Â
Â
Â
Â
Sylvio César Camargo: atualizar conceitos para lutar
Â
Â
Sylvio foi o primeiro a falar. Ele é bacharel em Filosofia pela Ufrgs e tem mestrado e doutorado em Sociologia pela Unicamp. Para ele, o capitalismo vive um novo estágio, de transição, no qual não apenas o tempo de trabalho é explorado, como também o tempo de não-trabalho, e os meios de comunicação possuem um papel central nesse sentido. Por outro lado, apontou, a esquerda segue assentada na leitura de um período anterior, do capitalismo da década de 1990.
Â
Â
Â
Â
O professor apontou o momento de crise do capitalismo, que chega ao Brasil em um momento de crescimento do pensamento conservador e fascista no país. A crise brasileira é, destacou, uma crise não apenas econômica, mas das próprias instituições.
Â
Â
Para enfrentar esse cenário, porém, é preciso compreender as mudanças pelas quais o capitalismo tem passado. A grande questão que se coloca hoje para os movimentos sociais, inclusive para o movimento sindical, é conseguirmos entender como a classe dominante consegue garantir o seu lucro crescente , afirmou. Sylvio apontou os meios de comunicação como partícipes centrais desse processo, complementando uma situação de irracionalidade do capital que leva tanto a tragédias ambientais, como o caso de Mariana (MG), quanto a recorrentes casos de corrupção nas altas esferas estatais.
Â
Â
Por outro lado, Sylvio lembrou a ascendência do movimento feminista à centralidade das lutas sociais e as mais de cem escolas ocupadas por estudantes de São Paulo nas últimas semanas como elementos da luta em desenvolvimento que devem ser considerados com mais atenção. Se trata de uma potencialidade que não podemos negligenciar , afirmou, para concluir: que a esquerda continua pensando o presente com conceitos do século XIX. E talvez essa seja uma das principais razões pelas quais nós não avançamos mais nas nossas conquistas .
Â
Â
Plínio de Arruda Sampaio Jr.: mudar as estruturas para transformar
Â
Â
Após o encerramento da explanação de Sylvio, foi momento da fala de Plínio de Arruda Sampaio Jr., economista, graduado pela Fea-Usp, e que possui mestrado, doutorado e livre-docência em Economia pela Unicamp. Plinio começou destacando a grande greve construída pelos servidores do Judiciário Federal neste ano: Vocês orgulharam todos os trabalhadores brasileiros , afirmou, lembrando que o mais importante na luta de classes não são as conquistas materiais, e sim o acúmulo de consciência.
Â
Â
Â
Â
Plínio comentou a situação de ajuste fiscal pela qual passa o país. Para ele, não trata-se de um problema menor, mas de uma política de Estado, que está acima de governos. Há dois grandes partidos, afirmou: o partido da ala moderada, do ajuste moderado, e o partido do ajuste entusiasmado. Qualquer que seja, está condenado a botar em funcionamento a engrenagem do ajuste . Assim, para melhorar a vida dos trabalhadores, é preciso lutar contra esse Estado, por mudanças estruturais: nas regras vigentes, o trabalhador sairá sempre perdendo .
Â
Â
O economista também falou sobre a crise internacional do capitalismo, cuja solução está sendo ditada pelos Estados Unidos, uma solução liberal, que repassa os custos da crise do grande capital para o trabalho. Nesse contexto, América Latina e Brasil estão sendo rebaixados para uma posição ainda mais marginal na divisão internacional do trabalho, o que se pode perceber na indústria nacional, em processo de desmantelamento. Aliado a isso, a linha é apertar o salário dos trabalhadores e o orçamento público e, por outro lado, aumentar as privatizações, com rebaixamento das políticas públicas. E a burguesia, nesse contexto, usa a prática da ignorância: ignora a realidade, chamando de esquerda um governo que é de direita .
Â
Â
Dentro dos parâmetros da ordem, para Plínio, o que podemos discutir é se esse processo será mais rápido ou mais devagar, mais grave ou menos grave. Porém, não estamos discutindo se a situação do povo brasileiro vai melhor. Estamos discutindo em que ritmo vai piorar. Dentro das regras do jogo não há solução para o povo brasileiro. É preciso mudar os parâmetros, as estruturas . A mudança das estruturas é a revolução brasileira, afirmou, chamando os servidores à responsabilidade como categoria integrante da classe trabalhadora e que construiu uma grande luta em 2015. Porém, destacou que, embora a luta corporativa seja importante e justa, é necessária uma nova recomposição da identidade de classe, cujo DNA é o DNA da revolução brasileira.
Â
Â
Para construir essa revolução, temos que sair da escolha binária entre o péssimo e o menos péssimo. Queremos o bom. Mas pra isso temos que fazer a revolução. E isso é muito concreto, são coisas muito práticas. Revolução brasileira é reforma agrária, reforma urbana, política social…e dá pra fazer, contra os que estão no Estado brasileiro, sejam eles travestidos de esquerda ou não. Temos que reconstruir instrumentos da classe trabalhadora. Ainda não sabemos bem como fazer, mas sabemos como não fazer: não fazer como o PT .
Â
Â
Apresentação das resoluções
Â
Â
Após o debate de conjuntura, foram apresentadas duas resoluções nesse tema. Uma delas, do Coletivo Luta Sintrajufe, foi defendida pelo diretor do sindicato Cristiano Moreira. A outra, do Coletivo Viva Voz, foi apresentada pelo colega da JF de Porto Alegre Marcelo Carlini.
Â
Â
Cristiano afirmou que o país está em meio a uma crise econômica profunda do sistema capitalista, em escala mundial, que está gerando efeitos também no Brasil, e vive também uma crise política, que não é só do governo, mas do regime, e que atinge o Executivo, o Legislativo e o Judiciário. Para ele, há um esgotamento da política de conciliação levada a cabo pelo governo do PT , além de uma ofensiva conservadora contra a classe trabalhadora, mas, do outro lado, há também resistência do conjunto dos trabalhadores e dos movimentos sociais: precisamos ser parte do movimento que vai resistir contra esses ataques, lutando ao lado daqueles que não abaixaram a cabeça , defendeu.
Â
Â
Já Carlini concordou que o ajuste fiscal é uma desgraça não só para os servidores públicos, mas para toda a classe trabalhadora . Ele avalia que há uma divisão da burguesia sobre o que fazer no cenário de crise econômica e política, sendo que um setor se jogou na lógica do golpe, que não serve à classe trabalhadora , e outro setor defende que o governo deve ser mantido porque a presidente Dilma Rousseff é a mais indicada para conduzir o ajuste fiscal. Não nos serve nenhum desses caminhos. A única saída positiva para a classe trabalhadora é exigir do governo Dilma que mude de fato a política econômica , afirmou.
Â
Â
A resolução do Coletivo Luta Sintrajufe foi aprovada pelo plenário, com 81 votos, contra 52 votos para a resolução do Coletivo Viva Voz. Houve ainda 21 abstenções.
Â
Por Alexandre Haubrich; fotos: Rosane Vargas.









