”, pintura de Pâmela Zorn

Preservação da memória

Durante os debates, a construção do memorial foi defendida como forma de preservar a memória dos Lanceiros Negros, reconhecer sua participação no conflito Farroupilha e dar visibilidade a um episódio que permaneceu por muito tempo à margem da narrativa oficial a respeito da guerra civil travada entre farroupilhas e o império brasileiro. Paim, que conduziu a audiência, disse que a história dos Lanceiros Negros é marcada pela traição, pois eles lutaram na guerra em troca da promessa de liberdade, mas, ao final, foram mortos após serem desarmados.

Para o senador, a construção do memorial representa o reconhecimento de uma dívida histórica com a população negra: “A memória precisa ganhar corpo, precisa ganhar chão, precisa ganhar rosto, precisa ganhar lugar. Por isso, construir o Memorial de Lanceiros Negros é um dever do Estado brasileiro”.

Outro olhar para a história do RS

A ex-deputada federal Reginete Bispo (PT-RS) afirmou que recuperar a história dos Lanceiros Negros é também recontar a história do Rio Grande do Sul. Segundo ela, a revolta Farroupilha, “diferentemente do que foi entendido, não teve esse cunho de luta por justiça, por liberdade, contra a escravidão. Quem lutou efetivamente por justiça, liberdade e contra a escravidão foram os Lanceiros Negros”.

Representante do Ministério da Igualdade Racial, Leonice Mourad defendeu o tombamento do território onde aconteceu o massacre e afirmou que a construção do monumento é uma oportunidade de romper o silenciamento sobre esse episódio. Na avaliação dela, a memória oficial do Rio Grande do Sul é restritiva e privilegiou determinadas narrativas, como a romantização do conflito Farroupilha “como uma peleia homogênea, heroica e predominantemente branca, ocultando, de forma cruel, que os Lanceiros Negros foram uma vanguarda, uma força de choque, responsáveis por importantes vitórias no front, mesmo lutando em condições absolutamente adversas e desiguais”.

O Sintrajufe/RS esteve presente à audiência como apoiador da iniciativa, por ser integrante do Coletivo Sindical Antirracista. A diretora Carmem Regina Ribeiro avalia que o evento foi “de fundamental importância para as pautas negras no RS e um marco da negritude brasileira”, pois a iniciativa “propõe o fim do apagamento da importante participação dos Lanceiros Negros na Revolução Farroupilha e a traição sofrida por eles”.

Também participaram da audiência deputados e deputadas estaduais e federais, além de representantes de instituições culturais, do Instituto dos Arquitetos do Brasil e da prefeitura de Pinheiro Machado.

Sobre Porongos

A revolta Farroupilha, guerra civil mais longa do Brasil, foi travada de 1835 a 1845, entre republicanos e imperialistas. Entre escravizados e ex-escravizados, os negros chegaram a compor de 1/3 à metade do exército farroupilha. O historiador Jorge Euzebio Assumpção, em entrevista à revista Humanitas, afirma que a maioria dos cativos se uniram aos republicanos devido à promessa de liberdade ao término do conflito, o que jamais se realizou.

Quando ficou evidente que os farroupilhas seriam derrotados e começou a ser desenhado um acordo de paz, o Império exigiu que os soldados escravizados não fossem libertados. Na madrugada de 14 de novembro de 1844, depois que o general farroupilha David Canabarro ordenou que os negros fossem desarmados e deu a localização para os imperialistas, o acampamento onde os lanceiros estavam foi atacado. O episódio ficou conhecido como traição de Porongos.

Em carta enviada ao coronel Francisco Pedro de Abreu, que estava à frente do ataque, o líder das tropas imperiais, Duque de Caxias, explicitou: “poupe o sangue brasileiro quanto puder, particularmente da gente branca da Proví­ncia ou í­ndios, pois bem sabe que essa pobre gente ainda nos pode ser útil no futuro”.

Com informações da Agência Senado

Foto:Lutiana Mott/Gab. Senador Paulo Paim