SINDICATO DOS TRABALHADORES DO JUDICIÁRIO FEDERAL E MINISTÉRIO PÚBLICO DA UNIÃO - FUNDADO EM 28 DE NOVEMBRO DE 1998 - FILIADO À FENAJUFE E CUT

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Ato pela vida pede união dos servidores: em SP, luto e revolta pela morte da servidora Amanda Priscila

A trágica morte de três servidores da Justiça do Trabalho em São Paulo, duas delas ocorridas no local de trabalho, nos faz refletir: o que está acontecendo em nossos tribunais? O que estamos fazendo das nossas vidas? Os questionamentos deram o tom do ato ocorrido nesta terça-feira, 14, no saguão do Fórum Trabalhista Ruy Barbosa. Centenas de servidores participaram da atividade, realizada um dia após a morte da servidora Amanda Priscila Santos Costa. Amanda atentou contra a própria vida dentro do Ruy Barbosa deixando consternados familiares, amigos, colegas de trabalho e servidores de todo o paí­s.

No perí­odo de um mês, outros dois trabalhadores, Erica Yamamoto e Edélcio Ribeiro, também perderam a vida de maneira semelhante. Não temos uma explicação e talvez nunca tenhamos. A realização desse ato foi para homenagear a Amanda e propiciar uma reflexão sobre o que pode estar acontecendo em nosso tribunal. É hora de conversarmos e nos apoiarmos e lutarmos para que isso não aconteça mais , disse Inês Leal de Castro, diretora do Sintrajud/SP, na abertura do ato. O chamado à solidariedade dentro do ambiente de trabalho permeou todos os discursos. Nas falas, umas súplicas para os trabalhadores deem as mãos e lutem juntos por um ambiente de trabalho mais agradável, mesmo que este seja caracterizado por casos de assédios moral e metas inalcançáveis.

Não foi o assédio que aumentou, foi a solidariedade que desapareceu. O que nós fazemos quando vemos um colega ser assediado? Abaixamos a cabeça. Ficamos presos em nossa individualidade , ressaltou a oficial de justiça do TRT-SP Sandra Duarte. Minha impressão é que estamos nos isolando, isolando uns aos outros. Não estamos nos olhando como uma categoria que sofre as mesmas mazelas. Não podemos nos omitir de ajudar uns aos outros , reforçou Angélica Olivieri, diretora do Sintrajud/SP e servidora da Justiça Federal, que recentemente também registrou duas tentativas de suicí­dio. Temos que nos ver como uma comunidade. Por dia, nós passamos no mí­nimo oito horas juntos para não termos amizade no local de trabalho , afirmou Zair Palhares, servidora que trabalhou no TRT-SP por 28 anos e se aposentou no ano passado.

Uma mensagem?
 
Natural do Rio Grande do Norte, Amanda chegou ao Fórum Ruy Barbosa em agosto deste ano. Era filha única e tida pelos colegas de trabalho como uma pessoa alegre, simpática, com vontade de aprender. Ela cumprimentava a todos, conversava. Na quinta-feira nós conversamos sobre ioga, meditação. Só Deus sabe o que se passava com ela , contou Marcelino, colega da mesma vara.
 
Embora não se saiba a motivação para o ato de Amanda, de maneira geral o suicí­dio no local de trabalho pode ser uma mensagem, um alerta de que algo não vai bem. Taxar um motivo seria leviano, pois o ato pode não estar relacionado ao trabalho, mas é a ponta de um iceberg, tem muito mais embaixo , disse Daniel Luca, psicólogo e assessor do Sintrajud/SP.
 
O dia a dia nos tribunais tem levado servidores do Judiciário ao adoecimento e ao afastamento. Durante o ato, muitos relataram situações de assédio moral e de opressão. Muitos servidores estão adoecidos, tomando remédio controlado, indo ao psiquiatra. Pode ser que o caso da Amanda seja isolado, mas a gente sabe do dia a dia dos tribunais. Temos que discutir nossas relações de trabalho e aumentar a nossa solidariedade , completou o psicólogo. O que nós vivemos é a prática do abuso, do assédio , disse uma servidora. Nós chegamos aqui como vitoriosos, em busca de um sonho. Mas não demora muito para perceber que não representamos muita coisa para a instituição. Só representamos algo para nossos colegas e amigos. O assédio é institucional , disse Marcus Vergne, diretor de base do Sintrajud/SP e servidor da JT.
 
Reunião com a presidência
 
No mesmo dia em que Amanda morreu, diretores do Sintrajud/SP se reuniram com a presidência do TRT-2 para definir, em um trabalho conjunto, medidas emergenciais no que diz respeito à saúde dos trabalhadores. Os dirigentes solicitaram à administração do tribunal que o expediente desta terça-feira começasse às 13h e que fossem suspensos os trabalhos na 62º vara, na qual Amanda trabalhava. No entanto, a presidente do TRT-2, Sí­lvia Regina Pondé Galvão Devonald, considerou que não seria viável suspender os trabalhos do tribunal, dado o grande número de audiências.
 
O Sintrajud/SP não concorda com essa postura e lamenta a decisão da presidente. O sindicato obteve da presidência o agendamento de uma nova reunião, no dia 5 de novembro, quando serão discutidas a implantação de um programa permanente de saúde, a democratização da gestão do tribunal e outras medidas para melhorar as condições de trabalho dos servidores. Temos que cobrar uma atitude do tribunal, como a implantação de um concurso de remoção interna e ações que cuidem da nossa saúde , ressaltou um servidor. Uma administração é responsável pela saúde dos trabalhadores , completou Henrique Sales, também servidor da JT.
 
Ato de repúdio
 
Ainda na segunda-feira, 13, enquanto os servidores lamentavam a morte de sua colega de trabalho nas redes sociais, a juí­za da 26ª vara, Elisa Andreoni, publicou em sua página do Facebook uma desagradável e desrespeitosa mensagem sobre a morte de Amanda. Indignados com a atitude, ao final do ato os servidores realizaram um protesto em frente à 26ª vara e, em uma só voz, leram um texto de homenagem a Amanda Priscila, escrito pelo colega Tauff Ganem de Abreu. A magistrada estava no local, mas não apareceu ou se pronunciou. Na JF da cidade de Santos, servidores também realizaram um ato e fizeram um minuto de silêncio em homenagem a Amanda Priscila.
 
Fonte: Sintrajud/SP; foto Joca Duarte