A programação da Semana da Consciência Negra continua hoje, 19h, no auditório da JF, com um painel a respeito das comunidades quilombolas

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Juremir afirmou que, quando se deu o massacre de Porongos, já não havia mais uma guerra, era, na melhor das hipóteses, uma guerra de guerrilha . Segundo ele, se houvesse um enfrentamento, o exército imperial dizimaria as forças farroupilhas. Então, os farrapos estavam em um dilema: o que fazer com os negros? Durante todo o conflito, que durou dez anos, os farroupilhas não libertaram seus escravos; estes continuaram nas fazendas, trabalhando. A partir de 1838, os farroupilhas passaram a utilizar como efetivo militar os escravos do inimigo com promessas de liberdade.
Os escravos foram vilipendiados de todas as formas, afirmou Juremir. Eles lutavam nas condições mais adversas e, quando os farroupilhas ficaram sem dinheiro, usaram a venda de escravos como forma de conseguir financiar a continuidade da guerra. Essa negociação, conduzida por Domingos José de Almeida com estancieiros uruguaios, está registrada no que o escritor chama de documentação infame .
O massacre
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Os combatentes farroupilhas ficavam divididos em três acampamentos: de brancos, índios e negros. Na madrugada de 14 de novembro de 1844, em Porongos (atual município de Pinheiro Machado), somente o acampamento onde ficavam os negros foi atacado. Eles não tiveram chance defesa. Horas antes, o general David Canabarro mandara retirar o cartuchame da infantaria, cuja composição era de 99,9% negros.
Juremir diz que o fato passou à história como o massacre dos lanceiros, e estes também foram mortos, mas os infantes eram os que iam à frente, a pé. Eram negros porque os brancos se recusavam a guerrear sem cavaloera considerado infamante. Na hora do massacre, os lanceiros negros, que também estavam no acampamento e foram atacados, tentaram se defender com as lanças e alguns conseguiram escapar a cavalo. Quem não conseguiu escapar foram os da infantaria, mas cristalizou-se a ideia de que foram os lanceiros , explicou o escritor.
O fato é que o massacre ocorreu, e só negros morreram. Há, entre historiadores, aqueles que afirmam que houve traição dos farroupilhas e o que não acreditam nessa possibilidade. Os escravos eram um empecilho para um acordo de paz. No fim da guerra, explicou Juremir, os imperiais queriam os escravos de volta. Os farroupilhas, por outro lado, temiam o que poderia acontecer se os negros permanecessem no Rio Grande do Sul, uma vez que a promessa de liberdade não fora cumprida.
Um documento-chave seria a carta em que o Duque de Caxias combinaria com Canabarro o massacre, o desarmamento dos negros. A carta foi refutada, acusada de falsificada com o intuito de manchar a imagem de Canabarro. Juremir disse que faltava ir fundo na questão. Foi o que fez. Ele pesquisou o principal historiador da guerra farroupilha, Alfredo Varella, na discussão travada com outro historiador, Alfredo Ferreira Rodrigues, defensor da versão dos farroupilhas. Depois de ir a fundo em documentos, livros e outras publicações, o escritor é categórico: Não tenho nenhuma dúvida de que houve traição .
Juremir foi além, para saber o que aconteceu com os escravos entregues pelos farroupilhas aos imperiais, um mistério que persistia. Ele descobriu documentação que comprova que os negros sobreviventes da guerra foram levados para o Arsenal da Marinha e nominados escravos da nação . Foram eles, por exemplo, que lutaram na Guerra do Paraguai, como voluntários da pátria , no lugar dos escravos dos fazendeiros. Durante 20 anos, foram alugados, segundo relato de Juremir, para realizar um dos serviços mais pavorosos , que era o transporte diário de excrementos da aristocracia carioca em tonéis, nas costas. Os excrementos escorriam e os escravos sofriam com toda sorte de doenças de pele.
A plateia fez várias intervenções, participando do debate. Foi dito que é importante tratar de problemas como racismo e preconceito não apenas na Semana da Consciência Negra. São assuntos que precisam ser falados diariamente.
As pessoas presentes destacaram ainda que, nas escolas, a história do negro não aparece, só é contada de maneira parcial. Os brasileiros conhecem a história da Europa, mas nada sabem sobre a áfrica, de onde vieram ancestrais de quase metade da população. Em relação à própria história do movimento sindical brasileiro, por exemplo, geralmente só são lembrados os imigrantes europeus, mas pouco fala-se a respeito dos lutadores negros libertos que fizeram greves no século XIX por melhores salários e condições de trabalho.
Depois do debate, o sindicato sorteou cinco livros de Juremir Machado da Silva entre o público. A noite se encerrou com a cantora Marietti Fialho, vencedora do Prêmio Açorianos de Música no ano de 2001, acompanhada ao violão por Alan Barcellos. Todos cantaram, aplaudiram e muitos dançaram várias músicas que contam as lutas e a resistência do povo negro.
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Por Rosane Vargas, Sintrajufe/RS







