SINDICATO DOS TRABALHADORES DO JUDICIÁRIO FEDERAL E MINISTÉRIO PÚBLICO DA UNIÃO - FUNDADO EM 28 DE NOVEMBRO DE 1998 - FILIADO À FENAJUFE E CUT

CULTURA ANTIRRACISTA

Grupo de Leitura Antirracista do Sintrajufe/RS reflete sobre invisibilidade, resistência e libertação em “Solitária”

O Grupo de Leitura Antirracista do Sintrajufe/RS reuniu-se no dia 27 de outubro para discutir a obra “Solitária”, da escritora brasileira Eliana Alves Cruz. Com mediação da colega aposentada e escritora Lourdes Helena de Jesus da Rosa, o debate destacou a invisibilidade das trabalhadoras domésticas, o racismo estrutural e a busca por liberdade em meio a um sistema que ainda carrega fortes heranças escravocratas.

Uma iniciativa de educação e transformação

Criado para aprofundar o conhecimento sobre a questão racial através da leitura e do debate de obras fundamentais, o Grupo de Leitura Antirracista tem como proposta promover a educação continuada, a conscientização e o letramento racial entre os colegas. Com encontros online e a participação de facilitadores especializados, o espaço busca fomentar discussões qualificadas que conectam literatura, realidade social e a luta antirracista.

Vozes que ecoam: as percepções do grupo

Durante o encontro, os participantes compartilharam reflexões profundas sobre a leitura. O colega Mário Marques destacou a invisibilidade como um tema central: “A criança filha da empregada também é invisibilizada: não pode rir, pular, fazer travessuras. Não é uma criança, é um cômodo, alguém apenas tolerado”, criticou.

Já a diretora do Sintrajufe/RS Carmem Regina Barros emocionou-se com a reprodução intergeracional da dor: “Na página 91, Eunice diz: ‘Chorei pela minha filha, ainda tão menina, pela minha mãe… e por mim, que um dia fui uma Mabel’. É a reprodução de uma história de dor que se repete”, comenta.

Josiani Pacheco ressaltou a força e resistência das mulheres retratadas: “A luta por uma vida normal, por fazer uma festa, por usar um cantinho do playground… Tudo é uma batalha. É a resistência de quem tenta viver com dignidade”.

A mediadora Lourdes Helena trouxe ainda um paralelo com a realidade brasileira: “A patroa não é ‘boazinha’ ao forçar o aborto da menina; é uma questão mercadológica. Ela não quer perder uma babá. É a mesma lógica que nega humanidade e autonomia às trabalhadoras”.

Mais do que ficção: um espelho da sociedade

Com uma narrativa ágil e envolvente, Eliana Alves Cruz aborda temas como a vulnerabilidade durante a pandemia, a infância roubada de crianças como Mabel, a violência velada sob o discurso de “fazer parte da família” e a luta por acesso à educação como forma de libertação. A obra também dialoga com casos reais, como o do menino Miguel, reforçando como a literatura pode iluminar feridas sociais ainda abertas.

Como observou a diretora Camila Telles, “o livro traz a primeira morte por covid 19 no Brasil, que foi justamente de uma empregada doméstica. A autora não deixa escapar: a pandemia escancarou ainda mais a desigualdade”.

Já Tatiana Souza ressaltou o papel da educação como herança e resistência: “Mabel estuda medicina não para enriquecer, mas para retribuir à sua comunidade. É a herança que muitas famílias negras deixam: a educação como caminho de libertação”.

Para além das páginas: um convite à reflexão e ação

Cada obra discutida no grupo ajuda a ampliar o olhar e a fortalecer o compromisso com uma sociedade mais justa. É uma troca enriquecedora, feita num ambiente acolhedor, onde todas as vozes são ouvidas e valorizadas. Como sempre ressalta a facilitadora, Lourdes Helena, “ ‘Solitária’ e todas as obras que discutimos são portas que se abrem para entendermos realidades que muitas vezes passam despercebidas. É uma oportunidade de crescer juntos nessa caminhada pela conscientização antirracista”. Ela faz um convite: “queremos que a literatura antirracista chegue a todos os e as colegas, seja pelo incentivo à leitura individual ou pela participação direta no grupo, que está sempre de portas abertas!”.

Próximo encontro

O Grupo de Leitura Antirracista encerrará o ciclo de 2025 no dia 29 de novembro, com um encontro presencial sobre a obra “Pele Negra, Máscaras Brancas”, de Frantz Fanon. A atividade será aberta aos sindicalizados e sindicalizadas da categoria, mesmo que não tenham participado das reuniões anteriores.

Informações sobre horário, local e inscrições serão divulgadas em breve nos meios de comunicação do Sintrajufe/RS.