SINDICATO DOS TRABALHADORES DO JUDICIÁRIO FEDERAL E MINISTÉRIO PÚBLICO DA UNIÃO - FUNDADO EM 28 DE NOVEMBRO DE 1998 - FILIADO À FENAJUFE E CUT

DESTAQUE

Primeira edição de Conversas impertinentes , sobre intolerância, lota salão do Sintrajufe/RS

 

 
Teve iní­cio na noite desta terça-feira, 26, o projeto Conversas Impertinentes , com o qual o Sintrajufe/RS se propõe a debater temas de interesse não apenas da categoria, mas de setores mais amplos da sociedade. Comportamento, polí­tica, educação, cultura e outros tantos estarão em discussão sob um prisma fora do lugar-comum, de maneira aberta, impertinente. Para começar, um assunto polêmico e que vem tomando conta do dia a dia: a intolerância. Para ouvir os debatedores, o jornalista, escritor, professor e sociólogo Juremir Machado da Silva e o jornalista, professor e consultor nas áreas de segurança e direitos humanos Marcos Rolim, um público composto por servidores e pessoas da comunidade lotou o Salão Multicultural Alê Junqueira.

 
Primeiro a falar, Juremir citou, como exemplo de intolerância, o biólogo Richard Dawkins, que esteve nesta semana em Porto Alegre, convidado pelo seminário Fronteiras do Pensamento. De acordo com Juremir, Dawkins tem coisas interessantes a dizer, mas é intolerante na sua pregação contra a crença, quando afirmaria que as religiões, quaisquer que sejam, têm feito mal à humanidade. Na opinião de Juremir, é preciso ser intolerante com a intolerância religiosa, não com a crença religiosa , que, para o jornalista, é uma questão pessoal, individual. Ele lembrou o filósofo francês Edgar Morin, que afirmava que, quanto mais a sociedade racionaliza, mais se torna árida, que o efeito perverso da razão é o racionalismo.
 
O jornalista afirmou que é totalmente favorável à crí­tica, criticar é bom . No entanto, lembrou, quem critica também precisa estar aberto para ser criticado. Voltando a falar sobre a intolerância em relação à crença, Juremir ressaltou que, nos mais diferentes lugares do mundo, as mais diversas culturas apresentam a tentação de transcendência . Para ele, é preciso encontrar um caminho que não queira legislar sobre a crença do outro, impedi-la. Segundo Juremir, um mundo menos intolerante é um mundo pluralista, polissêmico, em que há espaço, inclusive, para a crença.
 
Juremir caracterizou a internet como a lata de lixo onde todo mundo odeia e, se não odeia, não é visto, não é conhecido. Para ele, vive-se um momento em que tudo está grenalizado, ou se é coxinha ou se petralha , um perí­odo de extrema polarização. Para o jornalista, com a internet a vida virou uma grande rodoviária de São Paulo , cheia de malas. Segundo ele, o princí­pio do respeito à diferença deve ser observado mesmo quando a posição do outro parece absurda. Nesse caso, disse, podem ser pensadas em três questões: que ou outros pode ter razão?; mesmo que o outro não tenha razão; que o outro pode ser feliz como é.
 
Intolerância e ódio
 
Marcos Rolim começou citando o Prêmio Nobel da Paz de 1986, Elie Wisel, para quem a intolerância está no iní­cio do ódio. Rolim ressaltou que o ódio é uma escada na qual, quando se sobe, é muito difí­cil de descer. Na opinião do debatedor, para vencer o ódio é preciso evitar que ele comece.
 
Quanto ao fenômeno de intolerância atual, Rolim acredita que dois fatos geradores: o fundamentalismo religioso e o fundamentalismo polí­tico-ideológico. O primeiro partiria de um literalismo na leitura de textos sagrados, como se vê em algumas correntes islâmicas, por exemplo, e no Brasil, que está crescendo entre evangélicos neopentescostais. Como se houvesse nos textos uma verdade que está sendo revelada e a intolerância extrema se manifesta contra os que não concordam com essa visão.
 
Para Rolim, compete ao Estado, que laico, assegurar que as pessoas não sejam perseguidas por acreditar ou por não acreditar. Essa liberdade de crer ou não crer, moderna por excelência, está em risco, diz ele, quando, por exemplo, deputados citam texto das Bí­blia para tentar fundamentar justificavas para projetos de lei ou infundir a religião ou a crença como lei. Com a religião não como há perspectiva de debate, diz Rolim, e o espaço polí­tico não é o espaço da crença .
 
 

 
 
 
O fundamentalismo polí­tico-ideológico foi situado, pelo professor, no que classificou como ideologias totalitárias. Ele citou como exemplo Marx, que, de acordo com Rolim, teria descrito a evolução das forças produtivas até o atingimento do socialismo como se fosse algo inevitável, independente da ação humana , uma previsão do futuro que o debatedor chamou de visão religiosa que impregnou a esquerda. Segundo Rolim, a vocação autoritária é historicamente muito forte nos grupos de esquerda.
 
O professor recordou que, o projeto da ditadura, no Brasil, foi derrotado  não da forma como querí­amos, mas foi e a direita alterou seu discurso. Durante muito tempo, ressaltou Rolim, ninguém no Brasil se dizia de direito. Isso foi um constrangimento histórico imposto a esse setor. No entanto, afirmou o debatedor, agora há um processo de desmoralização da esquerda, e o PT dá uma contribuição decisiva para isso . Para Rolim, o PT foi reformado pela polí­tica do Brasil, é não o contrário. Essa desmoralização descrita por Rolim teve como consequência, segundo ele, uma autorização para o reaparecimento, sem véus, do discurso da direita. Portanto, apontou ele, o paí­s vive o paradoxo de, no momento em que passa pela mais longa experiência democrática do perí­odo republicano, não há debate polí­tico, apenas disputa eleitoral sem projetos.

O papel da mí­dia

Depois da exposição dos debatedores, foi aberto espaço para questionamentos e opinião do público presente. A maior parte das pessoas que se manifestaram questionaram o papel da mí­dia comercial na polarização polí­tica atual e difusão do preconceito contra pobres, da homofobia, do racismo e do machismo, entre outros juí­zos de valor que, afirmaram, vão sendo naturalizados pela sociedade.

Em resposta, Rolim disse que a mí­dia é um fenômeno muito complexo, com um papel paradoxal e contraditório e sujeitos infinitos e plurais. Para ele, o mais importante é enfrentar o tema da desqualificação nos programas de rádio e televisão, que são concessões públicas e, de acordo com a Constituição de 1988, precisariam ter uma programação educativa e de formação. Para ele, a expectativa de democratização da cultura que havia com o surgimento da internet não se concretizou. A rede aprofundou distâncias, segundo Rolim: quem tinha mais acesso à cultura aprofundou seu conhecimento; quem não tinha não o busca na rede. Isso porque, resume ele, as pessoas procuram seu espelho.

Para Juremir, a mí­dia no Brasil é golpista, conservadora, mas também multifacetada. Na opinião dele, as pessoas também devem procurar em si mesmas o que há nelas de autoritário, preconceituoso, intolerante: a violência não está nesta ou naquela emissora; está, principalmente, na internet, e esta é feita por todos nós, somos responsáveis , afirmou.

O diretor do Sintrajufe/RS Paulinho Oliveira destaca a atualidade da iniciativa. A importância do projeto e da resposta do público ficam ainda evidenciados na medida em que temas polêmicos como a intolerância estão cada vez mais instalados no nosso cotidiano e é preciso enfrentá-la .

Em junho, o sindicato promove um novo encontro no Conversas impertinentes . Acompanhe a agenda e participe.
 

Por Rosane Vargas, Sintrajufe/RS, fotos: Vilmar Carvalho