SINDICATO DOS TRABALHADORES DO JUDICIÁRIO FEDERAL E MINISTÉRIO PÚBLICO DA UNIÃO - FUNDADO EM 28 DE NOVEMBRO DE 1998 - FILIADO À FENAJUFE E CUT

CULTURA ANTIRRACISTA

Debate sobre o livro “Pele negra, máscaras brancas”, de Frantz Fanon, encerrou o ano do Grupo de Leitura Antirracista do Sintrajufe/RS

No último sábado, 29 de novembro, aconteceu o encontro de encerramento do ano do Grupo de Leitura Antirracista do Sintrajufe/RS. A atividade foi realizada em formato híbrido, o que possibilitou a participação dos e das colegas que não residem em Porto Alegre, e fechou o segundo ano do grupo, que retorna em 2026 – as inscrições para o próximo ano serão informadas nos meios de comunicação do sindicato.

No sábado, os e as participantes debateram o livro “Pele negra, máscaras brancas”, do psiquiatra, filósofo e ativista martinicano Frantz Fanon. O debate teve como facilitadora a poetista, escritora e professora de Literatura Ana dos Santos. Além disso, a conversa revisitou as outras nove obras discutidas ao longo de 2025 (veja ao final desta matéria um resumo dessas obras).

A diretora do Sintrajufe/RS Camila Telles conta que tem “muito orgulho em fazer parte de um sindicato que fomenta a cultura antirracista 12 meses por ano! O fato de fazermos a luta de classes, a conquista da consciência de trabalhadores e trabalhadoras só reforça o nosso compromisso com o letramento racial, pois no Brasil classe indica raça e raça indica classe. É muito bom que colegas de todas as cores estejam comprometidos em desconstruir o racismo estrutural, pois, como diz Cida Bento, no seu livro ‘Pacto da Branquitude’: o racismo não é um problema do negro, mas sim um problema NOSSO”.

Para Diogo Corrêa, a atividade “foi a coroação de um ano de aprendizados sobre a construção colonial do racismo e formas de enfrentá-lo. A palestra sobre ‘Pele Negra, Máscaras Brancas’ mostrou como a psique é afetada pelo racismo e como até obras famosas devem ser questionadas. O grupo merece reconhecimento por manter essa abordagem contínua, indo além do Mês da Consciência Negra. Agradeço a todos que mantêm este espaço tão necessário”.

Conforme a colega Lourdes Helena da Rosa, “o aprendizado acerca do livro ‘Pele Negra, Máscaras Brancas’ e a descoberta do Fanon, através da voz habilidosa de Ana Santos, foram extremamente significativos. Engajou todos, promovendo um excelente debate, contextualizando o texto redigido em 1952 na contemporaneidade. Nesse contexto, Fanon permanece atual, embora com as limitações que uma leitura cuidadosa requer, considerando a época em que foi escrito e as transformações políticas e sociais que a sociedade experimentou nos últimos 70 anos”.

Veja abaixo informações sobre as leituras feitas pelo Grupo ao longo de 2025:

“Louças de Família”, de Eliane Marques: reflete sobre as heranças que carregamos — aquelas que são delicadas como porcelana, mas que escondem fissuras históricas. A obra apresentou a ideia de que aquilo que parece frágil pode carregar séculos de silêncios, interditos e memórias que moldam subjetividades negras e brancas.
“Como ser um educador antirracista”, de Bárbara Carine: a obra ofereceu ferramentas práticas e éticas para transformar indignação em ação concreta. A obra convocou a olhar para os diferentes espaços de atuação — especialmente o institucional — e a compreender que a luta antirracista é um exercício cotidiano de intencionalidade.
“Torto Arado”, de Itamar Vieira Junior: o livro leva às profundezas de uma ancestralidade que brota da terra. A história das irmãs Belonísia e Bibiana revelou como, muitas vezes, a cura e a libertação emergem justamente das raízes mais retorcidas, onde as dores coletivas e íntimas se encontram.
“Eu, Tituba: Bruxa Negra de Salem”, de Maryse Condé: a obra convida a um gesto importante de justiça simbólica: devolver voz, humanidade e protagonismo a uma personagem que a historiografia tentou apagar. A obra lembra que revisitar o passado não é um exercício de nostalgia, mas uma necessidade política.
“Lugar de Negro”, de Lélia Gonzalez: por meio dessa obra, compreende-se a estrutura do racismo à brasileira e os modos como essa estrutura organiza corpos, acessos e imaginários.
“O Lugar de Fala”, de Djamila Ribeiro: a autora provoca a perguntar quem pode falar, quem tem sido silenciado e que epistemologias foram historicamente deslegitimadas. Juntamente com “Lugar de Negro”, foram duas leituras que serviram como bússola ética para todo o grupo.
“Quarto de Despejo”, de Carolina Maria de Jesus: a autora confronta os leitores e as leitoras com a materialidade da fome, a dureza da desigualdade e a força da escrita como arma de sobrevivência. O diário de Carolina continua sendo um espelho incômodo, que nos força a revisitar nossas responsabilidades sociais.
“Cachorro Velho” de Teresa Cárdenas: proporcionou ao grupo paralelos incontornáveis entre a violência escravista e o genocídio contemporâneo do povo palestino, mostrando como a literatura é capaz de iluminar feridas do passado para compreender urgências do presente.
“Solitária”, de Eliana Alves Cruz: obra que traz o diálogo direto com o Brasil contemporâneo. Com uma narrativa ágil e envolvente, Eliana Alves Cruz aborda temas como a vulnerabilidade durante a pandemia, a infância roubada de crianças como Mabel, a violência velada sob o discurso de que empregadas domésticas “fazem parte da família” e a luta por acesso à educação como forma de libertação. É por isso que “Solitária” dialoga tão diretamente com o que vivemos ainda hoje.
“Pele Negra, Máscaras Brancas”, de Frantz Fanon: o livro convida a compreender o impacto do racismo não apenas sobre o corpo e sobre as condições materiais de vida, mas sobre a própria formação da subjetividade. Fanon nos mostra como o racismo se infiltra na psique, moldando afetos, criando máscaras e impondo performances que muitas vezes são estratégias de sobrevivência. Ele nos provoca a pensar não só no mundo que racializa, mas no que essa racialização faz dentro de nós — e como é possível, política e existencialmente, romper essas máscaras. Porque Fanon, de certa forma, é a síntese e também o aprofundamento de todos os temas que atravessaram o nosso ano: a violência, a memória, a identidade, o corpo, a linguagem, a resistência e a possibilidade de reinvenção.