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O papel da CUT no movimento sindical e a necessidade de construção de novos rumos foi o tema do debate promovido, ontem, pelo Sintrajufe/RS. Participaram o presidente da Central única dos Trabalhadores do RS (CUT/RS), Claudir Nespolo; o representante da associação sindical Unidos para Lutar e diretor da Federação dos Trabalhadores em Instituições Financeiras do RS, Diego Vitello; e o representante da Central Sindical e Popular (CSP-Conlutas) e presidente do Sindicato dos Servidores do Quadro Especial da SARH (SindiCaixa), Érico Correa.
Na abertura, o diretor Ruy Almeida explicou que, com esse primeiro debate, o sindicato quer que a categoria se aproprie das discussões para decidir sobre a filiação à CUT. Deixando claro que a direção é favorável à desfiliação, ele explicou que, conforme o Estatuto do Sintrajufe/RS, a mesma instância que aprovou a filiação deve aprovar a eventual desfiliação. Como a filiação foi definida em Congresso Estadual, a proposta é que um novo Congresso aprove a realização de um plebiscito sobre o assunto, a fim que de que a categoria decida.
Claudir foi o primeiro a falar. Ele lembrou que o Brasil vive seu mais longo período de democracia continuada. A CUT, afirmou, nasceu de baixo para cima, enfrentando a ditadura, a partir do ascenso das lutas do movimento social. Nenhuma outra central, depois, foi criada da mesma forma. Na opinião do dirigente, as demais centrais se constituíram a partir de interesses burocráticos decididos em gabinetes. O que diferenciou a CUT desde o início, disse Claudir, foi ter um projeto para tirar os trabalhadores do isolamento e disputar a hegemonia rumo a uma sociedade socialista. Antigamente, disse o cutista, só os patrões falavam mal da CUT. Agora, também quem se diz de esquerda faz isso. Segundo ele, há duas intenções: destruir a CUT ou crescer a partir da central.
Quanto à relação entre a central e os governos do PT, ele afirmou que a CUT não é governo, que o papel de oposição ou situação cabe aos partidos políticos. CUT é PT? Não. Claudir disse que todos os petistas são cutistas, mas nem todos os cutistas são petistas. Para ele, muita gente se iludiu quando Lula foi eleito presidente, mas é preciso diferenciar que uma coisa é ganhar o governo, outra é ganhar o poder. A gestão do Estado burguês é feita de tensionamentos , disse Claudir, afirmando que a CUT faz esse tensionamento. Exemplificou com as greves no serviço público de sindicatos cutistas. No governo FHC, foram 133; no governos Lula e Dilma, 248. Ele afirmou que a CUT está ao lado dos servidores, por exemplo, com a luta pela regulamentação da Convenção 151 da OIT, pois entende que só haverá uma completa democratização quando os servidores tiverem data-base, e com a derrota provisória do PL 4.330, da terceirização.
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Diego Vitello afirmou que, em junho, a juventude foi para as ruas e mostrou que, em dez anos, o governo do PT não melhorou a saúde, a educação, o transporte público. Quanto à CUT, ele disse que se tornou uma entidade burocratizada, com cada vez menos participação da base, o que ficaria comprovado com a drástica queda do número de delegados de base nos congressos: no primeiro congresso da CUT, esses representavam 60%; no 4º congresso, apenas 16%. Nos anos 1990, continuou o debatedor, a central trocou a luta direta dos trabalhadores pelas mesas de negociação, pela administração do FAT, passou a agir com uma visão reformista, dentro da ordem. Em 2003, com a Reforma da Previdência, a CUT não só deixou de organizar os trabalhadores, como apoiou a reforma. Depois, o então presidente nacional caiu da presidência da CUT direto para o Ministério . Nos governos do PT, dirigentes sindicais assumiram cargos em direções de empresas estatais, implementando políticas de arrocho e pressão sobre os trabalhadores.
Para apoiar o governo, disse Vitello, a CUT passou a desmobilizar a luta dos trabalhadores. E umas das diferenças que se dizia haver entre PSDB e PTque um privatizava e reprimia e outro nãocaiu por terra com o leilão de Libra, quando o governo privatizou o pré-sal e usou a Força de Segurança Nacional para reprimir duramente os manifestantes e petroleiros. Precisamos rediscutir o sindicalismo combativo no Brasil , afirmou o dirigente, que lembrou grandes greves realizadas nos dois últimos anos. Com a Copa do Mundo, ressaltou, os protestos vão voltar, com a classe trablhadora mais organizada e atenta, pois o país não é aquele cuja imagem Dilma quer passar para fora; é um país em que as pessoas morrem nas filas dos hospitais e cujos jovens, ao terminarem o ensino médio, mal sabem ler.
Vitello disse que não se pode mascarar quem é o inimigo, pois quem não sabe quem é o inimigo luta mal e luta errado. E quem aplica arrocho é o governo do PT. O Judiciário dá um grande exemplo substituindo antigas direções governistas por novas direções, combativas, que estão à altura das lutas dos trabalhadores , concluiu.
A chapa vencedora no Sintrajufe se elegeu com a bandeira da desfiliação, e é salutar esse debate , disse Érico Correa, da CSP-Conlutas. Ele explicou que é dirigente sindical há muitos anos e que, atualmente, não está vinculado a qualquer partido. Discordando de Claudir, ele ironizou: É engraçado dizer que nos construímos em gabinetes, quando nem sede temos . Érico apontou, de início, duas incoerências da CUT. A primeira, no leilão da Vale, quando havia representantes da central no lado de dentro, comprando ações via fundo de pensão, ou seja, beneficiando-se com a privatização; a segunda, quando a CUT bancou o Acordo Coletivo Especial, que retira direitos dos trabalhadores, determinando que o acordado vale mais que o legislado.
Para Érico, uma central tem de ser uma ferramenta de luta autônoma e independente, e não um braço de partido político. Não é possível fazer como a CUT, que na greve dos professores do Rio Grande do Sul, um movimento difícil, não apareceu, não apoiou, porque quem está no governo é Tarso, do PT. Eu tenho lado, que é o de fazer a classe avançar , afirmou.
Logo após, foi aberta a palavra para os colegas se manifestarem. Entre os que defenderam a CUT, os exemplos a favor, muitas vezes, misturaram-se com a defesa do governo do PT: contratação de 400 mil servidores, aumento do salário-mínimo. Alguns afirmaram que a desfiliação do Sintrajufe/RS da CUT significaria o enfraquecimento e o isolamento da categoria.
Os que se manifestaram pela desfiliação foram unânimes: a categoria não se vê representada pela CUT e a luta dos servidores passa ao largo dessa central, que, no Dia do Servidor Público, divulgou, em seu site nacional, uma mensagem de Dilma. A CUT apoiou o governo em um dos ataques mais brutais sofridos pelo funcionalismo, a Reforma da Previdência e, desde que o PT assumiu a Presidência, faz um papel de desmobilização dos trabalhadores, preocupando-se apenas com as sucessivas reeleições petistas e chegou a afrontar a sociedade como um todo ao promover ato de defesa dos mensaleiros em frente ao STF. Também foi ressaltado que muitas das categorias que participaram das greves dos últimos anos não são da base da CUT e que a unidade não depende da filiação a uma ou outra central.
Depois das considerações finais dos debatedores, a direção solicitou que fosse feito um minuto de silêncio em memória do colega Celso Zanette, da Justiça do Trabalho de Passo Fundo, cujo falecimento foi divulgado ontem.
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Atualizado às 18h36min
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