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A programação da greve do Judiciário Federal no RS na quinta-feira passada, 27 de agosto, ocorreu no auditório da Faculdade de Economia da Ufrgs, com o seminário A corrupção e o sistema da dívida . A atividade foi uma promoção do Sintrajufe/RS e da Auditoria Cidadã da Dívida, em conjunto com Ceape, Sindispge, Assufrgs, Andes, Ugeirm, Sindjus/RS, Sindisprev, Simpe e Fenastic, e dividiu-se em três painéis.
As consequências do sistema da dívida sobre as nações e povos do mundo, América Latina e Brasil
O primeiro painel, As consequências do sistema da dívida sobre as nações e povos do mundo, América Latina e Brasil , foi apresentado, pela manhã, pelo professor do Departamento de História da Ufrgs Mathias Luce e pelo professor do Departamento de Ciências Econômicas da Ufsc Nildo Domingos Ouriques.
Mathias destacou três características do sistema da dívida: é inerente ao capitalismo; é agudizado no capitalismo dependente, que acentua as desigualdades; tem uma dinâmica exacerbada em todo o mundo, sendo a Grécia um dos exemplos mais recentes. Mathias ressaltou que, no Brasil, o ajuste fiscal veio para ficar e, assim como o projeto de privatização em curso (hospitais universitários, previdência e outros), é uma forma de aumentar as reservas e o superávit primário com o intuito de garantir o pagamento do serviço da dívida. Para ele, a corrupção mais grave que se observa é o transformismo político , a modificação de projetos da classe trabalhadora visando a manutenção da extorsão representada pelo pagamento da dívida pública. Todos os grandes partidos contribuem para esse quadro, afirmou Mathias. Segundo ele, é preciso enfrentar o sistema da dívida e fazer uma auditoria que se apresente como projeto de poder, de efetiva transformação do país.
 
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Precisamos construir no Brasil um novo radicalismo político , afirmou Nildo Ouriques. O professor ressaltou que as práticas atuais da esquerda são ineficazes para enfrentar a nova ofensiva contra os trabalhadores. Concordando com Mathias, o painelista afirmou que o ajuste fiscal não é algo passageiro. Ele foi enfático ao afirmar a crise não é para todos: em período de ajuste e crise, os superlucros de banqueiros e exportadores estão assegurados. Da mesma forma, afirmou, todo o esforço para pagar a dívida pública é um esforço para multiplicar o endividamento estatal . O resultado é que o Estado, superendividado, não consegue levar a cabo políticas de desenvolvimento efetivas. Se não avançarmos na questão da dívida pública, não haverá soberania , concluiu.
A corrupção e o sistema da dívida: experiências das auditorias no Equador e Grécia
No início da tarde, a coordenadora nacional da Auditoria Cidadã da Dívida, Maria Lúcia Fattorelli, apresentou o painel A corrupção e o sistema da dívida: experiências das auditorias no Equador e Grécia . A auditora aposentada sustentou que a dívida pública não é algo isolado, funciona como um sistema, com modus operandi próprio. O endividamento, que deveria ser um instrumento do desenvolvimento, é utilizado como mecanismo de subtração de recursos públicos cujo maior beneficiário é o setor financeiro. Segundo Maria Lúcia, a corrupção é essencial para o sistema da dívida, pois, além de sustentar o sistema em si, produz factoides que desviam a atenção da corrupção institucionalizada.
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Maria Lúcia fez a auditoria das dívidas públicas da Grécia e do Equador. No primeiro caso, foi apresentado um relatório preliminar que mostrou que o endividamento grego foi um esquema para beneficiar o sistema financeiro, com a utilização da dívida pública, por bancos europeus, para trocar papéis podres. Ficou evidente, disse a auditora, que os países não emprestaram dinheiro para a Grécia. Aliás, essa é uma característica da dívida pública: os países aumentam o endividamento sem qualquer contrapartida. A dívida pública virou um grande negócio , afirmou Maria Lúcia. No caso do Equador, a dívida superava os gastos sociais (como no Brasil). Com a auditoria, o governo pôde buscar os credores e propor um acordo que reduziu a dívida em 70%. O Equador deu uma lição de ética e soberania , disse a painelista. No Brasil, sétima economia mundial, os índices de saúde e educação estão entre os piores apurados pela ONU. Com aumento de tarifas, da inflação, ajuste fiscal e privatizações, o governo busca fazer frente a uma dívida que consome 45,11% de toda a riqueza gerada no país. Enquanto isso, os bancos aumentam seus lucros, favorecidos pelo sistema da dívida.
 
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As consequências do sistema da dívida sobre as finanças do Rio Grande do SulÂ
A última mesa do seminário, As consequências do sistema da dívida sobre as finanças do Rio Grande do Sul , teve como palestrante Josué Martins, integrante do Núcleo Gaúcho da Auditoria Cidadã da Dívida. Josué buscou traçar um panorama da situação da dívida do RS, destacando que a dívida estadual é uma parte importante do sistema da divida pública da União, que atua em uma lógica predatória. Nesse sentido, enfrentar a questão da dívida estadual é também enfrentar o sistema da dívida como um todo, é quebrar um pé desse sistema. Ele ressaltou a importância de manter esse tema em constante discussão, fortalecendo a luta pela auditoria cidadã. O painelista informou que foi instalada a Comissão Estadual pela Auditoria da Dívida, proposta pelo deputado Pedro Ruas (Psol), com a adesão de todas as bancadas da Assembleia Legislativa do RS. Josué disse ainda que o contrato estabelecido no final dos anos 1990 entre o Rio Grande do Sul e a União, referente à dívida, elimina a autonomia do RS, quebrando o pacto federativo por meio de Programas de Reestruturação e Ajuste Fiscal, em moldes parecidos com o que o FMI fazia com o governo federal: nesse caso, o governo federal diz o que os estados têm que fazer, definindo inclusive os limites de despesas com o funcionalismo, metas de arrecadação e programas de privatização, permissão ou concessão de serviços públicos. No caso específico do Rio Grande do Sul, gastam-se 2,52 vezes mais do que se investe. É o estado mais endividado do país, com uma dívida que corresponde a duas receitas anuais, embora o valor total já tenha sido pago em juros.
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O recado final do seminário foi claro: é preciso organizar a luta das mais diversas formas para combater o sistema da dívida na União e nos estados. É fundamental inverter a lógica econômica e pagar a dívida social do Estado com a população, essa sim nunca paga e determinante para a vida das pessoas.









