SINDICATO DOS TRABALHADORES DO JUDICIÁRIO FEDERAL E MINISTÉRIO PÚBLICO DA UNIÃO - FUNDADO EM 28 DE NOVEMBRO DE 1998 - FILIADO À FENAJUFE E CUT

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Debate no Sintrajufe/RS apresentou a resistência das mulheres e de artistas à ditadura; hoje, às 19h, mais uma atividade do ciclo de descomemoração

Estamos todos perplexos à espera de um congresso dos mutilados de corpo e alma. , diz trecho do poema Inventário de Cicatrizes , de Alex Polari de Aleverga, ex-preso polí­tico, lido pelo diretor Paulinho Oliveira no iní­cio da atividade do dia 8 de abril no Ciclo de Descomemoração do Golpe de 1964, do Sintrajufe/RS.

A resistência das mulheres e das artes visuais foram os temas que deram tí­tulo para os dois painéis expostos: As mulheres sob o Golpe , com Bernadete Menezes (Berna), servidora pública e dirigente da Assufrgs, e As artes visuais na resistência ao Golpe , por Rosane Vargas, jornalista do sindicato e historiadora da arte. A atividade contou, ainda, com a participação de Claudio Levitan, arquiteto, músico, artista e ativista contra a ditadura. Levitan cantou músicas que foram censuradas durante a ditadura e fez intervenções enriquecedoras no decorrer do encontro.

No primeiro painel, Berna falou de sua trajetória. Nascida em Belém do Pará em um ano que considera emblemático, 1959, quando da vitória da Revolução Cubana, Berna cresceu em uma famí­lia de três gerações de militância. Ainda criança, mudou-se para Rondônia, para onde o pai foi deslocado para fundar o Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), partido do presidente deposto pelo golpe, João Goulart.

Berna relatou ter crescido acompanhando momentos decisivos da história polí­tica e social do paí­s. Durante a sua fala, destacou que Jango, ao assumir o poder, esqueceu os velhos amigos e acabou sendo traí­do pelos novos, que acabaram por articular o golpe. Ela traçou um paralelo com o presidente venezuelano Hugo Chávez, falecido em 2013. Em visita ao Brasil para participar do Fórum Social Mundial, quando questionado sobre que conselho daria ao recém-eleito Luiz Inácio Lula da Silva, Chávez disse que não daria conselhos, mas deixou uma dica: que Lula não esquecesse os velhos amigos, incluindo aí­ o povo que o colocou na Presidência.

Berna contou que o iní­cio de sua militância ocorreu aos 15 anos, quando, ao decidir com as colegas de colégio não ir à aula para estudar para uma prova, foi acusada de liderar um movimento de protesto pela morte do jornalista e professor Vladimir Herzog, assassinado sob tortura em 1975. Desde então, assumiu a vida de militância.

Para a painelista, o golpe não foi apenas militar. O golpe foi preparado não só pelos militares, mas pelo empresariado brasileiro, que financiava e assistia às sessões de tortura, e pela imperialista participação dos Estados Unidos. Esses empresários aprovavam compras de empresas no Brasil pelo paí­s norte-americano e ao mesmo tempo favoreceram a abertura para o capital estrangeiro no Brasil , enfatizou.

Outro ponto levantado foram os resquí­cios da ditadura, que ainda estão presentes nas relações pessoais, sociais e polí­ticas, em que a violência aparece como um instrumento de solução das questões cotidianas. Essa desacreditação no poder da justiça, no poder do Estado, na forma de fazer justiça com as próprias mãos, a forma como as polí­cias atuam são resquí­cios da operacionalização da conjuntura polí­tica da época. Mais do que um golpe militar, foi um golpe da sociedade civil e hoje vivemos esses reflexos, inclusive, nas relações pessoais, muitas vezes, mediadas pela força . Afirmou. Bernadete também falou da quantidade de mulheres torturadas, desaparecidas, que ficaram grávidas dos algozes, assim como do espaço para a mulher na militância, que na época era mais restrito, o que manifesta o machismo nessas relações.

No segundo painel, Rosane Vargas disse que a música e o teatro são as manifestações culturais artí­sticas que mais ganharam visibilidade como caminho de protesto contra a conjuntura militar do que as artes visuais, que tinham, naquela época como hoje, público mais restrito. A painelista explicou que as artes visuais também ecoaram o grito oprimido em forma de telas, fotografias, escultura e outras objetos artí­sticos.

Ela destacou que nos anos 60, no Brasil e em outros paí­ses da América Latina, a arte era discutida não apenas no plano formal e estético, mas a partir de sua relação com a polí­tica e a sociedade. Durante a sua explanação, Rosane mostrou para o público alguns trabalhos, de 1964 a 1978, nos quais os artistas buscaram denunciar o que estava acontecendo no Brasil, a falta de liberdade, a arbitrariedade, a tortura, os desaparecimentos .

A programação, que começou no dia 1° de abril, vai até o dia 30. O próximo encontro acontecerá hoje, 24 de abril, às 19h, com o painel O Judiciário e os direitos humanos sob o golpe , com Jair Krishke, historiador e ativista dos direitos humanos, e Ana Eni Machado Millan, advogada. Haverá, também, a participação do cantor, compositor e ativista contra a ditadura, Nelson Coelho de Castro.

Por Tais Garcia Teixeira, especial para o Sintrajufe/RS