
Programação continua nesta quarta-feira, Dia da Consciência Negra, com palestra de Juremir Machado sobre os lanceiros negros e a traição de Porongos
O Sintrajufe/RS programou três dias de atividades na Semana da Consciência Negra. O início foi ontem, com um debate com a servidora da Ufrgs, militante do Quilombo Raça e Classe e da CSP-Conlutas e doutoranda em Educação, Vera Rosane. A debatedora disse que, quando se fala no ingresso do negro no serviço público, é fundamental partir de dois pontos: a importância desse ingresso enquanto força de trabalho e a mudança do olhar sobre essa força de trabalho. Para Vera, é preciso desnaturalizar a falsa aparência de igualdade de acesso a cargos públicos, por isso a importância de o movimento discutir as cotas.
Depois da abolição, foi construída uma história que apagou o negro enquanto sujeito. Não se fala que só havia em torno de 5% de escravos, pois os restantes haviam sido mortos ou fugido do cativeiro. Os negros foram sendo construídos no imaginário social como se não tivessem outra história fora da escravidão, viraram sinônimo de escravos. O Estado brasileiro, disse Vera, construiu o lugar do negro para sair da escravidão para a marginalidade. O decreto 1.331, de 1854, proibia a admissão de escravos nas escolas públicas; o decreto 7.031-A, de 1878, estabelecia que os negros só poderiam frequentar escolas à noite. O Estado não apenas construiu o lugar do negro como subalterno, mas fez de tudo para mantê-lo nesse lugar, e a educação se prestou a esse papel.
Para Vera Rosane, toda a sociedade é responsável pelas formas de educar e pelos hábitos que passam de geração para geração. Temos que dar conta do racismo e opressão , afirmou.
Trabalho
O racismo está posto sob o prisma da exploração do negro, do trabalhador, da mulher, do homossexual e todas as diferenças. A sociedade, da forma como está organizada, se utiliza das diferenças para promover desigualdades , afirmou Vera Rosane. Forma-se um ciclo tal que os negros têm salários menores dos que os dos brancos, as mulheres têm remunerações menores que as dos homens e as mulheres negras estão na posição mais fragilizada, ganham menos por serem negras e mulheres. De acordo com a Organização Mundial da Saúde, a violência contra a mulher no Brasil é um caso de saúde pública, mas esses índices vêm diminuindo; no entanto, quando se trata das mulheres negras, os índices são 30 vezes maiores do que contra as mulheres brancas. As mulheres negras sofrem violência no trabalho, em casa, violência física e moral , concluiu.
A falta de cursos noturnos de ponta nas universidades públicas, disse Vera Rosane, são uma herança do passado escravocrata da sociedade brasileira. Por isso ela reafirmou a importância das ações afirmativas e das cotas, não só nas universidades, mas para ingresso no serviço público. O que é fundamental perceber, ressaltou a debatedora, é que quanto mais precária a função exercida pelo trabalhador, menor o salário; quanto menor o salário, mais negra a mão de obra. Daí a importância de o serviço público incorporar as cotas.
Com os governos da Frente Popular, a situação de negros e negras continua a mesma, não houve avanços. A maior parte dos lutadores foram cooptados e passaram a gerir o Estado em nome do capital, disse Vera. Por isso, ela conclamou que, neste Vinte de Novembro, todos, trabalhadores negros e brancos, vão às ruas para mostrar que querem medidas efetivas que mudem suas vidas.
Debates
Na abertura para os debates, o colega Armando da Silva (JT) disse que os negros precisam se unir mais e conscientizar sobre a falácia da democracia racial. Ele defendeu as cotas para cargos legislativos como uma forma de aumentar a representatividade. Alan Dias (JT) fez um desabafo sobre o desrespeito que sofre a cultura popular de origem negra, como o carnaval, por exemplo, que é segregado. O colega afirmou que, no Rio Grande do Sul, o negro é invisível, só aparece no carnaval e na Semana da Consciência Negra. No Judiciário, ele afirma, o racismo se faz presente de várias formas. Uma delas é a não concessão de FC e CJ para negros e a falta de negros em cargos de chefia, mesmo que tenham a formação necessária.
O diretor do Sintrajufe/RS Ruy Almeida defendeu que o cargo público não é apenas uma forma de possibilitar a prestação de serviço, mas de oportunizar o emprego. Ele disse que a extinção do cargo de auxiliar no Judiciário significa uma elitização, pois reduz as chances de acesso a uma grande parcela da população. O exemplo dos quilombos é permanente, nos mostra que só conseguimos avanços no Brasil lutando e resistindo , concluiu. O colega Paulo Rosa (JT) concordou quando afirmou, em sua intervenção, que nossa luta é diária, vai além da Semana da Consciência Negra .
As cotas têm de entrar no debate do plano de carreira e é preciso garantir a implementação de ações afirmativas, afirmou o diretor Cristiano Moreira. Ele disse que quem tem de ser consultado sobre a pertinência das ações afirmativas é o negro, pois o racismo é velado até que o negro queira entrar na universidade ou no serviço público. A partir daí, o racismo aparece, como ocorreu na Ufrgs, quando foi pintado nos muros que lugar de negro era na cozinha do restaurante da universidade, em meio ao debate sobre cotas.
Para o diretor Fagner Azeredo, as cotas são insuficientes, pois o racismo é um mecanismo perverso de exclusão e opressão que perdura há séculos. Seria necessária uma ação muito mais drástica para revertê-la, afirmou. No entanto, as ações afirmativa são um começo, reconheceu Fagner, porque não podemos esperar .
Depois do debate, todos assistiram ao sarau Na poesia e na canção, elas e eles cantam Bedeu e Delma. O show contou com a participação de Carlinhos Santos, Helô Dias, Joice Mara, Marietti Fialho e Adroaldo Marcil (Dodô). A condução foi de Delma Gonçalves, que costurou cada apresentação, das músicas compostas por ela e pelo músico Bedeuum dos pioneiros do samba-rock no sulcom poemas em homenagem à Semana da Consciência Negra.







