
Na manhã do dia 9, o VII Congresso Estadual do Sintrajufe/RS foi lugar do debate sobre a atual situação dos trabalhadores do Judiciário no tocante à saúde e às condições de trabalho. Apesar de voltado ao enfrentamento dos problemas vivenciados na categoria, o painel, mediado pelos diretores Paulinho Oliveira e Ruy Almeida, traçou um amplo panorama da trajetória e da situação atual dos trabalhadores brasileiros.
Os participantes da mesa foram álvaro Crespo Merlo, médico do trabalho, que atua também na área de Psicologia, com ênfase em Psicodinâmica e Clínica do Trabalho, professor da Faculdade de Medicina da Ufrgs, doutor em Sociologia pela Université de Paris VII Denis Diderot; e Fernando Feijó, médico graduado pela Ufrgs, membro da assessoria em saúde do trabalhador do Sintrajufe/RS, mestrando em Saúde Coletiva na Ufrgs.
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Sofrimento no trabalho
Merlo foi o primeiro a falar, e começou delineando as mudanças na situação de trabalho a partir da introdução e da expansão da informática. Ele destacou que novos problemas passaram a surgir, estimulados ainda pelo incentivo à prática do teletrabalho e pelo aumento da pressão pelo cumprimento de metas. Nesse contexto, cresce ainda o desrespeito de chefes a servidores: A violência psicológica nos espaços de trabalho se banalizou de tal forma que as pessoas são insultadas, humilhadas, e as pessoas acham que trabalho é assim mesmo, que o mundo funciona assim , explicou.
O médico esclareceu que, no que se refere à preservação da saúde mental no trabalho, a questão salarial não é a mais importante. Para ele, a grande necessidade é de reconhecimento da qualidade do trabalho que é feito, e “a política de metas é a perversão desse processo, é um equívoco, é um erro”. Merlo comentou que essa pressão e a violência nos espaços de trabalho não são fatalidades, mas um problema crônico de organização da dinâmica do trabalho, estimuladas pelo fato de que as gerências não costumam compreender o papel do trabalho para a construção da identidade dos indivíduos. Nesse sentido, explicou que as agressões produzidas pela organização do trabalho levam a sofrimento psíquico, poucas vezes identificado, que de fato aparece quando se transforma em patologiase esse é o caso dos suicídios nos locais de trabalho, que, segundo o médico, “não são mais exceções”.
Merlo fez um apanhado de situações externas ao ambiente de trabalho em si, mas que podem levar a problemas para os servidores. Ele citou o fortalecimento do capital financeiro e processos de abertura do patrimônio público ao capital estrangeiro, como é o caso do Banco do Brasil. O médico citou ainda recentes declarações do ministro da Fazenda, Guido Mantega, que defendeu a redução de despesas com seguro-desemprego, abono salarial e auxílio-doença. Para Merlo, esse tipo de situação vai criando problemas para a identidade e a segurança dos trabalhadores, o que acaba por afetar diretamente sua saúde.
Caminhos para reduzir problemas relacionados ao trabalho
Depois de álvaro Crespo Merlo, foi a vez do assessor em saúde do trabalhador do Sintrajufe/RS, Fernando Feijó, conversar com os presentes ao Congresso. Feijó criticou a forma como é feito o gerenciamento do trabalho dos servidores públicos, com avanço das privatizações, afirmando que esse tipo de processo prejudica a saúde dos trabalhadores. Para ele, vivemos um momento de redução da interferência do Estado na economia, redução do déficit público e, ao mesmo tempo, exigência de mais eficiência no serviço público. Feijó entende que o foco na medicação como solução para as questões de saúde no trabalho é um problema, assim como hegemonia da questão biológica, enquanto, na verdade, a questão social é mais determinante.
O médico comentou alguns dos resultados da última pesquisa de saúde do Sintrajufe/RS, na qual são apontados os principais fatores de motivação e de desmotivação no trabalho. No primeiro caso, aparecem estabilidade, salário e jornada de trabalho nos primeiros lugares, com valorização, relacionamento e outras questões do tipo aparecendo muito abaixo. “Que trabalho é esse que está sendo construído?”, questionou. Como maiores fatores de desmotivação, a pesquisa apontou a falta de possibilidade de crescimento, as metas, as política de capacitação e treinamento e a desvalorização social.

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Feijó ainda citou o aumento do número de processos por servidor, o que demonstra claramente um processo de intensificação do trabalho , conforme avaliou. A demanda social aumenta, mas não se contratam mais servidores, havendo, assim, aumento da quantidade de trabalho. O médico encerrou sua palestra apresentando alguns dos possíveis caminhos para resolver ou ao menos reduzir os problemas de saúde relacionados ao trabalho dos servidores: democratização real da gestão da saúde do servidor; combate ao assédio moral e à violência psicológica no trabalho; redução da jornada para seis horas por dia e 30 horas por semana em todos os tribunais; garantia das pausas de dez minutos a cada hora e estender essa medida para todos os tribunais; combate à política de metas e à remuneração por resultados; e estímulo a políticas compensatórias, como a ginástica laboral. Por fim, enumerou os projetos que está construindo na equipe médica do Sintrajufe/RS: campanhas de combate ao assédio moral e pela redução da jornada de trabalho para 6 horas em todos os tribunais (cujos materiais estão em fase final de produção); pesquisa de Saúde e PJe com o uso de novas metodologias e a realização de duas etapas, uma qualitativa, com grupos focais nivelados pelo tempo de uso do PJe, e outra quantitativa, com abrangência a todos os servidores; e a formulação de uma política geral de saúde para 2015.
Ao final das palestras, o microfone foi aberto para que os delegados pudessem opinar e manifestar suas preocupações em relação ao tema do painel. A tônica das intervenções foi a crítica à cobrança excessiva de metas e de tarefas que exigem demais dos servidores, sem que isso se reverta em melhorias salariais ou em novas contratações. Também foi abordado o tema do trabalho em casa, sempre com preocupação por parte da categoria. Alguns servidores relataram casos de assédio moral que já sofreram e a dificuldade na solução dos problemas. Foram lembrados ainda os recentes casos de suicídio de colegas em São Paulo, todos fortemente relacionados problemas no trabalho. Foi destacada a necessidade de ações de formação e mobilização da categoria em torno desses temas, de forma a melhorar suas condições de trabalho e resguardar a saúde dos servidores.
Texto e fotos: Alexandre Haubrich








