SINDICATO DOS TRABALHADORES DO JUDICIÁRIO FEDERAL E MINISTÉRIO PÚBLICO DA UNIÃO - FUNDADO EM 28 DE NOVEMBRO DE 1998 - FILIADO À FENAJUFE E CUT

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No lançamento da campanha unificada nos SPFs, servidores assistem a palestra sobre dí­vida pública

A campanha salarial unificada dos servidores públicos federais teve lançamento nos estados ontem, 22/1. No Rio Grande do Sul, pela manhã, o Fórum Gaúcho dos Servidores Públicos Federais distribuiu carta aberta à população e concedeu entrevista coletiva à imprensa, para apresentação da pauta.

À tarde, o lançamento da campanha salarial unificada foi marcado por uma atividade de formação. Servidores de várias categorias assistiram, no auditório da Faculdade de Economia da Ufrgs, à palestra da auditora fiscal e coordenadora nacional da Auditoria Cidadã da Dí­vida, Maria Lucia Fattorelli, sobre dí­vida pública. Além da diretoria do Sintrajufe/RS e das demais entidades que compõem o Fórum Gaúcho dos SPFs, estiveram presentes dirigentes da Fenajufe que vieram a Porto Alegre.

Utilizando dados do Senado Federal, Fattorelli mostrou que, em 2011, enquanto os pagamentos da dí­vida ultrapassaram R$ 1 trilhão, o gasto com pessoal foi de R$ 200 bilhões. Em 2012, do total executado do orçamento da União, de R$ 1,712 trilhão, 43,98% foram usados em juros e amortizações da dí­vida. Ou seja, é o maior gasto da União.

A Lei Orçamentária Anual de 2014 prevê R$ 14,474 bilhões para aumentos com gastos de pessoal. No entanto, alerta Fattorelli, desse valor, R$ 12,546 bilhões já estão destinados ao reajuste de 5% do parcelamento do reajuste dos servidores. O valor restante é para provimento de novos cargos. Ou seja, não há previsão de reajuste para 2014. Enquanto os gastos com pessoal diminuem, a receita corrente lí­quida cresce. Para onde vai esse dinheiro? Para o pagamento da dí­vida pública.

Uma auditoria é necessária, assegura Fattorelli, para conhecer e mudar o atual modelo econômico, que tem como preocupação primordial o superávit primário e o controle da inflação (o que implica juros altos e ainda mais ganhos para o capital financeiro). Esse modelo trava o desenvolvimento e transfere metade dos recursos do orçamento da União para o setor financeiro, principalmente os bancos. Para conseguir o superávit, o governo promove arrocho dos servidores, terceirizações e privatizações. Fattorelli ressaltou que, nos governos do PT, houve privatizações estruturais, ou seja, de setores estratégicos, como petróleo, portos e rodovias.

A palestrante explicou que o dinheiro que falta para os salários dos servidores e para investimento em saúde, educação, transporte e segurança vai para o pagamento da dí­vida. Ela chama de paradoxo Brasil o fato de o paí­s ser a 6ª economia do mundo e, ao mesmo tempo, registrar um péssimo desempenho em educação, em direitos humanos e ser o 3º pior em distribuição de renda. O dinheiro é destinado para pagar a dí­vida pública, que é a absorção de recursos públicos para transferência ao setor privado, principalmente ao setor banqueiro.

A população percebe que há problemas, e um exemplo disso são as manifestações de junho de 2013, que ocorreram em mais de cem cidades de todo o paí­s. As pessoas foram para as ruas exigir menos corrupção, mais saúde, educação, transporte e segurança. Resumindo, mais investimentos públicos. A indignação é fundamental, disse a palestrante, mas quanto dos milhões que foram às ruas sabem que, se faltam investimentos nas áreas básicas, é porque o dinheiro é desviado para o pagamento da dí­vida pública?

A informação é uma arma poderosa. É preciso saber a origem da dí­vida, quem ganha com ela. Os estudos feitos já mostram que o paí­s nunca recebeu o dinheiro que gerou a dí­vida. Quer dizer que há uma dí­vida, mas não existiu uma contrapartida. Isso porque boa parte dos valores resultam de dí­vidas de empresas privadas que foram assumidas pelo governo por pressão do FMI. Além disso, o reajuste da dí­vida é mensal, automático. Não se sabe quem detém os tí­tulos da dí­vida pública. Enquanto os salários dos servidores podem figurar na internet, para consulta, os dos detentores da dí­vida são sigilosos.

Para se manter esse sistema de priorização do pagamento da dí­vida, que só beneficia alguns, é construí­da uma teia que, além do modelo econômico perverso, é constituí­da por privilégios financeiros a determinados grupos, participação dos sistemas legal e polí­tico, corrupção e anuência da mí­dia comercial, que nunca questiona a dí­vida e naturaliza seu pagamento. Para a mí­dia, os culpados pela falta de dinheiro para investimento são os servidores, a previdência, enfim, sempre há um bode expiatório.

O Equador provou que uma auditoria séria pode mudar essa realidade. Em 2007, o presidente Rafael Correa formou uma comissão, da qual Fattorelli fez parte, que estudou a dí­vida. Foi comprovado que já havia sido paga; 95% dos detentores de tí­tulos aceitaram entregá-los ao governo. Com isso, o paí­s se livrou do maior freio ao seu desenvolvimento.

Para Fattorelli, é preciso ações concretas, como divulgar informações, acionar investigações por parte do Ministério Público e rever a polí­tica monetária e fiscal para garantir distribuição de renda e justiça social.

Por Rosane Vargas, Sintrajufe/RS