O Grupo de Leitura Antirracista do Sintrajufe/RS teve novo encontro no dia 6, com uma análise da obra “Cachorro Velho”, da autora cubana Teresa Cárdenas. No encontro, que contou com a mediação da colega aposentada e escritora Lourdes Helena de Jesus da Rosa, os debates destacaram a brutalidade do sistema escravagista e a tentativa de apagamento da humanidade de escravizados e escravizadas.
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A história do protagonista, um homem idoso conhecido apenas pela alcunha desumanizante “Cachorro Velho”, serviu como ponto de partida. A frase “O velho não temia o Inferno: tinha vivido nele desde sempre”, foi central para entender a dimensão do sofrimento imposto. A obra mostra que a violência física era acompanhada por uma violência psicológica que buscava reduzir pessoas à condição de coisas.
Durante o encontro, a diretora do Sintrajufe/RS Arlene Barcelos mencionou a passagem em que o protagonista, Cachorro Velho, recorda ter sido arrancado dos braços de sua mãe quando criança e de, mesmo décadas depois, ainda buscava o cheiro dela: “Dias depois de seu nascimento, sua mãe voltou a trabalhar no campo, cortando cana e desmatando. Quanto a ele, levaram-no para o quarto grande, onde três ou quatro escravas idosas cuidavam dos recém-nascidos. O menino não voltou a estar em seus braços, mas, sempre que alguma mulher passava perto, ele cheirava, buscando o aroma perdido”.

Da escravidão à Faixa de Gaza
Ao longo do debate os e as colegas traçaram um paralelo entre a desumanização retratada no livro e a realidade atual do povo palestino na Faixa de Gaza. Segundo eles, há bastante similaridade entre o processo de animalização e apagamento da humanidade dos escravizados, descrito com tanta crueza por Cárdenas, e genocídio perpetrado pelo governo israelense.
A discussão apontou que, como ocorria durante o período escravista, há, em relação ao povo palestino, uma tentativa de justificar a violência extrema através da construção da imagem do “outro” como não humano. “A comunidade internacional assiste, horrorizada, a um genocídio em tempo real, onde um povo é tratado como descartável, um paralelo gritante com a conivência que permitiu a perpetuação da escravidão por séculos”, refletiu o colega Diogo Corrêa, da JT de Taquara.
Na avaliação da diretora do Sintrajufe/RS, Carmen Regina Ribeiro, “com essa leitura foi possível verificar que a trajetória do povo negro registra muita dor, desumanização e resiliência. Em qualquer parte do mundo, a escravização estabeleceu a crueldade, a coisificação e o descarte do povo negro. Aqui, no grupo, cada dia mais despertamos para a importância do conhecimento das histórias vindas de África”.
O encontro reforçou o papel fundamental da literatura como ferramenta de denúncia, memória e formação de consciência crítica. De acordo com os e as colegas do Grupo de Leitura, “Cachorro Velho” não é apenas um livro sobre o passado; é um espelho que reflete lutas urgentes do presente, conectando a diáspora africana à luta contra todas as formas de opressão e desumanização no mundo hoje.
Próximos encontro será no dia 27
No dia 27, o Grupo de Leitura Antirracista discutirá “Solitária”, da escritora brasileira Eliana Alves Cruz. O livro conta a história de Mabel, filha de Eunice, trabalhadora doméstica que mora no emprego, um condomínio de luxo. A obra expõe a complexa relação entre empregadas e patrões, o racismo estrutural, as sequelas do passado escravocrata no Brasil, além de temas como aborto, trabalho infantil e desigualdade.
O encerramento do ciclo de leituras de 2025 acontecerá no dia 29 de novembro, com um encontro presencial sobre a obra “Peles negras, máscaras brancas”, de Franz Fanon. Esse encontro será aberto a pessoas que não participaram das demais reuniões do grupo; informações sobre inscrições serão divulgadas nos meios de comunicação do sindicato.












