A escritora Lilia Guerra, autora de “O céu para os bastardos”, relatou ter sido acusada de furtar um lençol e uma manta de uma pousada dias depois de ter voltado da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), que se encerrou em 3 de agosto. Ao g1, ela afirmou que a situação a deixou “atônita e incrédula” e que foi vítima de racismo estrutural – que não se resume a fatos isolados de preconceito, mas a um sistema organizado que reproduz desigualdades.
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Segundo Lilia, o episódio começou após uma noite de hospedagem em uma pousada em Paraty, no Rio de Janeiro, onde, teria encontrado condições precárias de acomodação, com problemas no chuveiro, no ralo e na porta do banheiro. “Pedi um cobertor extra porque fazia muito frio, mas me ofereceram apenas uma manta e um pedaço de tecido.” O local foi escolhido e custeado pela organização do evento, no qual a escritora palestrou. No dia seguinte, a escritora foi transferida para outro hotel.
A surpresa veio dez dias após o evento, quando recebeu, por WhatsApp, uma mensagem de um integrante da equipe da Flip, informando que a pousada alegava que ela havia levado um lençol e uma manta. Segundo a escritora, a equipe da Flip disse que a pousada estava fazendo pressão, perguntando sobre o ressarcimento dos itens. O texto ainda dizia: “Duvido muito que isso tenha acontecido, mas, se aconteceu, você só confirma para a gente pagar?”.
“Isso acabou comigo. Eu não conseguia acreditar que estavam cogitando que eu pudesse ter furtado.” Lilia questiona: “É porque sou pobre, porque sou negra? Será que um autor branco, famoso, teria passado pela mesma situação?”. “Eu não estava passando férias. Tive mesas todos os dias, menos domingo. Isso é trabalho. O meu trabalho.”
Ao g1, a pousada afirmou que não acusou a autora de furto. Segundo a administração do local, durante a Flip houve diversas trocas de hóspedes, e a pousada perguntou à organização da festa se algum item teria ficado perdido nessas mudanças ou retirado por engano. À autora, a pousada enviou uma nota dizendo que não teve intenção de acusar. “Lamentamos muito se a forma como a mensagem foi repassada transmitiu outra impressão”, diz o texto enviado à escritora.
Em nota, a Flip lamentou: “Reforçamos a responsabilidade e compromisso posicionando-se de forma firme e solidária ao lado de Lilia Guerra, assegurando todo o acolhimento à autora.”
Espaços elitizados
Para Lilia Guerra, finalista do Prêmio São Paulo de Literatura, o episódio expõe a desigualdade de tratamento em espaços culturais que dizem prezar pela diversidade. Seu livro mais recente, “O céu para os bastardos”, mistura realidade e ficção ao narrar histórias de personagens marginalizados, questionando os limites da dignidade humana. Segundo Lilia, o que viveu em Paraty dialoga diretamente com essa literatura: “Nos meus livros, esse tipo de situação aparece o tempo todo. Achei que não seria leal silenciar sobre o que aconteceu comigo. Escrever é o meu ofício, e eu precisava me posicionar”.
Para Lilia, a acusação deve abrir uma reflexão maior. “Acho importante discutir sobre isso porque se fala tanto em ocupar espaços de privilégio e excludentes, mas quando vou é isso que acontece.” Ela afirma: “Sei que corro o risco de que alguém diga que estou me vitimizando, querendo me promover. Mas eu não preciso e nem quero utilizar esse tipo de recurso. Só que as coisas precisam mudar. Alguém vai sentir dor. Está doendo hoje, mas vai passar”.
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Com informações do g1














