SINDICATO DOS TRABALHADORES DO JUDICIÁRIO FEDERAL E MINISTÉRIO PÚBLICO DA UNIÃO - FUNDADO EM 28 DE NOVEMBRO DE 1998 - FILIADO À FENAJUFE E CUT

DESTAQUE

Seminário promovido por Sintrajufe/RS e TRT4 debate assédio moral

O assédio moral no trabalho e sua relação com a saúde e o sofrimento mental foi o tema de seminário, na sexta-feira, 24, promovido em parceria pelo Sintrajufe/RS e pela Escola Judicial do TRT4. A atividade contou, na parte da manhã, com palestra do médico e psicanalista francês Christophe Dejours; à tarde, os palestrantes foram o desembargador do TRT2, de São Paulo, Valdir Florindo e a professora de Psicologia da Ufcspa e uma das coordenadoras da Pesquisa de Saúde 2016/2017 do Sintrajufe/RS, Mayte Amazarray.

Na abertura da atividade, a presidente do TRT4, Vania Cunha Mattos, enfatizou que o trabalho deve ser fonte de prazer, e não de sofrimento e falou sobre o aumento da carga de trabalho e a incapacidade de vencê-la como produtores de sofrimento. O diretor do Sintrajufe/RS Ruy Almeida, ao falar sobre a importância do evento, lembrou que a Pesquisa de Saúde 2016/2017, realizada pelo sindicato, estabeleceu nexos claros entre a forma de organização do trabalho e a incidência de assédio moral, mostrando que o Judiciário não está livre dessa prática.

As implicações do assédio moral na saúde do trabalhador

Ao iniciar a palestra As implicações do assédio moral na saúde do trabalhador , Christophe Dejours afirmou que o trabalho pode gerar o melhor em cada pessoa e é o meio mais poderoso para se alcançar a realização pessoal, o amor por si mesmo; o trabalho poder ser fonte de regozijo . A ação racional e as relações com os colegas, quando os laços de cooperação funcionam bem, trazem muitas razões para se sentir prazer.

No entanto, o trabalho como fonte de realização e prazer está em colapso, e a prática do assédio moral desponta como presença constante. Diferentemente do que se possa pensar, o assédio não é uma prática nova, disse Dejours; pelo contrário, existe no trabalho desde a Antiguidade. Para o psicanalista, o que mudou não foi o assédio, mas o aumento impressionante de patologias mentais e somáticas decorrentes do trabalho e a introdução de uma nova técnica de gestão, a avaliação individual por desempenho. Trabalhando em cima de resultados quantitativos de cada trabalhador, supostamente neutra, objetiva e indiscutí­vel, a avaliação de desempenho produz o acirramento da competição e, no melhor dos casos, avalia apenas o resultado do trabalho, e não o trabalho realizado. Dejours deu como exemplo o Judiciário: os resultados são apresentados por meio de números de casos, sentenças, processos, mas se o magistrado se depara com um caso difí­cil, talvez passe horas ou dias estudando esse único caso. Seu desempenho quantitativo, ou resultado do trabalho, cai. Por isso, afirma Dejours, não há proporcionalidade entre o volume do trabalho real e o quantitativo medido na avaliação.

O palestrante afirmou, diversas vezes, que a avaliação individual de desempenho não é neutra. Ao colocar em polos opostos a qualidade e a quantidade, gera amargura, sofrimento e até mesmo sensação de trabalho não cumprido. Essa forma de gestão tem três desdobramentos: aumenta o desemprego, pois faz o trabalhador produzir cada vez mais e, com isso o número de pessoas necessárias para produzir o mesmo resultado se torna menor; o aumento do volume de trabalho aumenta exponencialmente as patologias ditas de sobrecarga, como transtornos músculo-esqueléticos, lesões por esforço repetitivo, morte súbita, uso de álcool, estimulantes e drogas; e aumenta a competição entre colegas.

Dejours descreveu como essa forma de gestão degrada o ambiente e as relações de trabalho. As condutas de competição são exacerbadas até virarem concorrência desleal, sabotagem do trabalho do outro, recusa a auxiliar e ensinar. Isso enfraquece as relações de confiança, ficando cada um por si. Evita-se até conversar no trabalho. Saem de cena a ajuda mútua, a generosidade, a solidariedade e entram o egoí­smo, a deslealdade, a hostilidade e, o mais grave, manifesta-se com força a solidão. Fechar-se em seu silêncio, afirma Dejours, é o mais nocivo para a saúde mental. E esse é um cenário propí­cio para o assédio: quando uma pessoa ou algumas pessoas são ví­timas de assédio moral, ninguém as apoia, ninguém se manifesta em seu favor, ninguém manifesta simpatia.

Dejours insistiu que não foi o assédio que mudou; a novidade é o colapso das relações resultante da avaliação individual de desempenho. O assédio é suficientemente ruidoso para que todos saibam que ele existe, mas ninguém intervém. Dejours advertiu que o silêncio torna todos cúmplices indiretos do assédio; portanto, o assédio afeta também os que não são assediados, torna-os covardes, instaura o medo nas relações de trabalho.

Outro elemento importante para a facilitação do assédio foi a introdução da governança nas empresas e, mais recentemente, nas instituições públicas. A organização do trabalho, antes responsabilidade de pessoas com experiência na área, passa para as mãos de um novo personagem, o “gestor”. No Executivo, no Legislativo e no Judiciário, todos precisam ser gestores. Essa guinada é um modo de concretizar mundialmente o neoliberalismo, uma visão que preconiza que as nações devem ser administradas como empresas. Avaliações, certificações, qualidade totalé o que Dejours chamou de máquina de subjugar trabalhadores a uma forma de gestão , enfim, a padronização do mundo e a precarização do emprego e das relações entre as pessoas.

 
Efeitos da avaliação de desempenho e da governança no Judiciário

Para Dejours, que acompanha o Judiciário no Brasil e na França, o cenário sob as novas ferramentas de gestão é calamitoso, pois a Justiça precisa, antes de tudo, de adaptação e individualização, e não de padronização. A busca incessante por produtividade acarreta degradação da expertise e da qualidade das sentenças em prol dos resultados. Ao comprometerem a profissão, magistrados e servidores sentem que violam as regras do direito e o traem, desonram à Justiça e a si próprios . O sofrimento ético vem da aceitação em contribuir para coisas que o senso moral desaprova. Não há mais lugar para o prazer no trabalho nem reconhecimento compartilhado com os colegas; surge o ódio por si mesmo, que é o contrário da realização de si . Muitos não resistem a tentam o suicí­dio, gerado pelo assédio produtivista.


 

O psicanalista descreveu ainda o paradoxo que são as estratégias de defesa contra o sofrimento adotadas pelos que não adoecem ou se suicidam. Nesses casos, servidores e magistrados focam na aceleração por produtividade a fim de paralisar o pensamento crí­tico e, de tanto trabalhar, renunciam ao senso do trabalho bem feito, mas têm como compensação uma promoção, uma progressão ou função. De certa forma, colocam a luta pela carreira em primeiro lugar e renunciam à Justiça e aos cidadãos e seus direitos. Configura-se uma prática coletiva de assédio, contra os que resistem ao que Dejours chamou de cinismo produtivista . Os que resistem são considerados inconsequentes e passam a ser desprezados por não quererem o progresso .

Dejours ressaltou que as práticas de assédio não são algo individual, não são ações maldosas de pessoas maldosas, mas resultado de uma estratégia de defesa contra o sofrimento. É preciso ver que o papel de assediador não é reservado apenas aos outros. Cada um de nós pode vir a ter esse comportamento terrí­vel , afirmou. É preciso reprimir e penalizar quem o pratica e, muito importante, é necessário socorrer as ví­timas, mas sempre tendo em vista que a origem do assédio não está na personalidade de quem assedia, mas na própria organização do trabalho. O que pode modificar a situação atual é uma ação coletiva e uma vontade coletiva de lutar em conjunto, reconstruir a qualidade do trabalho, a solidariedade com os colegas, aprender a falar e a escutar e ter presente que a sua saúde mental não depende apenas de você, mas da solidariedade dos outros, da tessitura de relações que construí­mos .

 
Dano moral e as relações de trabalho

Na parte da tarde, o primeiro painel foi Dano moral e as relações de trabalho , com o desembargador Valdir Florindo. Segundo ele, para tratar de assédio moral não basta o direito do trabalho, pois o assunto é complexo e multidisciplinar. O magistrado disse que é difí­cil legislar sobre o assunto no Brasil e mencionou que atualmente há 11 propostas versando sobre criminalização do assédio moral no Congresso Nacional, todas com tramitação parada. Ele defendeu que o assediado receba uma compensação pelo sofrimento de que foi ví­tima e que o assediador seja advertido, de modo a servir de alerta que a sociedade não aceita esse tipo de comportamento .

Ao falar sobre metas no Judiciário, Florindo desbordou da análise feita pelos demais palestrantes ao afirmar que a pressão por metas não é necessariamente um problema, desde que sejam respeitados limites e que as metas sejam viáveis, possí­veis. Chegando a utilizar como exemplo “o carvão, que sob pressão se torna um diamante”, defendeu uma abordagem mais individualizadora da conduta de assédio enquanto desvio moral, o que contraria as teorias mais avançadas atualmente existentes sobre o tema.

 
A organização do trabalho e seus impactos sobre a saúde mental dos trabalhadores

O último painel do dia, A organização do trabalho e seus impactos sobre a saúde mental dos trabalhadores , foi apresentado pela professora e psicóloga Mayte Raya Amazarray. Ela fez uma breve explanação sobre as primeiras tipificações de assédio moral e casos relacionando saúde mental e trabalho. Para a painelista, jamais se deve apontar a personalidade do assediador ou da ví­tima de assédio como determinante; os elementos-chave para entender o assédio estão no contexto social e de trabalho.

Depois de explicar questões conceituais e metodológicas, Mayte falou sobre a Pesquisa de Saúde do Sintrajufe/RS realizada em 2016. A partir dos dados apresentados, ela mostrou a relação entre a organização do trabalho no Judiciário Federal no Rio Grande do Sul e as incidências de sofrimento mental e assédio moral. Na avaliação da professora, para que a atual realidade de trabalho no Judiciário seja modificada, é preciso pensar no perfil da gestão, e não das chefias; repensar o mundo do trabalho, e não ações pontuais. Além disso, afirmou, é necessário que as pessoas sejam sensibilizadas; quanto mais se conhecer e entender, melhor o caminho para repensar o trabalho e os modos de gestão .

Na avaliação do diretor Ruy Almeida, o seminário foi importante como instrumento de formação para os servidores e os magistrados presentes, representou o atendimento a uma das 10 medidas contra o adoecimento e assédio moral requeridas pelo Sintrajufe às administrações. Tivemos vários colegas presentes, de todos os ramos do Judiciário e também do MPU. Foi um passo importante que precisa ser replicado mais vezes, na Justiça do Trabalho e nos demais ramos do Judiciário , afirmou o dirigente.