SINDICATO DOS TRABALHADORES DO JUDICIÁRIO FEDERAL E MINISTÉRIO PÚBLICO DA UNIÃO - FUNDADO EM 28 DE NOVEMBRO DE 1998 - FILIADO À FENAJUFE E CUT

CULTURA ANTIRRACISTA

Grupo de Leitura Antirracista do Sintrajufe debate “Quarto de despejo” e a voz atemporal de Carolina Maria de Jesus

No dia 25 de agosto, foi realizado mais um encontro online do Grupo de Leitura Antirracista do Sintrajufe/RS. A obra “Quarto de despejo: diário de uma favelada”, de Carolina Maria de Jesus, foi tema de um debate profundo e esclarecedor. A sessão contou com a contribuição da colega aposentada e escritora Lourdes Helena de Jesus da Rosa, que apresentou uma pesquisa detalhada sobre a vida e o legado da autora.

Muito além do “semialfabetismo”

Com o já tradicional debate entre os participantes, desconstruiu-se a visão de que Carolina era “semialfabetizada”, apresentando-a como “plurialfabetizada”. Nascida em 1914, em Sacramento (MG), Carolina teve seu acesso ao conhecimento negado estruturalmente, mas foi letrada por seu avô e por um homem que lia jornais para a comunidade negra. Sua relação intensa com a escrita foi tão incompreendida que, ainda adolescente, ela e a mãe foram presas e agredidas porque um dicionário que carregava foi confundido com um “livro de feitiçaria” por soldados analfabetos.

A crônica crua e poética da fome

Publicado em 1960, “Quarto de Despejo” é o diário real de Carolina, escrito enquanto ela vivia como catadora de papel e mãe solo na Favela do Canindé, em São Paulo. O livro é um marco da literatura brasileira por sua autenticidade e força. Nele, a fome é uma personagem constante, descrita de forma visceral ao lado de outras mazelas que ainda assolam o país, como a falta de saneamento básico e água potável, o machismo e a violência contra a mulher, a exploração imobiliária até mesmo na favela, o alcoolismo e a prostituição infantil.

Apesar da crueza, a obra também transborda a resiliência de Carolina, seu amor pela leitura, a ternura com os filhos e lampejos de uma poesia que brotava mesmo em meio à adversidade.

Legado: sucesso, injustiça e atualidade chocante

O livro foi um fenômeno editorial, traduzido para 13 idiomas e vendendo mais de 100 mil cópias no primeiro ano. Carolina foi celebrada por grandes nomes da literatura e recebida por autoridades. No entanto, enfrentou censura durante a ditadura por seu caráter revolucionário e, ironicamente, não usufruiu financeiramente de todo o sucesso da obra, especialmente no exterior.

A discussão do grupo reforçou o quão atual e necessário o livro permanece. Não é à toa que por diversas vezes a obra tem integrado a lista de leituras obrigatórias para os vestibulares nas universidades federais. As mesmas problemáticas da fome, da falta de moradia digna e do racismo estrutural descritas por Carolina ainda são uma realidade brasileira. Sua voz é um símbolo permanente de luta, ruptura e insurreição, ressaltando o poder da literatura como ferramenta de conscientização social e antirracista.

Aprendizado e responsabilidade

A colega Lidia Schneider, da Justiça do Trabalho de Sapiranga, participou do grupo pela primeira vez. Para ela, “a atividade sindical, para além das lutas cotidianas por direitos, também cria espaços de troca, reflexão e fortalecimento coletivo. Para mim, como mulher branca, ler e debater a dura realidade retratada por uma autora negra trouxe um aprendizado extremamente importante sobre desigualdade, resistência e invisibilidades históricas. A mediação da Lourdes foi essencial nesse processo: além de trazer conhecimento sobre a obra e a autora, ela compartilhou vivências sentidas na própria pele, que deram ainda mais sentido e força ao debate. A obra de Carolina Maria de Jesus e a escuta da Lourdes revelaram o quanto ainda temos a aprender. Com o privilégio da branquitude, precisamos assumir a responsabilidade de buscar esses saberes”.

O colega Guilherme Cabral, da Justiça Federal de Novo Hamburgo, também participou pela primeira vez. Ele avalia que começar com essa obra “foi uma experiência impactante. As palavras de Carolina Maria de Jesus reverberaram de diferentes formas nos colegas, gerando um debate vivo e agregador. Fiquei muito feliz de participar desse encontro e estou muito animado para os próximos. Excelente iniciativa do Sintrajufe”.

O Grupo de Leitura Antirracista do Sintrajufe segue seu ciclo de debates, reforçando o compromisso sindical com a educação e a luta contra todas as formas de discriminação. A proposta é seguir aprofundando discussões que contribuam para uma sociedade mais justa, onde todas as vozes sejam valorizadas e as desigualdades estruturais sejam enfrentadas coletivamente.

Atualizado em 20/10/2025, às 18h39min.