SINDICATO DOS TRABALHADORES DO JUDICIÁRIO FEDERAL E MINISTÉRIO PÚBLICO DA UNIÃO - FUNDADO EM 28 DE NOVEMBRO DE 1998 - FILIADO À FENAJUFE E CUT

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Corte na previdência não afeta superaposentadorias de polí­ticos

Enquanto o governo federal achata anualmente os benefí­cios do INSS e, agora, com a medida provisória 664, quer cortar as pensões pela metade, nada é feito com relação aos polí­ticos marajás, que recebem aposentadorias escandalosas. Uma matéria da revista Congresso em Foco aborda o descalabro das superaposentadorias de ex-congressistas e ex-governadores no Brasil e mostra que, enquanto assalariados precisam trabalhar 30 ou 35 anos para se aposentar, têm o benefí­cio limitado a um teto e ainda sofrem uma brusca redução do seu valor com o chamado fator previdenciário, para os polí­ticos, a situação é bem diferente. 

No Congresso, 242 deputados e senadores conseguiram a aposentadoria a partir de apenas oito anos de contribuição. Para governadores da maioria dos estados, basta um mandato de quatro anos. Em muitos casos, apenas alguns meses no cargo já garantem a aposentadoria. Essa despesa, paga por todos os brasileiros, não é pequena. O Instituto de Previdência dos Congressistas (IPC) foi extinto em 1999, mas continua a sangrar os cofres públicos. Como um zumbi, o instituto já consumiu R$ 2 bilhõesem valores atualizadosnos últimos 16 anos. A cada quatro anos, surgem novos pensionistas.

Ocorre que o parlamentar que estava no mandato no momento da extinção do IPC pode continuar contribuindo para o Plano de Seguridade Social dos Congressistas. Quando deixa o Congresso, pode pedir a aposentadoria pelas convidativas regras do IPC. Só no ano passado, o gasto total ficou em R$ 116 milhões, com o benefí­cio de 2.237 segurados, sendo 549 ex-parlamentares e 542 dependentes. Além disso, todo reajuste dos salários de deputados e senadores é repassado para as aposentadorias. Neste ano, o aumento foi de 26,34%. A pensão de maior valor ficou em R$ 33,7 mil. Por fim, com a morte do ex-parlamentar, a viúva ou os filhos passam a receber pensão. 

No momento da extinção, eram 2.769 pensionistas. Atualmente, são 2.237. A situação é completamente oposta à dos aposentados do INSS: quem ganha mais do que o piso previdenciário recebe reajustes inferiores aos do salário mí­nimo. Este ano, por exemplo, o reajuste foi inferior à própria inflação oficial do paí­s. 

Alguns exemplos

A revista Congresso em Foco teve acesso à folha de pagamento de aposentados e pensionistas do IPC pagos pela Câmara dos Deputados. No Senado, os valores pagos estão registrados no Portal de Transparência, mas os pagamentos precisam ser acessados um a um. Os dados foram cruzados com as pensões concedidas por 13 estados, pelo Tribunal de Contas da União (TCU) e pelo Supremo Tribunal Federal (STF).

A situação é agravada porque há várias situações em que as aposentadorias se acumulam. O ex-senador Antônio Carlos Konder Reis, por exemplo, recebe R$ 33,7 mil pelo IPC e mais R$ 23,8 mil por ter sido governador biônico por Santa Catarina durante a ditadura militar. O ex-senador Marco Maciel (DEM-PE) acumula a aposentadoria do IPC, no valor de R$ 30,8 mil, com a pensão especial de R$ 30,4 mil por ter sido governador de Pernambuco. Por ter deixado o Senado, o ex-presidente da República José Sarney terá à disposição duas aposentadorias, uma pelo IPC, no valor máximo do instituto, e outra como ex-governador do Maranhão, no valor de R$ 24 mil. A filha, Roseana Sarney, que deixou o governo em dezembro do ano passado, também receberá pensão como ex-governadora do Maranhão. Já usufrui da aposentadoria de R$ 23 mil como analista legislativo do Senado.

A fartura é tanta que uma viúva recebe pensão de dois estados e ainda do IPC. Maria Guilhermina Martins Pinheiro, que foi companheira do ex-governador Leonel Brizola nos últimos dez anos da sua vida, recebe pensão de R$ 30,4 mil do governo do Rio Grande do Sul e mais R$ 21,8 mil do estado do Rio de Janeiro. Brizola governou os gaúchos na década de 60 e os fluminenses por duas vezes, nos anos 1980 e 1990. O ex-governador Alceu Collares (PDT-RS) recebe R$ 30,4 mil pelo governo gaúcho e mais R$ 13 mil pelo IPC. Além disso, ganha mais R$ 21 mil pela participação no Conselho de Administração da Itaipu Binacional, que se reúne a cada dois meses, fora as convocações extraordinárias. O colega Germano Rigotto tem a aposentadoria do governo gaúcho e mais um reforço de R$ 8,7 mil do instituto.

Aposentadoria de deputados no RS custa quase R$ 3,5 milhões por ano

A Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul aprovou, em 2014, um programa de aposentadoria especial para os deputados estaduais. O pagamento do benefí­cio vai custar quase R$ 3,5 milhões por ano aos cofres públicos. 

Para se aposentar pelas regras do plano, são necessários 35 anos de exercí­cio de mandato e 60 anos de idade. Mas podem ser contabilizados os anos de exercí­cio de mandatos exercidos em Câmaras de Vereadores e na Câmara dos Deputados e aposentadorias proporcionais para aqueles com 35 anos de contribuição e 60 anos de idade. Podem, ainda, ser considerados tempos de contribuição reconhecidos pelos sistemas de previdência social do serviço público, civil ou militar e da atividade privada, rural e urbana, além do tempo de exercí­cio do mandato. 

Em função dessas possibilidades, os cálculos preliminares indicam que, após dois mandatos, os parlamentares já poderão se aposentar com valores superiores aos do teto do INSS; muitos poderão receber os subsí­dios integrais. O Conselho da OAB-RS decidiu recorrer ao Supremo Tribunal Federal contra a aposentadoria especial. O relator da matéria no Conselho da OAB, Carlos Roberto de Siqueira Castro, apontou no seu voto que houve ofensa ao princí­pio republicano com a aprovação e posterior promulgação da lei. Também acusa os parlamentares de legislarem em proveito próprio, além de classificar a lei como irracional e imoral .

Fonte: Sintrajud, CSP Conlutas, Terra e O Globo